[weglot_switcher]

Dez anos, três crises políticas. Marcelo vai sair da Presidência “a pé”, tal como chegou em 2016

O professor universitário de Direito, entretanto jubilado, vai terminar hoje, aos 77 anos, o seu segundo e último mandato consecutivo como Presidente da República.
9 Março 2026, 07h00

A presidência de Marcelo Rebelo de Sousa distinguiu-se pelo contacto próximo dos cidadãos, atividade intensa e uso frequente da palavra, com estabilidade política no primeiro mandato e instabilidade no segundo, em que decretou três dissoluções. Como candidato às eleições presidenciais de 24 de janeiro de 2016, Marcelo teve recomendações de voto de PSD e CDS-PP, mas fez uma campanha solitária para afirmar a sua independência.

Nessas eleições, foi eleito Presidente com 52% dos votos expressos, à primeira volta. Passados exatos cinco anos, em 2021, foi reeleito com 60,67%, com o apoio de PSD e CDS-PP, numas presidenciais realizadas em plena pandemia de covid-19, em que o PS optou por não apoiar nenhum candidato, mas aprovou uma moção com “avaliação positiva” do seu primeiro mandato.

Até essa altura, a estabilidade política tinha prevalecido, no seu primeiro mandato, com dois governos minoritários do PS suportados à esquerda, sem nenhuma crise política, embora com momentos de tensão política, sobretudo após os incêndios de 2017, que mataram mais de 100 pessoas.

No início do segundo mandato, face ao chumbo do Orçamento do Estado, dissolveu o parlamento. Desfeita a “geringonça”, das eleições de 2022 resultou um Governo do PS com maioria absoluta, ao qual o chefe de Estado pediu “responsabilidade absoluta”. Foi o terceiro executivo de António Costa, que se demitiu no fim de 2023 por causa de uma investigação judicial. Marcelo Rebelo de Sousa decretou nova dissolução, esta mais controversa. Terminava a sua dupla com o primeiro-ministro António Costa, que se prolongou por mais de oito anos, um período sobre o qual, mais tarde, comentou: “Éramos felizes e não sabíamos”.

Na sequência das legislativas antecipadas de 2024, formou-se um executivo minoritário PSD/CDS-PP chefiado por Luís Montenegro, que no ano seguinte caiu no parlamento com a rejeição de uma moção de confiança, apresentada no contexto de uma polémica sobre a empresa da família do primeiro-ministro Spinumviva.

Perante a queda do Governo, o chefe de Estado decretou a sua terceira dissolução da Assembleia da República, desta vez sem vozes contra — igualando Ramalho Eanes no uso da chamada “bomba atómica”.

A partir do fim de 2023, viu a sua imagem afetada, envolvido, por intermédio do seu filho, no caso de duas crianças gémeas luso-brasileiras com uma doença rara tratadas no Hospital de Santa Maria com um dos medicamentos mais caros do mercado, divulgado por reportagens da TVI.

Questionado sobre como pensa que será recordado pelos portugueses, Marcelo Rebelo de Sousa respondeu que não faz “a mínima ideia”, mas sublinhou que, quando assumiu o cargo, ponderou se deveria mudar a sua “maneira de ser” e decidiu que não. Segundo o chefe de Estado, essa decisão já estava tomada quando subiu a rampa do Palácio de Belém, a 9 de março de 2016.

“Não vou mudar, porque depois não fica nem carne nem peixe. Nem fica aquilo que a pessoa é, nem aquilo que quer ser para vestir um fato institucional e uma maneira de agir e de proceder, mesmo ritualmente, que não é a sua maneira de ser”, justificou.

“Agora, deu bem, deu mal. Umas vezes, porventura, deu melhor. Outras vezes, deu pior”, comentou.

Marcelo Rebelo de Sousa recordou ainda que “tinha chegado a pé” à Assembleia da República no dia em que tomou posse e que tenciona também “sair a pé, claro”.


Copyright © Jornal Económico. Todos os direitos reservados.