Dados confimam “necessidade” de alterar paradigma de planeamento, afirma investigador

“Eu diria que estes números não são surpreendentes e não vieram trazer nada de novo relativamente à forma como a classe política deve olhar para estes territórios”, considerou o investigador em desenvolvimento regional João Lourenço Marques.

O investigador em desenvolvimento regional João Lourenço Marques afirmou hoje que os dados preliminares dos Censos 2021 “não são surpreendentes” e confirmam a necessidade de alterar o paradigma em relação à forma como se planeiam os territórios.

Os dados divulgados hoje pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que na última década, entre 2011 e 2021, Portugal registou um decréscimo populacional de 2% e acentuou o padrão de litoralização e concentração da população junto da capital.

“Eu diria que estes números não são surpreendentes e não vieram trazer nada de novo relativamente à forma como a classe política deve olhar para estes territórios”, considerou o investigador em desenvolvimento regional João Lourenço Marques, em declarações à agência Lusa.

Apontando que “a zona litoral teve um maior dinamismo demográfico, em contraponto às zonas do interior, o que era de esperar”, João Lourenço Marques sublinhou que aquilo “que é novo relativamente aos últimos censos é que quase todos os municípios perderam população”.

“Na década 2001-2011 verificou-se uma tendência de polarização das zonas mais urbanas no interior do país. Num contexto de algum declínio demográfico, na zona interior do país, as zonas mais urbanas […], apesar de inseridas em contextos demográficos mais frágeis, foram tendo aumentos generalizados da sua população em relação às zonas mais periféricas rurais”, afirmou o investigador.

Lourenço Marques realçou que os resultados hoje apresentados seguem “as tendências europeias” e Portugal, não sendo exceção, “tem vindo a apresentar um crescimento natural em quebra e um acentuado processo de envelhecimento da sua população”.

“Temos vindo a verificar um progressivo e, até ver, irreversível processo de envelhecimento da população, que tem efeitos que não devem ser negligenciados no planeamento e na forma como gerimos a política pública quanto a este nosso território, uma vez que tem implicações a vários níveis”, salientou.

O professor da Universidade de Aveiro referiu que o país se habituou a “planear para a expansão, para o crescimento”, defendendo, porém, a necessidade de “mudar um pouco o ‘chip’ e começar a saber a forma como gerir territórios que estão em profundo processo de declínio e envelhecimento demográfico”.

“Mais do que a apresentar números do passado e do presente, importa projetá-los para o futuro de modo a antecipar as respostas que são as desejáveis e as necessárias”, reforçou.

Na perspetiva de João Lourenço Marques, a classe política tem tido uma ação “mais reativa”, através da construção de escolas e criação de mais serviços, por exemplo.

“Mas, de facto, a médio prazo é preciso olhar para estes territórios e perceber como é que poderemos encará-los e contrariar, que eu acho que é muito complicado fazer, mas pelo menos gerir esse processo de transformação demográfica”, defendeu.

Portugal tem hoje 10.347.892 residentes, menos 214.286 do que em 2011, segundos os resultados preliminares dos Censos 2021.

Em termos censitários, a única década em que se tinha verificado um decréscimo populacional tinha sido entre 1960 e 1970, indicou o INE.

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