Ordem dos Médicos vai questionar Governo sobre qualidade de dados da DGS

Bastonário da Ordem dos Médicos vai questionar o ministério da Saúde sobre o tratamento de dados de vigilância epidemiológica, onde foram identificados vários erros, inconsistências e omissões nos registos da Direcção-Geral da Saúde (DGS) como homens “grávidos” e doente com 134 anos nos dados de Portugal sobre covid-19.  

Cristina Bernardo

O Bastonário da Ordem dos Médicos vai questionar o Ministério da Saúde como está a ser feito o tratamento dos dados de vigilância epidemiológica, onde foram identificados vários erros, inconsistências e omissões nos registos da Direcção-Geral da Saúde (DGS) como homens “grávidos” e doente com 134 anos nos dados de Portugal sobre covid-19. O pedido de Miguel Guimarães surge após os problemas identificados num estudo de uma equipa de 12 investigadores da Faculdade de Medicina na Universidade do Porto (FMUP) sobre os dados das autoridades de saúde portuguesas sobre covid-19.

“Vou perguntar ao Ministério da Saúde como está a ser feito o tratamento de dados. Erros podem sempre acontecer. Agora temos de minimizá-los”, revelou ao Jornal Económico Miguel Guimarães, dando conta de que pretende “saber como estão as coisas a funcionar e a qualidade de dados”. O bastonário realça que “tem de haver capacidade de resposta. Os profissionais que estão na linha da frente não conseguem fazer os registos todos que estão a ser pedidos”.

Recorde-se que os médicos são chamados a preencher processos em diferentes plataformas – são, pelo menos, três diferentes -, com inúmeros campos para preencher, quando a sua prioridade, frisa Miguel Guimarães, é “obviamente” tratar o doente que têm à sua frente.

Em causa estão problemas identificados num estudo de uma equipa de 12 investigadores da FMUP sobre os dados das autoridades de saúde portuguesas sobre covid-19. No artigo surgem vários exemplos da carga de trabalhos burocráticos que se exige aos médicos: perguntas que vão desde as características demográficas gerais a perguntas relativas aos sintomas individuais, passando por 10 questões específicas sobre comorbidades e ainda mais de 20 questões para caracterizar os resultados clínicos, a gravidade da doença e a utilização de recursos de saúde, incluindo detalhes sobre o isolamento hospitalar.

Há vários exemplos de erros no artigo sobre os dados do SINAVE fornecidos pela DGS aos investigadores: três homens e uma mulher de 97 anos registados como “grávidos”, um doente com 134 anos, outro diagnosticado no dia 50 de maio de 2020, dois doentes com uma “estadia” negativa no internamento do hospital e 19 casos confirmados em datas anteriores ao primeiro caso oficial diagnosticado em Portugal, entre outros.

O estado aponta para “fraca qualidade” dos dados analisados e que constam na base do Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica usado pelos médicos (SINAVE Med). O alerta para estes erros tinha já surgido em agosto mas só agora o estudo completo foi divulgado. Além do SINAVE que é usado pelos médicos, existe ainda o SINAVE Lab, que serve os laboratórios, e ainda o Trace Covid-19 (uma ferramenta de acompanhamento para a pandemia de covid-19, de doentes em vigilância e autocuidados). Aos investigadores apenas foram fornecidos (em abril e depois em agosto) os dados do SINAVE Med.

“Descrevemos algumas questões importantes de qualidade das bases de dados de vigilância portuguesa da covid-19, que podem comprometer a validade de algumas análises, com possíveis implicações graves num contexto de pandemia”, escrevem os autores do artigo publicado a 5 de novembro na plataforma medRxiv, que divulga trabalhos que ainda não foram revistos pelos pares.

Este trabalho analisa as informações transmitidas pela DGS em dois momentos, uma primeira remessa enviada em abril e uma segunda em agosto. Nos dois conjuntos de dados, os autores do estudo identificaram vários erros e falhas que podem levar não só a conclusões erradas sobre a evolução da pandemia em Portugal, mas também a decisões erradas na resposta a este problema de saúde pública.

As conclusões deixam o alerta para os 50 grupos de investigação que estão a tratar os dados fornecidos pela DGS sobre covid-19 no sentido de saberem que estes dados têm erros, inconsistências e omissões. E também para as autoridades por forma a corrigirem o problema da qualidade destes registos.

Nesta segunda-feira, 9 de novembro, a diretora-geral da Saúde justificou que estes dados são de “vigilância epidemiológica”. Graça Freitas reconheceu que não são perfeitos, mas acabou por sublinhar que “a grande prioridade agora é detetar doentes, tratar doentes e isolar contactos”.

Bastonário propôs, em abril, novo sistema de coleta de dados

O Bastonário da Ordem dos Médicos avançou ao JE que em abril propôs um sistema de coleta de dados através da utilização dos estudantes de medicina nos hospitais públicos para ajudar no processo de gestão

“Em abril, na primeira vaga da pandemia, cheguei a sugerir ao Ministério da Saúde a utilização dos estudantes de medicina nos hospitais públicos para ajudar no processo de gestão dos dados”, afirma Miguel Guimarães. Explica aqui que os estudantes de medicina “dominam bem a informática” e podem auxiliar este tratamento de dados “em salas backoffice dos hospitais, não tendo de estar nas urgências”.

O Bastonário da Ordem dos Médicos defende ainda que o Governo “já devia ter reforçado o staff da DGS e a capacidade de resposta, porque, neste momento, tem pouca gente, o que não lhe permite efetuar algumas tarefas com eficácia”.

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