Digitalizar não é transformar

A enorme disponibilidade de ferramentas digitais não implica automaticamente uma mudança na forma de trabalhar. É diferente digitalizar empresas de transformar profissionais.

A transformação digital é o novo mantra do mundo empresarial. A expressão utiliza-se para referir mudanças importantes nas organizações através da utilização das novas tecnologias digitais. Representa a evolução do conceito mais simples de “digitalização”, associado à incorporação de ferramentas e à automatização de processos, para uma outra formulação mais abrangente que inclui o impacto na vida das pessoas, sejam trabalhadores ou clientes.

Com a digitalização temos conseguido gerar grandes caudais de dados nas empresas, que servem para alinhar os participantes nos processos e para quantificar os resultados. Esses fluxos de informação ajudam na criação de experiências diferentes, como as decorrentes da nova geração de serviços de mobilidade, que multiplicam as opções dos utilizadores com base no cruzamento da informação sobre as necessidades dos clientes, a disponibilidade de meios de transporte, a localização dos agentes e os meios de pagamento eletrónicos.

Mas, para além da desmaterialização dos produtos tradicionais em serviços inovadores, as tecnologias digitais apresentam uma característica única: pela primeira vez na história, uma família de tecnologias é capaz de mudar em simultâneo os sistemas produtivos, como o referido anteriormente, e a forma de transmitir conhecimento.

Esta circunstância multiplica o impacto, em termos de profundidade e abrangência, dos processos de digitalização na economia e na sociedade. No entanto, a enorme disponibilidade de ferramentas digitais não implica automaticamente uma mudança na forma de trabalhar. É diferente digitalizar empresas do que transformar profissionais porque a tecnologia muda rapidamente, mas as pessoas fazem-no lentamente. Os motivos e as vantagens de qualquer mudança devem ser suficientemente claros para motivar a mudança, sempre penosa, e mobilizar as pessoas.

A transformação digital aspira a materializar o impacto das novas famílias tecnológicas, evoluindo de simples substantivos a verbos de ação. De um instrumento a uma mentalidade, de um facilitador a um resultado, que permite interligar as pessoas com outras pessoas e com todo o tipo de objetos de uma forma diferente.

Mas a realidade dista ainda desta situação. Temos as ferramentas do futuro, mas ainda não sabemos operar com elas construtivamente. A teoria clássica da gestão da mudança não se aplica facilmente nestes processos de transformação porque a revolução digital tritura as ideias da Revolução Francesa de trabalho e capital.

A inteligência artificial, a robótica e, continuando com o exemplo mais próximo dos serviços de mobilidade, as plataformas de serviços, alteram radicalmente os pressupostos em que assenta a arquitetura social, de forma que a transformação digital se transfigura numa nova realidade social em que todos somos incumbentes e que é difícil de desenvolver ordenadamente.

De forma simplificada, a adoção destas tecnologias poderá seguir dois caminhos opostos: o dadismo ou quantificação extrema de todas as nossas atividades; ou um humanismo renovado, tecnicamente mais sofisticado, que procure no nosso interior e da sociedade no seu conjunto o sentido do que está a acontecer. O “eu quantificado” ou um “eu diferente” e, desejavelmente, melhor.

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