“Em tudo o que fizermos, a minha administração será inspirada por uma forte procura pela excelência e pelo sucesso incansável”, disse o presidente Donald Trump no seu discurso inaugural da segunda temporada à frente da Casa Branca a 20 de janeiro de 2025. Um ano após prometer uma “nova era de sucesso nacional”, a administração tornou, na sua ótica”, os Estados Unidos da América mais seguros, ao dissuadir cartéis de drogas e interromper a imigração ilegal, além de ter obtido uma economia forte e um boom nas exportações de energia”.
Foi neste contexto, que Donald Trump se dirigiu à nação no tradicional discurso sobre o Estado da União, o mais longo de sempre – aproximadamente uma hora e 47 minutos, quebrando o recorde que ele mesmo havia estabelecido no ano passado perante o Congresso – onde se referiu ao país como “a era de ouro da América”, na tentativa de projetar uma aura de sucesso apesar dos índices de aprovação em queda e da crescente frustração dos eleitores antes das eleições de meio de mandato de novembro. Em parte porque, dizem os analistas, as tarifas impostas pelo presidente ao arrepio do Congresso – e agora proibidas pelos Supremo Tribunal – retiraram poder de compra aos norte-americanos.
Atendendo aos apelos de parlamentares republicanos preocupados com a possibilidade de perderem a maioria no Congresso em novembro, nas eleições intercalares, Trump dedicou a primeira hora do seu discurso à economia, afirmando ter desacelerado a inflação, impulsionado o mercado de capitais para níveis recorde, sancionado amplos cortes de impostos e reduzido os preços dos medicamentos.
Mas o problema do custo de vida foi central. Trump tentou culpar o seu antecessor democrata, Joe Biden, pelos altos preços, mas as sondagens de opinião, entretanto citadas abundantemente pela imprensa norte-americana, mostram que os eleitores responsabilizam Trump por não ter feito mais para aliviar a crise habitacional, depois de ter feito campanha incansavelmente sobre o assunto.
“A nossa nação está de volta — maior, melhor, mais rica e mais forte do que nunca”, disse Trump após subir ao palco sob aplausos de ‘USA, USA’ dos republicanos no Congresso, com dezenas de assentos vazios no lado democrata, um lembrete de que muitos parlamentares faltaram ao discurso para participar de manifestações anti-Trump do lado de fora.
Durante grande parte do discurso, Trump mostrou-se disciplinado, parecendo querer manter-se no texto preparado e evitando as suas digressões habituais, improvisadas – afinal, a parte mais ‘saborosa’ das suas intervenções. No entanto, exibiu o seu lado combativo ao discutir as políticas de imigração, trocando insultos aos gritos com vários parlamentares democratas.
Trump gabou-se de todas as “vitórias” que os EUA conquistaram durante o seu mandato, antes de apresentar outros vencedores: os membros da seleção masculina de hóquei no gelo, que entraram na câmara ostentando as medalhas de ouro que ganharam nos Jogos Olímpicos de Inverno no domingo passado. Um momento que Trump usou para anunciar que o melhor marcador da equipa, , Connor Hellebuyck, receberia a Medalha Presidencial da Liberdade.
Embora Trump tenha afirmado que a inflação está “a descer”, os preços de alimentos, da habitação, dos seguros e dos serviços públicos permanecem significativamente mais altos do que há alguns anos. Novos dados divulgados na sexta-feira, recorda a agência Reuters, mostram que a economia desacelerou mais que o esperado no último trimestre, enquanto a inflação acelerou. Uma sondagem da Reuters/Ipsos revelou que apenas 36% dos norte-americanos aprovam a gestão da economia.
Trump, que atacou o Supremo em termos pessoais após a decisão sobre as tarifas, conteve-se esta terça-feira, cumprimentando os quatro juízes presentes ao entrar no plenário. E classificou a decisão como “lamentável”, mas argumentou que, em última análise, ela teria pouco impacto em sua política comercial.
Como é costume, o presidente dedicou pouco tempo à política externa – a intervenção é marcadamente ‘caseira’ – embora tenha concentrado grande parte das suas energias no cargo em questões internacionais. E afirmou novamente ter “acabado” com oito guerras. Mas mal mencionou a Ucrânia, apesar de terça-feira ter marcado o quarto aniversário da invasão russa. Também não falou sobre a China, principal rival económica dos Estados Unidos, nem sobre a Gronelândia, território dinamarquês que ameaça anexar, nem esclareceu os seus planos para o Irão. “A minha preferência é resolver este problema por meio da diplomacia”, disse. “Mas uma coisa é certa: jamais permitirei que o maior patrocinador do terrorismo no mundo, que é de longe o caso, possua uma arma nuclear”.
Quando Trump abordou o seu tema favorito, a imigração, repetiu a mesma retórica que animou a sua campanha de 2024, alegando que imigrantes indocumentados eram responsáveis por uma onda de crimes violentos, apesar de os estudos mostrarem que não é verdade. “Vocês deveriam ter vergonha”, disse aos democratas, repreendendo-os por se recusarem a financiar o Departamento de Segurança Interna, a menos que sejam tomadas medidas para conter as táticas agressivas dos agentes de imigração, que já causaram vários mortos.
A resposta democrata
Aliás, enquanto falava sobre o assunto, a democrata Ilhan Omar, que representa um distrito de Minneapolis na Câmara dos Representantes, gritou: “Você matou americanos!”. Entretanto, o deputado democrata Al Green – antiga estrela em ascensão na era Clinton – foi expulso da Câmara dos Representantes pelo segundo ano consecutivo por exibir uma placa que dizia “Negros não são macacos”. A mensagem fazia referência a um vídeo que Trump publicou nas redes sociais, no qual o ex-presidente Barack Obama e a ex-primeira-dama Michelle Obama eram retratados como macacos.
Outros democratas expressaram mensagens de protesto mais discretas. A representante Jill Tokuda, democrata do Havaí, usava uma jaqueta branca com as palavras ‘acessibilidade’ e ‘saúde’ estampadas. Diversas mulheres democratas usavam crachás com a frase ‘liberem os arquivos’, uma referência ao escândalo envolvendo o criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein. Cerca de uma dúzia de mulheres que acusaram Epstein compareceram como convidadas dos democratas.
A governadora da Virgínia, Abigail Spanberger, uma democrata cuja vitória em novembro foi um sinal de alerta precoce para os republicanos face às eleições de meio de mandato, apresentou a resposta oficial do seu partido, criticando Trump por abandonar os norte-americanos em dificuldades. “O presidente está a trabalhar para tornar a vida mais acessível para as famílias?”, perguntou. “Todos nós sabemos que a resposta é não.”
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