Covid-19 e ensino, que estratégia?

Cabe reflectir sobre o receio associado a um significativo número de surtos nas escolas, com constantes interrupções de aprendizagens e sucessivos ajustes de metodologia de ensino, e consequente instabilidade do ano escolar.

Neste regresso às aulas, ante a opção governamental por um ensino presencial, e considerando que o novo coronavírus transmite-se principalmente através de gotículas que ficam no ar quando uma pessoa infectada fala, tosse ou espirra, sendo o contágio facilitado pelo contacto próximo e prolongado, o que aumenta o risco em espaços fechados, com pouca ventilação e muitas pessoas, cabe reflectir sobre o receio associado a um significativo número de surtos nas escolas, com constantes interrupções de aprendizagens e sucessivos ajustes de metodologia de ensino, e consequente instabilidade do ano escolar.

Dado que diversos estudos concluem que o risco de infecção em espaços fechados é muito superior ao risco de contágio no exterior, uma vez que os ambientes fechados promovem eventos de superspread, um importante princípio geral de prevenção deve ser evitar ajuntamentos e privilegiar os espaços abertos em detrimento dos espaços fechados. Ora, sabemos que, ao contrário do que aconteceu nos meses de Verão, neste regresso às aulas será muito difícil – por razões diversas – observar a regra dos três cês, evitando closed contacts (contactos próximos), closed spaces (espaços fechados) e crowded spaces (espaços lotados), estimando-se, em consequência, um aumento considerável dos surtos.

Mesmo considerando algumas medidas adoptadas em muitas escolas privadas, que conseguiram reduzir o número de alunos em cada turma para cerca de metade do número habitual, a verdade é que, por exemplo, na grande maioria das escolas públicas, a composição das turmas ronda os trinta alunos em sala, o que se torna excessivo face à dimensão da grande maioria das salas de aula.

Acresce que, também nas escolas públicas, muitos alunos estão, este ano, sujeitos a uma intensificação dos horários diários, por exemplo de seis horas seguidas em salas, o que para além de aumentar o risco de contágio, exige um reforço de protecção individual dos alunos durante esse período horário.

Para lá do problema gerado pelas sucessivas baixas de professores em quarentena ou isolamento e de alunos (que, nalguns casos, justificarão faltas dos pais para a sua assistência), coloca-se também o problema de cumprir os objectivos de aprendizagem. Como poderão docentes e alunos em quarentena ou isolamento prosseguir esse ensino/aprendizagem? Como é que os professores vão acompanhar ritmos de aprendizagem desfasados de diferentes alunos?

Qual a estabilidade do ensino ou mesmo da economia quando a maioria da população, ou por estar infectada ou por estar suspeita de infecção estiver, sucessivamente, e por diversos motivos, ausente do trabalho ou da escola? Por exemplo, no ensino secundário, com uma população discente mais velha e autónoma, não seria desde logo o ensino não presencial (generalizado ou como modalidade optativa) a solução globalmente menos prejudicial aos alunos, garantindo uma aprendizagem estável?

A transição digital é um dos instrumentos essenciais da estratégia de desenvolvimento, dos objectivos políticos que orientarão a União Europeia no período de programação de 2021-2027, em conformidade com o novo quadro da política de coesão. Daí que, se há muito que vivemos a transição digital – e a adaptação em Portugal tem sido bem-sucedida quer ao nível empresarial quer do ensino – importa avaliar, antecipando estrategicamente, todos os impactos negativos de um agravamento dos surtos.

Com a mudança tecnológica dos últimos anos, no século XXI a tecnologia permite, felizmente, responder a crises súbitas como a actual, acautelando um cenário de instabilidade sucessiva que penaliza o ensino e as aprendizagens.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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