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CEO da CUF alerta: “Vamos ter um défice tremendo de cuidadores” com o envelhecimento da população

CEO da CUF Saúde coloca a demografia como o “grande desafio” para a saúde, e avisa que os custos vão aumentar, mas deixa também um alerta: “Quando formos muitos mais mais velhos, haverá um défice tremendo de cuidadores”. Faltarão, por exemplo, enfermeiros para cuidar da população com 80/90 anos.
4 Novembro 2025, 11h02

“Temos na demografia claramente o grande desafio” porque “os custos vão aumentar”, defendeu Rui Diniz, CEO da CUF Saúde esta terça-feira, na Seguros Summit 2025, evento organizado pelo Jornal Económico (JE) que decorreu em Lisboa. Numa reflexão que juntou o CEO da CUF, duas seguradoras e uma especialista em demografia, Rui Diniz sinalizou o envelhecimento, e o consequente aumento dos custos na saúde, é um “problema sistémico que só se resolve com toda a gente a contribuir, reguladores, seguradores, prestadores”, tendo cada pessoa individualmente também “um papel relevante”. “Só trabalhando todos em conjunto é que conseguimos abordar esta dificuldade que é o aumento dos custos em saúde cada vez maior”, reforçou.

Para dar uma ideia do impacto do envelhecimento nos custos de saúde, Rui Diniz trouxe o exemplo do subsistema público, a ADSE, que tem 1,3 milhões de beneficiários, por ser uma “boa base para analisar” a evolução dos custos. Se para beneficiários entre os 40/50 anos o custo médio anual com despesas de saúde é de 500 euros, esse valor chega aos 1.200 na população com mais de 70 anos. Ou seja, se na vida adulta os 3,5% [do salário ou da pensão] que os beneficiários até aos 60 anos pagam é superior ao que beneficiam; a realidade inverte-se a partir dos 70, de acordo com o próprio relatório da ADSE.

O exemplo serviu para se perceber o impacto nos custos do envelhecimento da população no sistema como um todo. Particularmente sobre a CUF, Rui Diniz referiu-se ao aumento dos preços que são cobrados aos seguros bem como aos clientes finais, decorrente do aumento dos custos dos últimos anos, particularmente com o pessoal. Na CUF, disse, mais de 50% são custos com o pessoal (sem os médicos).

“O aumento do salário mínimo nos últimos quatro anos foi de 6 a 8% ao ano, que é muito crítico, e tem um impacto significativo nos custos com pessoal”, assinalou. Para além disso, acrescentou Rui Diniz, “o SNS também tem aumentado muito os custos com pessoal em áreas clínicas, nomeadamente em enfermagem. Estamos no mesmo mercado de trabalho, quando o SNS aumenta salários de enfermeiros 6,7 ou 8%, nós também temos de aumentar”.

Mas o maior desafio para o futuro, alertou o CEO da CUF, prende-se com a pirâmide da população. “Quando viermos a ter muito mais pessoas muito mais velhas, vamos precisar de muito mais pessoas mais novas para tomar conta delas. Vamos ter um défice demográfico tremendo de cuidadores. Vamos ter dificuldades em ter auxiliares de ação médica especializados nestas áreas, já temos e vamos ter mais, e vai faltar-nos enfermeiros para tratar dos mais velhos (…) Para cuidar das pessoas com 80, 90 anos, vamos precisar de pessoas com 20, 30, 40 anos”.

E para dar resposta a esse problema, “temos de pensar” em soluções inovadoras, não havendo uma solução única, pode ser uma “combinação de tecnologia” e monitorização remota, mas “nada vai substituir pessoas”, ressalvou.

Stella Bettencourt da Câmara, professora do ISCSP e especialista em demografia, começou por assinalar que nos últimos 50 anos “conseguimos melhor muito a a qualidade de vida da população”. “Temos muito mais pessoas velhos” e isso “resulta da melhoria das condições de vida”. Segundo as previsões, se hoje em dia a população com 65 ou mais anos corresponde a quase  24%, em 2030, passará a ser superior a 30%.

O que nos leva ao problema central: “desde 1983 não fazemos rejuvenescimento da população”. “É preciso aumentar a natalidade. Precisamos de pensar no futuro”, disse a professora, considerando a imigração fundamental. “Todavia, precisávamos de um número muito maior”, considerou.

Numa altura em que em estudo já estão os “super centenários” – em Portugal há quase 3 mil pessoas com mais de cem anos e não estão acamadas – , a demógrafa defendeu que é crucial que nos reinventemos tendo em conta o cenário de uma maior longevidade, jogando com a prevenção mas também com mais formação. “Não posso ter 60 anos,  [e pensar que vou] reformar-me e ir para casa. É preciso preparar esse descanso. Temos uma maior longevidade, é preciso olhar para a economia da longevidade, cooperar com os outros, e com os mais novos também”, defendeu.

Seguido esse raciocínio, Stella Bettencourt da Câmara reforçou a ideia da prevenção como sendo “fundamental”, assim como o desenvolvimento da “economia de cuidado questões que passam pela formação”. “Cada um de nós saber exatamente o que quer. A solidão mata mais do que ataques cardiovasculares ou fumar. (…) E a solidão não é só dos mais velhos, também é dos jovens”. Em resumo: “Cada um de nós tem o ónus no processo de envelhecimento e as organizações têm responsabilidade” porque o “envelhecimento é de facto irreversível”.

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