Dívida portuguesa deverá continuar a beneficiar da ação do BCE

Portugal pagou juros negativos pela primeira vez numa emissão de dívida a 10 anos. Os analistas consultados pelo Jornal Económico mostram-se otimistas sobre os custos da dívida pública dos países da zona euro, realçando o papel do Banco Central Europeu.

A política adotada pelo Banco Central Europeu (BCE) para ajudar os países a combater o impacto da crise provocada pela pandemia deverá continuar a ser o garante de um financiamento sem dificuldades para Portugal, que goza de boa reputação junto dos investidores depois dos upgrades das agências de rating nos últimos anos, fomentados pelos bons resultados da economia e pela estabilidade política. Na semana passada, Portugal financiou-se a taxas negativas numa emissão de dívida a dez anos no mercado primário e os analistas consultados pelo Jornal Económico estão alinhados sobre a continuidade da ação do banco central.

“Portugal, tal como outros parceiros europeus, tem a folga orçamental que a União Europeia permitir. Nestes níveis de yields e endividamento, a credibilidade da União Europeia e do BCE é o verdadeiro fator que sustenta a economia nacional. A realidade de cada país tem, para já, um impacto diminuto na situação, em especial quando comparamos com o que sucedeu na última década, onde a Itália, em função do seu volume de dívida face ao total na zona euro, será a única exceção”, diz Nuno Sousa Pereira, head of investments da Sixty Degrees.

O analista sublinha que todos os países pretendem utilizar os fundos disponibilizados pelo Plano de Recuperação, cujas primeiras verbas deverão chegar no segundo semestre. “As autoridades nacionais ainda não quantificaram com exatidão o impacto económico dos anteriores confinamentos, nem as perdas associadas à quebra de turismo, do último verão, que se refletirão em quedas no consumo interno deste ano. Neste sentido, estando em território desconhecido, o Governo português não deverá ter grande margem para uma expansão orçamental que seja suficiente para resolver a grande maioria dos problemas causados pela pandemia e pelas políticas seguidas em sua função”, vinca.

Por enquanto os mercados financeiros continuam otimistas em relação à dívida pública dos países da zona euro e os juros da dívida pública portuguesa estabelecem e renovam sucessivos mínimos históricos, salienta Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa.

“As compras de obrigações, sem limite de quotas, por parte do BCE suporta em parte a dívida pública dos países do sul da Europa. Os sinais transmitidos para os mercados de maior coesão europeia, no passado mês de junho, aquando das negociações dos pacotes de estímulos à economias mais penalizadas da União Europeia, nomeadamente as do sul da Europa onde o peso do turismo e dos serviços é significativo, vieram suportar a compra de dívida dos países do sul da Europa e estreitar os spreads em relação aos juros alemães”, vinca.

Paulo Rosa recorda que em 2021, o Estado português planeia emitir 15 mil milhões de euros de dívida em Obrigações do Tesouro, “cerca de 5% do montante total da dívida pública nacional, atualmente a rondar os 268 mil milhões de euros, e espera-se que a procura se mantenha firme perante a sustentação do BCE e a perceção de coesão europeia”.

“Não se espera que o Estado português, suportado pelo BCE e pela crescente perceção de maior coesão europeia, tenha dificuldades em satisfazer os 14 mil milhões de euros de necessidades líquidas de financiamento previstas para o corrente ano”, antecipa, dando nota de que apesar da pandemia ter levado a um acréscimo de quase 20 mil milhões de euros de dívida pública – – “dos cerca de 250 milhões no final de 2019 para os 268 milhões atualmente” -, o “serviço da dívida não subiu em resultado da descida da taxa de juro que permite novas emissões a preços mais baixos e já com juros negativos nas maturidades a 10 anos”.

Carlos Almeida, diretor de investimentos do Banco Best, enaltece a importância do excedente orçamental de 2019, considerando que mais do que uma almofada financeira permitiu o reforço da confiança dos investidores em Portugal. “Neste período pandémico, o risco soberano de Portugal continuou a melhor, estando agora em níveis melhores que os seus congéneres do Sul da Europa. Em situação sem igual, estão a ser tomadas medidas de controlo da situação pandémica e a minimização dos efeitos negativos dos condicionamentos à atividade económica”, assinala.

“O maior estímulo económico é manter a capacidade produtiva e assegurar os empregos. Só assim, teremos uma recuperação económica mais célere. Para o efeito, os governos da zona euro contam com as iniciativas do BCE que, para já, tudo farão para assegurar condições financeiras favoráveis à atividade económica e, ao mesmo tempo, as várias iniciativas políticas da Comissão Europeia no sentido de auxiliar os vários programas de recuperação e resiliência assim com a preservação dos empregos”, conclui.

Para Pedro Lino, chairman da Optimize, “neste momento a questão do endividamento ou da folga [orçamental], não se coloca, porque o BCE irá apoiar, ou tomar medidas para que todas as emissões de dívida sejam bem sucedidas e a taxas zero ou negativas”. O especialista admite, contudo, que “não há duvida que dentro de quatro ou cinco anos teremos de abordar o perdão de dívida a nível mundial, a conversão em dívida perpétua detida por bancos centrais, ou outra forma de reestruturar as finanças publicas, pois neste momento é impossível a normalização de taxas de juro”.

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