EDP estuda projeto de produção de hidrogénio verde em terreno da central de Sines

A central a carvão de Sines vai demorar cinco anos a desmantelar, mas a elétrica já estuda a possibilidade de implementar um projeto de produção de hidrogénio verde neste terreno. Sobre a data de encerramento da central – janeiro de 2021 -, a EDP diz que manifestou a sua “intenção de encerrar a central nessa data”, e que aguarda agora uma decisão da DGEG.

Cristina Bernardo

A EDP está a estudar a implementação de um projeto de produção de hidrogénio verde no terreno da central de Sines, após o encerramento da central a carvão.

A elétrica anunciou esta semana que pretende encerrar a central de carvão de Sines em janeiro de 2021. A decisão foi justificada com o crescimento da produção de energias renováveis, mas também com o “crescente aumento dos custos da produção a carvão, aliado a um agravamento da carga fiscal, e com a maior competitividade do gás natural, as perspetivas de viabilidade das centrais a carvão diminuíram drasticamente”.

Para o futuro do terreno da central, a EDP diz que “está a ser avaliado um projeto de produção de hidrogénio verde para essa localização”.

A elétrica avança também que os “trabalhos de descomissionamento e desmantelamento deverão iniciar-se após o fecho da central, devendo durar cerca de cinco anos”.

Questionada sobre o custo de desmantelamento da central, a EDP diz que “essa estimativa está ainda em avaliação”. Um estudo da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) de 2018 apontava que o desmantelamento teria um custo estimado de 73 milhões de euros, segundo um relatório citado pelo Dinheiro Vivo.

Sobre o desenvolvimento do projeto de hidrogénio verde, a EDP diz que “está empenhada em trabalhar para a descarbonização da economia e para o cumprimento das metas de sustentabilidade. Nesse contexto, está envolvida no projeto de hidrogénio verde em Sines (anteriormente designado como ‘Green Flamingo’), nas suas várias vertentes”.

“Esperamos que este projeto, que está atualmente em avaliação pelo governo e por um consórcio de empresas (entre as quais a própria EDP), possa dar início a um novo ciclo no atual processo de transição energética. A expetativa é que possa também ser um novo polo de dinamismo para a economia local e do país”, segundo fonte oficial da EDP.

A elétrica também avança que “está ainda em fase de conclusão o Fundo para a Transição Justa, que pretende apoiar processos de transição como este e promover um novo dinamismo económico nas regiões afetadas pelo fecho de indústrias com maiores emissões de gases de efeito de estufa, através do apoio a fundo perdido de um conjunto de atividades essenciais para essa transição”.

Governo rejeita indemnizar EDP se vida da central a carvão tiver de ser prolongada 

Depois da EDP anunciar que pretende encerrar a central a carvão de Sines em janeiro de 2021, o Governo veio a público alertar que a elétrica não vai ser compensada se a vida da central tiver de ser alargada para manter a segurança de abastecimento em Portugal.

O ministro do Ambiente congratulou-se com o anúncio, mas apontou que a “situação ideal seria a o encerramento da central acontecer já com as barragens do Alto Tâmega a funcionarem e com a construção da linha 400 kilovolts que ligará Ferreira do Alentejo a Tavira concluída”, afirmou. A linha de transporte de eletricidade referida é essencial para transportar a eletricidade produzida nas centrais solares planeadas para o sul do país até aos lares dos consumidores.

João Pedro Matos Fernandes disse no Parlamento na terça-feira que a DGEG ainda terá de avaliar se o encerramento nesta data é “concretizável”, pois terá de ser avaliado se o fecho da central de Sines não coloca em causa a “segurança de abastecimento” do país.

Se colocar em causa a segurança de abastecimento, e a se a central tiver de continuar a operar por mais tempo, o Governo vai rejeitar “qualquer compensação à empresa”, disse o ministro na comissão parlamentar  de Ambiente, Energia e Ordenamento do Território.

Questionada sobre as declarações do ministro do Ambiente, a EDP aponta que “apresentou à DGEG um pedido de renúncia da licença de produção da central termoelétrica de Sines com efeitos a janeiro de 2021 – ou seja, está a manifestar a sua intenção de encerrar a central nessa data. Este prazo de encerramento é compatível com o PNEC 2020-30 aprovado em Conselho de Ministros de 10 de julho, e aguarda agora uma decisão da DGEG”.

Na sua intervenção no Parlamento, o ministro do Ambiente apontou que o Governo já tem uma “noção mais ou menos clara” do que pretende fazer para “dizer sim sem qualquer sobressalto”, isto é responder afirmativamente à intenção da EDP.

“Temos de trabalhar tanto do lado da procura como do lado da oferta”, afirmou Matos Fernandes, apontando que vai ser necessário “programar melhor o apoio da rede espanhola”, “recorrer à energia das centrais solares fotovoltaicas”, e “ter uma reserva própria na central de Alqueva”.

Por outro lado, apontou que poderá ser necessário “reduzir os consumos de energia” aplicando um “corte adicional aos consumos não prioritários”, que “não afetarão em caso algum os consumidores comuns nas suas casas”, garantiu.

O Governo aprovou a 21 de maio a Estratégia Nacional para o Hidrogénio que visa alavancar projetos como a fábrica de produção de hidrogénio verde em Sines, um investimento base superior a 2,85 mil milhões de euros.

A 18 de junho, o Governo abriu um período para a manifestação de interesse para as empresas participarem no futuro Projeto Importante de Interesse Europeu Comum (ICPCEI) Hidrogénio, do qual o projeto de Sines é o projeto âncora.

As empresas interessadas apresentaram as suas propostas até 17 de julho de 2020, com o resultado a ser conhecido até 27 de julho.

Consórcio luso-holandês quer desenvolver projeto de hidrogénio verde em Sines

O consórcio luso-holandês Resilient Ventures, liderado pelo holandês Marc Rechter, ambiciona transformar Sines no principal centro de produção de hidrogénio verde do sul da Europa. O objetivo é  exportar este gás via navio para o porto holandês de Roterdão para o maior centro industrial químico do mundo no norte da Europa, situado na Holanda e na Alemanha ao longo do rio Reno.

“Queremos posicionar Sines como o centro principal de hidrogénio do sul da Europa. Queremos apresentar o projeto [na Comissão Europeia] o mais rapidamente possível”, disse Marc Rechter em entrevista ao Jornal Económico em fevereiro deste ano.

“Daqui a 10 anos, Sines poderá desenvolver-se como um hub de hidrogénio muito importante do sul da Europa, tem muito boas características”, destaca, sobre o projeto que tem o nome de Flamingo Verde (Green Flamingo).

O objetivo é produzir hidrogénio verde, a partir de energia renovável, para depois ser transportado em estado gasoso para o norte da Europa. E para que serve este hidrogénio? “É usado nas refinarias, nas indústrias do aço, cimenteira, farmacêutica, de vidro, fertilizantes”, explica Marc Rechter, apontando que estes setores usam atualmente hidrogénio cinzento e que estão a procurar alternativas menos poluentes.

“Na Europa do Norte, está a começar a haver um mercado muito grande de procura, porque a indústria esta a ser pressionada para descarbonizar. Entre os portos de Roterdão (Países Baixos) e de Antuérpia (Bélgica), e a área do Ruhr (Alemanha), existe o maior cluster químico do mundo. É o maior mercado para o hidrogénio do mundo”, explicava o promotor, alertando que havia um longo caminho a percorrer, pois existem várias barreiras a superar, incluindo financiamento e apoios da Comissão Europeia.

Mas de onde é que vem o dinheiro para este projeto? “O financiamento vem de vários lados. Virá em parte de programas europeus, outra parte de apoios estatais de Portugal e da Holanda, instrumentos do Banco Europeu de Investimento, bancos privados e naturalmente o capital das empresas e dos fundos de investimento”, dizia então.

Em relação a prazos, Marc Rechter apontava em fevereiro que “alguma construção inicial” poderá arrancar “algures na segunda parte de 2021” em Sines. O promotor aponta que até 2023 poderão estar prontas as fábricas de eletrolisadores e de painéis solares. Depois, até 2025, a central de hidrogénio já deverá estar a “produzir e a exportar”. Entre 2025 e 2030, o projeto deverá duplicar a produção de hidrogénio.

O projeto tem um custo total de 3,5 mil milhões de euros, e prevê a construção de uma fábrica de electrolisadores em escala industrial, outra fábrica para produzir painéis solares fotovoltaicos, uma central solar e uma central de hidrogénio verde.

A eletricidade renovável gerada na central solar vai ser usada para produzir hidrogénio através de um eletrolisador, num processo químico conhecido por eletrólise.

Já a fábrica vai produzir eletrolisadores em escala industrial que vão servir, primeiro, para a central de hidrogénio de Sines, e depois para vender para outras centrais de hidrogénio. O projeto poderá vir a criar cinco mil postos de trabalho.

Como principais mercados de exportação, o promotor aponta os Países Baixos, Bélgica e Alemanha. Em Portugal, o hidrogénio poderá abastecer refinarias, como a da Galp em Sines, ou ser usado na rede de gás natural. A central poderá vir a produzir 465 mil toneladas de hidrogénio por ano, eliminando a emissão de 18,6 milhões de dióxido de carbono por ano.

 

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