“Dependendo das medidas de contenção, o impacto na economia pode ser devastador”, diz economista

Pedro Brinca, economista e professor na Nova SBE, diz que o mercado imobiliário em Portugal deverá sentir os efeitos, já que “está intrinsecamente” ligado à dinâmica do turismo e pode sofrer um abrandamento pronunciado.

Pedro Brinca, o economista e professor universitário da Nova SBE, alerta que os efeitos na economia das medidas de contingência do Covid-19 poderão “ser devastadores”. Ao Jornal Económico, antecipa ainda que o turismo e o mercado imobiliário em Portugal deverão sentir uma quebra acentuada como consequência da propagação do Covid-19.

“Portugal é uma pequena economia aberta, ainda que menos aberta que outras pequenas economias abertas como a Holanda, Bélgica ou Irlanda. Em termos de efeitos directos do comércio com a China, apenas 3% das nossas importações vêm de lá e exportamos para lá cerca de 1% do nosso volume total de exportações. A questão é primeiramente a disrupção das cadeias de valor”, refere. Dá o exemplo de empresas como a Riopele, “com baixa exposição direta ao mercado chinês – apesar de o mercado italiano ser um destino importante – com problemas na produção porque os químicos que importa da Alemanha e Suíça, são lá fabricados a partir de componentes oriundos da China”.

“Por outro lado, a grande alavanca do crescimento económico em Portugal nos últimos anos – o turismo – é provável que observe uma contração significativa”, antecipa, recordando que a Tailândia reportou recentemente uma quebra homóloga de 70% do volume de vendas. “Apesar de não sermos um destino principal para os Chineses – que são o maior gastador mundial em turismo – outros destinos irão de certeza sofrer o impacto e por em prática medidas agressivas de vendas que podem ter impacto na procura por Portugal”, acrescenta.

Também o mercado imobiliário deverá sentir os efeitos, já que “está intrinsecamente” ligado à dinâmica do turismo e pode sofrer um abrandamento pronunciado.

“Isto são apenas alguns efeitos a nível de alguns sectores, os primeiros a sofrerem os efeitos da pandemia. Dependendo das medidas de contenção que forem implementadas, o impacto na economia pode ser devastador”, alerta.

O economista sublinha que “a mera decisão de fechar as escolas terá consequências importantíssimas uma vez que isso pode fazer com que os pais também tenham de ficar em casa e o absentismo dispare, com consequências imprevisíveis, mais uma vez pela intrincada rede de interconexões das cadeias de valor”.

Já o condicionamento do acesso a um conjunto de infraestruturas, como transportes públicos, centros comerciais, entre outros podem alimentar também a crise produtiva, conduzindo a uma quebra na procura interna. “Muito do consumo que temos hoje tem uma matriz social – restaurantes, espetáculos”, exemplifica.  “Por outro lado, num clima de incerteza, tipicamente o consumo em geral cai, excluindo eventuais fenómenos de açambarcamento de bens essenciais – a não negligenciar já nos próximos dias”, acrescenta.

“A quebra na procura externa vai depender do que acontece nas outras economias, mas os principais parceiros – Espanha à cabeça – também estão com graves problemas. Estes efeitos combinados podem gerar problemas sérios de cash-flow nas empresas, em particular em Portugal onde as PMEs têm um peso tão elevado. Portugal tem pouca capacidade para lidar com isto de forma isolada, mas pode ser uma oportunidade para as instâncias europeias se afirmarem ainda mais na sua capacidade de resposta a uma crise que vai afectar todos os países membros”, diz o economista, que é um dos subscritores do manifesto que apela à União Europeia uma ação conjunta.

Pedro Brinca diz que “a eventual crise, apesar de potencialmente poder vir a ser bastante acentuada, também se espera que seja de rápida recuperação”, mas “uma vez controlada a pandemia, muito do abrandamento ou mesmo queda da produção anterior pode ser recuperada e espera-se um crescimento acentuado após a situação estar sob controlo”.

Ler mais

Relacionadas

Grupo de economistas pede financiamento de emergência “de grande escala” para combater impacto do Covid-19

Grupo de 13 economistas de várias universidades portuguesas assina um manifesto no qual defende que “o preço de atuar hoje será muito menor do que o de atuar amanhã”. “Não queremos ser os sonâmbulos do século XXI”, dizem, num apelo à União Europeia.
Recomendadas

IRS: Novas retenções dão um euro por mês em salários de 750 euros. Já salários de 5.000 euros têm ganho mensal de 35 euros. Veja as simulações

As tabelas de retenção da fonte, que detalham a aplicação do alívio fiscal que consta no Orçamento do Estado, foram hoje publicadas em dezembro, chegando a tempo do processamento dos salários de janeiro. Veja aqui as simulações da EY sobre o impacto efetivo da redução das taxas nos rendimentos das famílias, nos diversos escalões de rendimentos.

Taxas de retenção: Alívio no IRS dá 3,8 euros por mês num salário médio

Tabelas de retenção do IRS já foram publicadas. Trabalhadores dependentes já podem calcular quanto irão descontar todos os meses. Para um salário mensal médio de 1.266 euros, solteiros têm um ganho mensal inferior a quatro euros o que perfaz um aumento do rendimento disponível anual de 53,2 euros. Para casais com mesmo salário e dois filhos ganho anual é de 56 euros.

Salários até aos 686 euros ficam isentos de IRS em 2021

Retenção de IRS começa para quem ganha mais de 686 euros. Alívio no imposto do próximo ano que reflete a redução as taxas de retenção na fonte do IRS no início de 2021. Medida abrange dois milhões de contribuintes e contempla uma redução média (e progressiva) de 2% nas retenções. Trabalhadores dependentes já podem calcular quanto irão descontar todos os meses.
Comentários