Deutsche Bank investiga venda enganosa de produtos de banca de investimento em Portugal

Embora o Projeto Teal se tenha concentrado inicialmente em Espanha, o âmbito da investigação foi posteriormente alargado ao resto da Europa, mas o Deutsche Bank acredita que apenas os clientes de Espanha e Portugal foram afetados, diz o FT que cita fontes.

Staff / Reuters

O Deutsche Bank está a investigar internamente a alegada venda indevida de produtos de banca de investimento por algumas unidades do banco. A investigação foi desencadeada por reclamações de clientes no ano passado, noticiou o Financial Times.

O banco alemão está assim a fazer uma investigação interna sob suspeita de ter havido mis-selling (venda enganosa de produtos financeiros). Em causa estará a venda de ativos sofisticados e complexos de banca de investimento a clientes empresas, em violação das regras da UE.

A investigação interna – com o nome de código Projeto Teal – foi acionada por reclamações de clientes no ano passado, avança o FT que cita fontes.

Inicialmente concentrou-se numa divisão em Espanha, que vende hedge funds, swaps, derivados e outros produtos financeiros complexos.

Embora o Projeto Teal tenha se concentrado inicialmente em Espanha, o âmbito da investigação foi posteriormente estendido ao resto da Europa. Mas, segundo o FT, o Deutsche Bank acredita que apenas os clientes de Espanha e Portugal foram afetados, diz o jornal que cita fontes. No centro estará um ex-funcionário do banco que já saiu da instituição financeira, acrescentou o FT.

O Deutsche Bank esteve em Portugal com a área de private banking, vendida entretanto ao Abanca, e mantém-se no mercado português apenas com a banca de investimento.

A auditoria interna constatou que o Deutsche Bank classificou erradamente as empresas suas clientes, no que toca às regras da Diretiva de Mercados de Instrumentos Financeiros (DMIF). Esta diretiva exige que os bancos separem os seus clientes por níveis de sofisticação financeira e de capacidade de exposição ao risco financeiro, como investidor de retalho, investidor profissional ou contraparte (outro banco ou instituição financeira).

Concretamente, a DMIF impõe aos intermediários financeiros o dever de classificarem os seus Clientes de acordo com três categorias – Clientes Não Profissionais, Clientes Profissionais e as Contrapartes Elegíveis, para efeitos de aplicação de um nível de proteção mais ou menos elevado.

O Deutsche Bank acredita que parte de sua equipe vendeu intencionalmente produtos inadequados a clientes que podem não ter sido capazes de perceber o risco que estavam a assumir com esses investimentos, refere o FT.

O banco alemão não está a analisar apenas alguns casos isolados, mas sim aquilo que parece ter sido um padrão mais amplo de má conduta ao longo de vários anos, refere ainda o jornal britânico.

O Projeto Teal vai mais longe e está mesmo a investigar se houve conluio entre bancários do Deutsche Bank e algumas pessoas das empresas clientes que compraram produtos inadequados. Uma hipótese que segundo o FT está a ser explorada é apurar se não houve um conluio para que os dois lados da transação (o banco vendedor e a empresa compradora) dividissem os lucros da dos resultados da transação.

“Iniciamos uma investigação em relação ao nosso envolvimento com um número limitado de clientes”, disse o banco num comunicado. “Não podemos comentar os detalhes até que todos os aspectos da investigação estejam concluídos”, diz o Deutsche Bank ao FT.

O banco terá que levar as conclusões finais da investigação aos reguladores e avançar com as medidas que pretende tomar.

Os principais reguladores do Deutsche, BaFin e o Banco Central Europeu, já foram informados da investigação, segundo o FT.

O foco da investigação do Projeto Teal é a divisão do banca de investimento do Deutsche Bank, que foi a única impulsionadora do crescimento dos lucros do banco nos primeiros nove meses de 2020. Impulsionada por um boom global de negociação de títulos, a receita da divisão de banca de investimento disparou 35% num ano.

O presidente-executivo do banco, Christian Sewing, que está no cargo desde abril de 2018, assumiu um compromisso de melhorar o controle interno do banco alemão e as funções de compliance.

O Deutsche Bank divulga os seus resultados anuais a 4 de fevereiro, quando o CEO informará os investidores sobre o seu programa de corte de custos.

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