Demografia dita sangria de alunos, professores e escolas

Em dez anos, Portugal perdeu 400 mil alunos da creche ao secundário. Corpo docente reduziu e envelheceu e parque escolar diminuiu significativamente.

A população portuguesa tem vindo a envelhecer de modo significativo nas últimas décadas, em resultado da conjugação de uma tempestade perfeita: aumento da esperança de vida com uma diminuição da taxa de natalidade. A que se somou durante a crise, entre 2010 e 2015, uma nova sangria com a saída dos jovens em idade de constituir família e de apostar na continuação dos seus estudos. Em cinco anos, o país perdeu cerca de meio milhão de pessoas.

No ano letivo 2019/2020, que arrancou esta semana para todos os níveis de ensino (pré-escolar, básico e secundário), cerca de 1,6 milhões de crianças e jovens voltam às aulas – uns descobrindo pela primeira vez a escola e os seus enigmas, outros regressando cheios de entusiasmo ou resignados para continuar os estudos. O Educação Internacional aproveitou para visitar as estatísticas e os números que encontrámos deitam por terra qualquer ambição do país em relação ao futuro.

Desde o ano 2000, as escolas perderam quase 250 mil alunos, uma média de 13 mil por ano. No entanto, se compararmos o número de alunos que frequentaram os anos letivos de 2008/2009 e 2009/2010, período áureo da população estudantil no século XXI, a queda ronda os 400 mil. Lemos bem. Isto significa que em apenas uma década – entre 2008/2009 e 2017/2918 – as creches e escolas portuguesas perderam quase meio milhão de alunos. Tendo como ponto de partida 2008 e de chegada 2018, há a registar perdas na casa dos 34 mil no pré-escolar, 87 mil no 1.º ciclo do ensino básico, 51 mil no 2º. ciclo, 97 mil no 3º. ciclo e 14.600 no ensino secundário.

Os números são oficiais, constam do documento “Educação em Números” da Direção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) recentemente disponibilizado. Uma sangria que está longe de estancada. Dado à estampa semanas antes, o estudo “Evolução demográfica e consequências para a realidade educativa portuguesa” da Fundação Edulog conclui no mesmo sentido. “Os dados recolhidos mostram que ocorrerá a curto prazo uma diminuição significativa do número de jovens, o que terá consequências sobre as necessidades de docentes e de espaços escolares”. Não é o único problema a que se aponta o dedo: “Portugal, apesar dos progressos dos últimos anos, ainda apresenta taxas de retenção, nomeadamente no ensino secundário, demasiado elevadas em relação à média europeia”.

Como contrariar os números?
Regressando às estatísticas da Direção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência e centrando-nos na última década, no ano letivo 2007-2008, Portugal contava com 12.347 estabelecimentos de ensino, uma década depois o número caíra para 8.469. No geral, em dez anos deixaram de funcionar 3.878 escolas, entre públicas e privadas.

Menos alunos e menos escolas conduzem naturalmente a menos professores. No período em apreço, o número de docentes caiu 31.154. Todos os ciclos de estudo perderam professores, mas a maior queda deu-se no grupo do 3.º ciclo e do secundário, que perdeu 14.603, passando de 91.325 em 2008-2009 para 76.722 em 2017/2018.

Além de menos professores, a fotografia que o “Educação em Números” nos dá mostra também um corpo docente mais grisalho, que praticamente duplicou na faixa etária dos 50 aos 59 anos: de 24.411 no virar do milénio, cresceu para 43.210 no ano passado. E praticamente quadruplicou na faixa dos 60 ou mais anos, atingindo os 12.931 em 2018. No espaço de duas décadas, os professores com idade inferior a 30 anos quase desapareceram. De 27.121 em 2000/2001 passaram para uns insignificantes 1.200 em 2017/18, caindo 25.921.

Outro número que emagreceu foi o dos auxiliares e administrativos nas escolas. Há 20 anos, o corpo de funcionários era de 62.231, atualmente situa-se em 52.337.

No regresso às aulas, o resultado desta longa subtração dá que pensar.

Ler mais
Recomendadas

FCT da Universidade de Coimbra reduz pegada de carbono com mais de 1.800 painéis fotovoltaicos

As obras de instalação dos mais de 1.800 painéis fotovoltaciso tiveram o apoio financeiro do Banco Santander-Totta.

Brasil lança portal para impulsionar mobilidade académica internacional

A plataforma online, lançada durante a conferência anual da FAUBAI em Belém do Pará, disponibiliza mais de 1.300 atividades e cursos para estudantes estrangeiros.

Pais podem aprender a escolher livros para os filhos

Faculdade de Ciências Humanas da Católica promove curso livre de livro infantil, apoiado pela APEL.
Comentários