E depois do adeus? Tarantini quer mudar mentalidades

Tarantini, jogador e capitão de equipa do Rio Ave FC, lidera, desde 2016, um projeto para sensibilizar os jogadores e os jovens atletas, ainda em formação, para eventuais problemas de fim de carreira. “Os jogadores de futebol não estão preparados para terminar a carreira”. Tarantini quer mudar o padrão.

Foto cedida

A inexistência de planeamento financeiro, a falta de preparação para imprevistos, a falta de habilitações académicas para uma segunda carreira profissional, a falta de suporte familiar e o divórcio são as principais razões que levam um jogador de futebol, ou qualquer outro atleta de alta competição, a desorientar-se, depois de terminar a carreira.

Ricardo Monteiro, futebolista do Rio Ave FC, mais conhecido por Tarantini, enquadra “perfeitamente” estas cinco razões, identificadas pela “Sports Illustrated” (SI), em 2009, na realidade do futebol português.

“Os jogadores de futebol não estão preparados para terminar a carreira”, conta o jogador ao Jornal Económico. É esta a constatação que leva Tarantini a procurar alertar as novas gerações de futebolistas, através do projeto “a minha causa”, lançado em setembro de 2016, para uma realidade bem diferente daquela que o futebol promete.

A maior parte dos atletas não chega ao patamar profissional desejado e os que chegam, segundo o jogador, acabam por tomar decisões que podem prejudicá-los no fim da carreira: “O vazio que fica quando deixam a competição, associado a uma transição que não é voluntária, pode deixar marcas negativas e traumáticas”.

“A minha causa”, que, por enquanto, pretende sensibilizar para esta questão, resulta dos 16 anos de carreira profissional no futebol do jogador português. “Vejo os meus colegas viverem num mundo que não é real”, sintetiza Tarantini, sem querer generalizar, e realça que tem visto “balneários pouco interessados na vida pós-futebol”.

O atleta, de 34 anos, mestre em Ciências do Desporto pela Universidade da Beira Interior, quer que os atletas compreendam, principalmente os mais jovens, que “a vida é bem mais importante do que tudo o resto” e, por isso, é importante procurarem estar preparados para o fim da carreira.

“O jogador de futebol que eu conheço tem uma orientação única para a sua prática, o que significa que vê esta profissão como exclusiva para o resto da sua vida”, e é precisamente esta postura que deve mudar, através de um projeto que o jogador considera ter “mensagens transversais a toda a sociedade”.

Fábio Faria, de 28 anos, atualmente a treinar a equipa júnior do Rio Ave, e Hugo Leal, de 37 anos, aceitaram falar com o Jornal Económico sobre o fim das suas carreiras. O primeiro, que tem acompanhado Tarantini em iniciativas de “a minha causa”, contou que quando deixou os relvados, aos 23 anos, por problemas cardíacos, levou pelo menos um ano a compreender a situação: “foi complicado, tive que recorrer a um psicólogo e a um psiquiatra”.

O agora treinador das camadas jovens de Vila do Conde, que foi formado pelo Rio Ave e que conta com uma passagem pelo Valladollid, de Espanha, Paços de Ferreira e pelo SL Benfica, disse que deve a sua atual estabilidade à sua família, à sensibilidade do clube da Luz – com o qual tinha contrato quando foi detetado o problema cardíaco que o afastou dos relvados -, e ao apoio do Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF) e do Rio Ave, que abriu “as portas” ao antigo atleta.

Já Hugo Leal, que terminou a carreira aos 33 anos, depois de uma carreira em clubes como SL Benfica, Atlético de Madrid, Paris Saint-Germain ou FC Porto, conta que não passou por “grandes dificuldades”. O atual diretor para a Formação e Projetos Internacionais do GD Estoril Praia, explica que estava financeiramente “bem” e que os problemas físicos no fim da carreira “facilitaram a opção de deixar o futebol”, mas sentiu a necessidade de concluir a escolaridade obrigatória. O ex-jogador lembra que na sua época era muito difícil conciliar os estudos com o futebol.

A mudança necessária

Aos dados da SI, Tarantini soma a convicção de que “mais de 90% dos futebolistas em Portugal não garantem um pé-de-meia vitalício”. O cenário agrava-se se tivermos em conta um estudo do Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol, de 2016, revelador de que 45% dos jogadores não tem qualificações para enfrentar o mercado de trabalho no final da carreira desportiva.

A mensagem de “a minha causa” está assente em quatro eixos (palestras, estatísticas, vídeo-documentários e livro homónimo), que já chegaram “a mais de seis mil pessoas em universidades, associações, clubes e escolas”, mas Tarantini diz não ter ainda conseguido atingir o seu objetivo. O futebolista quer levar o projeto até 5% da população portuguesa, mas até agora tem encontrado “fortes barreiras” junto de várias instituições. O atleta do clube de Vila do Conde procura ainda estabelecer parcerias com outras entidades a fim de melhorar a divulgação do projeto e a sua “operacionalização em diferentes eixos”.

Mas não deveria a Federação Portuguesa de Futebol (FPF), a Liga Portuguesa de Futebol, ou os clubes, e a SJPF procurar salvaguardar os interesses dos jogadores profissionais, pensando também no fim das suas carreiras? Tarantini acredita que a FPF, como órgão máximo do futebol nacional, “teria maior peso nesta matéria”, assim como os clubes e outras “pessoas influentes” na carreira dos jogadores” (empresários e familiares). Junto da FPF e do SJPF, o Jornal Económico apurou que ambos trabalham em parceria em, pelo menos, três projetos: educação financeira, constituição de um fundo de pensões e um projeto de saúde mental, intervindo junto de jogadores profissionais e incluindo jovens em início de carreira.

Questionada, a Liga não mostrou disponibilidade em falar sobre o assunto.

Artigo publicado na edição digital do Jornal Económico. Assine aqui para ter acesso aos nossos conteúdos em primeira mão. Este foi o primeiro de quatro artigos sobre o fim da carreira de um jogador de futebol. Lei-a as restantes partes que se seguem:

Hugo Leal: “Deixar o futebol não é uma iniciativa do jogador”

Joaquim Evangelista: “Futebolistas não estão conscientes das dificuldades após o fim da carreira”

Tarantini: “O fim da carreira no futebol pode deixar marcas negativas e traumáticas”

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