‘Data-based opinion making’

Podemos e devemos procurar informação antes de formar opiniões. As nossas opiniões podem mudar quando confrontadas com peças de informação diferente, e isso é um avanço imenso na forma como nos relacionamos uns com os outros.

Na medicina, sensivelmente a partir da década de 90, começou-se a falar ativamente na Evidence based practice – ou seja, na utilização da melhor evidência disponível para tomar decisões sobre tratamentos de doenças.

Na gestão, aproximadamente na mesma altura, começou-se a falar de Data based decision making. O princípio é basicamente o mesmo. A tomada de decisão nas empresas, negócios, organizações deve ser baseada em dados concretos que suportem a decisão. A intuição e a experiência devem ser complementadas com dados quando estes existam.

A evidência tem demonstrado que muitas vezes as intuições estão completamente erradas (veja-se, por exemplo, as 12 rejeições que J.K Rowling teve antes de publicar Harry Potter) e que ignorar os dados pode ser fatal (a NASA sabia que havia um problema nos O’rings do Challenger antes de o lançar no espaço para a sua primeira e última viagem).

A razão pela qual as intuições estão muitas vezes erradas tem a ver com o facto de as decisões serem tomadas por seres humanos que têm as suas perceções e a sua visão do mundo e as transportarem inexoravelmente para onde quer que vão e no que quer que façam.

No fantástico livro de Hans Rosling, “Factfulness”, demonstra-se isso mesmo: a importância das perceções que temos do mundo que nos rodeia na forma como agimos; e mais assustador, o facto de a maior parte das vezes estas perceções estarem distorcidas em resultado de notícias negativas veiculadas pelos media, que nos fazem ter uma visão pessimista do mundo, e dos dogmas, medos, sentimentos de culpa, etc. que cada indivíduo carrega.

No site de Hans Rosling (Gapminder) apresenta-se um teste de ignorância onde o leitor pode testar a sua ‘ignorância’ sobre o mundo. O objetivo do projeto Gapminder é lutar contra a ignorância tentando cultivar um fact-based worldview que possa ser partilhado e entendido por todos. A dimensão da nossa ignorância não é tema novo. Vários filósofos e pensadores têm frases que atestam isso mesmo: como o “Só sei que nada sei”, atribuído a Sócrates, ou “O verdadeiro conhecimento é conhecer a dimensão da nossa ignorância”, atribuído a Confúcio.

Vivemos numa era em que tomar decisões ou formar opiniões sem factos e sem evidências é completamente desnecessário, pois o conhecimento e a informação abundam. De acordo com a NodeGraph há um total de 2,7 zetabytes (que são 1021 bytes) de dados no universo digital. Por outro lado, de acordo com a mesma fonte, em junho de 2017 estavam ativos 3 885 567 617 utilizadores de internet, o que significa que 51,7% da população mundial estava online.

Nesta era digital, neste manancial de dados e de informação em que nos movemos, termos como Big Data, Business Analytics, Business Intelligence são cada vez mais cruciais para as organizações. Contudo, também no dia a dia de cada indivíduo esta informação pode e deve ser usada para mudar a forma como nos relacionamos e exprimimos ou formamos as nossas opiniões. A intuição e experiência são obviamente importantes, mas muitas vezes podem ser validadas ou reforçadas por dados.

Claramente há informação que é de difícil compreensão para o público em geral, e facilmente podemos ficar confusos pelo excesso de informação muitas vezes apontando em sentidos opostos. Tudo isso é verdade, mas dizer faço assim, acredito que é assim, ou isto é bom, só porque sim não faz mais sentido nos dias de hoje. Podemos e devemos procurar informação antes de formar opiniões. As nossas opiniões podem mudar quando confrontadas com peças de informação diferente, e isso é um avanço imenso na forma como nos relacionamos uns com os outros.

Avanço, pois tal processo implica a humildade para reconhecermos a nossa ignorância, para mudarmos de opinião face a novos factos, para reconhecermos os nossos enviesamentos, e para abrir a mente a coisas novas e diferentes. E como dizia Einstein, “a mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao tamanho original”.Chegamos à era da informação que pode ser também a era da consciência e da maturidade!

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