Direito à Esperança

Acredito que iremos vencer esta pandemia, iremos vencer qualquer crise que por aí venha, como sempre soubemos fazer, ao longo da História! Iremos saber preservar a nossa Democracia e o Estado de Direito. Mas, acima de tudo, acredito no Amor, no Ser Humano e na oportunidade que nos é dada de construir um mundo melhor, sem medos e sem ódios. Temos direito à Esperança.

A morte tornou-se pornográfica, “voyerista”, exibe-se nos noticiários, acentua-se a espetacularidade do noticiado, contribui-se para o espetáculo do medo, para o estabelecimento de um pânico coletivo, quase permitindo que não se diferencie o certo do errado, a verdade da não-verdade. A proliferação de informação, excessiva, muitas das vezes fazendo uso de fontes não fidedignas e a velocidade de informar, tantas vezes não permite a verificabilidade da veracidade das fontes de informação. Mas, ironicamente iremos voltar a ter tempo, para nós, para o outro.

Uma pandemia, lembra-nos, de que, somos todos iguais neste mundo, independentemente de todas as idiossincrasias sociais e culturais. Somo-lo, não perante a morte, mas perante o direito à vida. É a vida a dar-nos mais uma oportunidade de reconhecermos o outro ser humano, tal como é. Não é a morte, é a vida a dar-nos a oportunidade de repensarmos a nossa própria existência, enquanto seres humanos, enquanto sociedade.

Uma sociedade que não queremos envolta na cegueira do medo. Mas esta nossa sociedade, contemporânea, global, tecnológica, hipermediatizada, provavelmente não quer ver, aquilo a que levou ao estado a que chegámos (não falo do vírus, nem de “teorias da conspiração): falo da globalização e do fracasso das políticas económicas neoliberais, do hiperconsumismo e da especulação financeira. Porque, “o pior cego é aquele que não quer ver”.

Dostoiévski disse que “todos somos responsáveis de tudo, perante todos” e essa responsabilidade implica necessariamente, revelarmos o melhor de nós, na partilha do sofrimento, na preocupação pelo bem estar de cada ser humano. Mas necessariamente, refletirmos e criticarmos a qualidade das transformações que ocorreram no orbe onde vivemos. Mas, o nosso contributo resume-se ao auto-isolamento e a obedecer passivamente?

Se o nosso melhor contributo é ficarmos em casa – fiquei em casa – aproveitemos, para que, em cada lar, se dê atenção àqueles com quem durante muito tempo, não lhes dedicámos o nosso precioso tempo.

Tantas vezes, soubemos passar mais tempo no trabalho, na escola, na internet, do que em casa, com a família, com aqueles que amamos. É a vida a dar-nos a oportunidade de mudar-mos, de apercebermo-nos do essencial, tantas vezes relativizado, de que tudo é efémero, e por isso mesmo, vale a pena lutarmos pela vida, pela nossa, pela do outro. E afinal, a tecnologia não soluciona a distância, a separação do outro, antes acentua a saudade.

As lideranças serão mensuráveis, não apenas pela prática discursiva, mas essencialmente pelas ações concretas  tomadas e pelos seus resultados. Em devido tempo exigir-se-ão as responsabilidades devidas, a quem não soube estar à altura das suas responsabilidades, uns por relativizarem o perigo, outros por iludirem com falsas ações e falsos discursos populistas. Sevindo-se do púlpito, uns garantem o perpetuar de uma sua autoridade em cadência.

Quem mais habilmente souber iludir as “massas” com o medo e com “falsos prestígios” e melhor exercer discursos demagógicos inconsequentes, talvez consiga se perpetuar no poder. Hoje, exigimos aos decisores públicos e aos líderes políticos, não só o pragmatismo necessário, para encontramos juntos as soluções para o futuro coletivo, como acima de tudo, a capacidade de estabelecer os maiores consensos, com a moderação necessária, para que não se contribua para o intensificar de futuros litígios.

Henrique Raposo num recente artigo, “O medo da morte pode retirar-nos o amor pela liberdade” mas que isso não nos leve a “venerar um qualquer tirano” que prometa que não vamos adoecer. A este respeito Benjamin Franklin terá dito que “aqueles que se dispõem a renunciar à liberdade essencial em troca de uma pequena segurança temporária não merecem liberdade nem segurança”. Trumps, Johnsons e Bolsonaros, além de “falsos profetas” entronizados em tantos “falsos prestígios”, pela inoperância, de não saberem lidar com a pandemia, perigosamente abrem espaço aos totalitarismos, mais radicais do que eles próprios, agora, mais legitimados pelo medo, justificam a xenofobia e a exclusão social.

Como escreveu Almada Negreiros em 1933 – num ano de má memória – “a nossa querida terra está cheia de manhosos (…) E numa terra de manhosos não se pode chegar senão a uma terra de falsos prestígiosÉ o que há mais agora por aí em Portugal: os falsos prestígios”.

O poder da palavra, pode levar-nos a fecharmos mais os olhos, e deixarmo-nos seduzir por “falsos prestígios” e novas “autoridades” ganhas em tempos de “Fogueiras em São Domingos”. E uma vez envoltos numa maior cegueira, perigosamente legitimamos os discursos populistas, justificando a perda das liberdades individuais e um falso ganho de uma nova soberania.

Parafraseando José Saramago, no seu “Ensaio sobre a cegueira”, citando o “Livro dos Conselhos” de El-Rei D. Duarte: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” Porque, há “cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem.” No “Manual de Pintura e Caligrafia”, o mesmo autor alerta que “nunca faltaram caminhos para chegar aonde a oculta vontade ambiciona: basta que se encontrem os pretextos.” Saramago sabia bem, “a cegueira também é isso, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança.”

Acredito que iremos vencer esta pandemia, iremos vencer qualquer crise que por aí venha, como sempre soubemos fazer, ao longo da História! Iremos saber preservar a nossa Democracia e o Estado de Direito. Mas, acima de tudo, acredito no Amor, no Ser Humano e na oportunidade que nos é dada de construir um mundo melhor, sem medos e sem ódios. Temos direito à Esperança.

Saibamos por isso, todos, juntos, mesmo que à distância, sermos construtores e sinal da Esperança, neste mundo que é nosso!

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