Crime, anunciam eles

Quando a UE anuncia a exigência da reindustrialização da Europa, da recuperação da localização das cadeias de valor no interior do espaço comunitário, não está a falar de empresas industriais/cadeias de valor em Portugal.

É preciso gritar, é preciso escarrapachar em todos os jornais, é preciso pintar em muros e paredes: o encerramento da Refinaria da Galp em Matosinhos é um crime económico e social. Um crime contra a economia do país, contra a soberania energética nacional, contra a região, contra os seus trabalhadores… e, imagine-se, até um crime ambiental!

Toda a argumentação que suporta o crime assenta em refinadíssimas mentiras de refinados mentirosos: a administração da Galp, os seus accionistas maioritários (Grupo Amorim) e o Governo na figura do ministro do Ambiente, o descarbonizador. O “contexto regulatório europeu”, os “efeitos da pandemia de Covid-19” e etc. são tretas para boi dormir. Tudo o que se conhece de documentos da Galp e do Estado é a da excelência ambiental e climática da Galp/Matosinhos. Melhor que Sines… Mentem com quantos dentes têm.

Negam o que disseram em Outubro passado: um “ajustamento operacional planeado” que se traduziria apenas na “suspensão temporária da produção de combustíveis”. Negam o que escreveram há menos de um ano no Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050, Position Paper, elaborado pela Galp (Fevereiro 2019), onde além de críticas a uma descarbonização apressada e o levantar de outras justas questões, afirmaram:

“a) Os hidrocarbonetos continuarão a ser fundamentais durante as próximas décadas para garantir a segurança energética nacional;

b) As refinarias são unidades industriais de processamento de petróleo bruto, que dão origem a um vasto conjunto de produtos derivados de múltiplas utilizações, não sendo possível a produção seletiva de apenas alguns produtos. Um modelo que ponha em causa a viabilidade da atividade refinadora em Portugal terá um forte impacto negativo na balança comercial do país, reduzirá a segurança energética nacional, e conduzirá à importação de produtos petrolíferos para satisfação dos mercados existentes, sem benefícios globais ao nível das emissões de carbono.”

Então como é? Como é possível atreverem-se a escrever o que agora serve para justificar o crime? Talvez o subsídio público de quase 200 milhões de euros para a “transição justa” faça milagres!

E é notável que aqueles que anunciaram agora querer uma “reindustrialização”, que são os mesmos que através da política de décadas de direita, os sucessivos governos PS, PSD e CDS, o desindustrializaram – a sua última malfeitoria foi a CIMPOR – acordarem todos com a destruição destes importantes activos industriais, financiados por dinheiros públicos, e os que se poderão seguir, por dependência de matérias-primas produzidas pela Galp, de que é exemplo o complexo de Estarreja.

E fica um aviso sério. Quando a União Europeia anuncia, com que concordam os anteriores ‘reindustrializadores’, a exigência da reindustrialização da Europa, da recuperação da localização das cadeias de valor no interior do espaço comunitário, não está a falar de empresas industriais/cadeias de valor em Portugal.

Como é cristalino no encerramento de refinarias em Portugal – mesmo que elas tenham brilhantes desempenhos ambientais – para que se mantenham noutros Estados-membros. Ou o fecho da Central Termoeléctrica de Sines – o crime perpetrado a semana passada – para que a Alemanha, a Polónia e outros as possam manter… e até inaugurar novas! E até estão dispostos a pagar para isso. E é também, e ainda, a divisão europeia de trabalho, oleada pelo euro, em acção…

O autor escreve de acordó com a antiga ortografia.

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