Definitivamente não…

É neste âmbito que enquadro a ação do atleta Moussa Marega. i.e., como efeito catalisador para a discussão do tema do racismo nas sociedades modernas, num contexto generalizado de incerteza e ascensão do populismo.

Sendo certo que quando uma coisa está imóvel, permanecerá nesse estado para sempre, a menos que uma força a coloque em movimento (Lei da Inércia ou Primeira Lei de Newton, 1643-1727).

É neste âmbito que enquadro a ação do atleta Moussa Marega. i.e., como efeito catalisador para a discussão do tema do racismo nas sociedades modernas, num contexto generalizado de incerteza e ascensão do populismo. Com efeito, não obstante, a sua condição de jogador de futebol, o racismo pouco tem a ver com o futebol. De resto, o jogador foi imediatamente apoiado pelo seu técnico, colegas de equipa e adversários; e, mais tarde, por uma onda de solidariedade internacional da generalidade dos colegas de profissão um pouco por todo o mundo. A sua cor também não o tem impedido de exercer uma das profissões melhor remuneradas do mundo, entre pares brancos, amarelos e pardos, entre outras cores que compõem o mosaico das equipas de futebol.

Neste sentido, não quero afirmar que seja impossível de acontecer no futebol, mas tenho profunda convicção que é muito difícil encontrar noutro sector, além do desporto e particularmente do futebol, uma profissão que facilite tanto o acesso a uma profissão em igualdade de circunstâncias, a brancos, negros, desfavorecidos e outros franjas marginais e estigmatizadas da sociedade. Aliás, vê-se pelas profissões que os jogadores conseguem pós carreira, sempre com tristes exceções, a ascensão e notoriedade social que atingem, permitiu, por exemplo a George Tawlon Manneh Oppong Ousman Weah (1966-), tornar-se no 25º Presidente da Libéria, um caso máximo de distinção.

De salientar, ainda, que para além dos dados mais fáceis de quantificar, como a formação desportiva, ocupação de milhares de jovens, da saúde e bem-estar que a prática do futebol promove e a poupança que gera aos cofres do Estado, o futebol tem também uma função social reguladora e de catarse das massas. De facto, uma grande parte da população ocupa os dias da semana a discutir os resultados das suas equipas e aproveita o fim de semana para purgar as tensões que acumulam de uma vida difícil de trabalho, mal remunerado, com frequência insuficiente para sustentar uma família e uma ínfima parte do salário de um jogador, que de resto quase sempre idolatram e refletem como espelho nos cortes de cabelo e na moda.

Neste quadro, aquilo que Moussa Marega alegadamente ouviu a respeito da sua cor, não é exclusivo do atleta. Os árbitros, dirigentes e os jogadores, em geral, independentemente da raça ou cor, escutam regular e indiscriminadamente o mesmo tipo de impropérios acerca deles mesmos, das respetivas mulheres, dos pais, das mães, ou mesmo dos seus animais de estimação, não estando ninguém imune. No entanto, nada disso é pessoal, nem a culpa da situação que leva os indivíduos a adotarem tais comportamentos é do futebol, muito menos dos seus jogadores e demais intervenientes. Trata-se antes de um problema mais complexo de educação e, acima de tudo, de contextualização civilizacional. No século XXI, definitivamente não é mais tolerável insultar alguém em função da raça, molestar crianças, agredir mulheres, maltratar animais. Felizmente desenvolveu-se uma consciência coletiva universal que pretende pôr fim a todos esses fenómenos de intolerância e violência em relação a seres humanos e mesmo aos animais.

Assim, como referimos acima, sendo certo que quando uma coisa está imóvel, permanecerá nesse estado “de graça” para sempre, a menos que uma força a coloque em movimento. Já o contrário, muito embora a razão seja a mesma, saber que, por si  só, nada pode mudar, nada nos garante que quando uma coisa está em movimento, permanecerá eternamente em movimento: Antes que pare, passe a “moda”, é importante que nos ajude a dar um salto para outro patamar civilizacional. “Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade, não pela cor de sua pele” disse Martin Luther King Jr (1929-68). A frase foi proferida a 28 Agosta de 1963, numa marcha organizada em Washington pelo emprego e a liberdade, na qual ele apelou aos direitos civis e económicos e ao fim do racismo nos Estados Unidos[1].

A 16 de Fevereiro de 2020, no Estádio D. Afonso Henriques, e já lá vai, mais de meio século, infelizmente o tema ganhou atualidade. Por outras palavras, por via do atleta Moussa Marega o tema do racismo voltou à discussão e não podemos, infelizmente, garantir que o seja pela última vez. Todavia, resta-nos a esperança, que os cidadãos entendam a partir de todas as movimentações, a existência de um novo paradigma social, que não tolera mais práticas ancestrais ofensivas de crianças, mulheres e homens, condicionantes da sua existência de seres humanos livres, independentemente do credo, género, raça e idade.

[1] https://en.wikipedia.org/wiki/I_Have_a_Dream.

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