‘Efeito coronavírus’: OCDE corta projeção do crescimento da economia mundial para 2,4% este ano

A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento alerta para o impacto que o coronavírus está a ter na economia mundial e admite mesmo um crescimento negativo no primeiro trimestre do ano. Vê o PIB mundial a crescer menos cinco décimas do que projectava em novembro, mas a economia chinesa deverá ser a mais afetada, com uma expansão de 4,9%, enquanto a zona euro deverá expandir 0,8%.

O efeito do coronavírus na economia global continua a alarmar as principais instituições internacionais e depois do alerta do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Riade, na Arábia Saudita, foi agora a vez da OCDE advertir para o impacto na recuperação da economia. A organização liderada por Ángel Gurría cortou as projecções da expansão do Produto Interno Bruto (PIB) a nível mundial em 0,5 pontos percentuais face ao relatório de novembro, para 2,4% este ano. Também para a zona euro está menos otimista, projetando um crescimento de 0,8% este ano, menos 0,3 p.p. do que em novembro.

“O surto de coronavírus (COVID-19) já trouxe um sofrimento humano considerável e uma grande perturbação económica. As contrações da produção na China estão a ser sentidas a nível mundial, refletindo o papel fundamental e crescente da China nos mercados globais de cadeias de distribuição, viagens e nos mercados de commodities”, explica a OCDE, no relatório intitulado “coronavírus: the world economy at risk”, publicado esta segunda-feira.

O organismo com sede em Paris realça que a propagação do vírus está a ter um efeito semelhante noutras economias, ainda que em menor escala, mas não está otimista sobre o curto prazo: as perspectivas de crescimento permanecem “altamente incertas”.

Numa atualização às projeções divulgadas em novembro e que integra o novo factor de risco, a OCDE baseia-se num cenário no qual opico do coronavírus na China terá ocorrido no primeiro trimestre de 2020 e que a propagação em outros países será moderada e contida, para projectar que o crescimento mundial poderá diminuir cerca de 0,5 p.p. este ano em relação ao último relatório. Assim, o PIB mundial deverá crescer 2,4% em 2020, “de uns já fracos 2,9% em 2019” e admitindo a possibilidade de um crescimento negativo no primeiro trimestre deste ano.

Os efeitos mais alarmantes na economia recaem sobre a China, com um corte de 0,8 p.p. para este ano face ao último relatório, o que coloca o País do Meio a crescer 4,9%, que compara com os 6,1% do ano passado, ainda que possa recuperar para 6,4% em 2021.

“O impacto adverso na confiança, nos mercados financeiros, no setor de viagens e na interrupção das cadeias de distribuição contribui para as revisões em baixa em todas as economias do G20 em 2020, particularmente aquelas que estão mais expostas à China, como o Japão, a Coreia e a Austrália”, refere o relatório.

No entanto, admite que se o impacto do coronavírus atenuar conforme o estimado, o impacto na confiança e que as políticas adoptadas pelas economias mais expostas poderão “ajudar o crescimento do PIB mundial a recuperar para 3,25% em 2021”.
 
Crescimento na zona euro desacelera para 0,8%

A OCDE vê também a economia da zona euro a crescer abaixo dos 1,2% do ano passado, com uma expansão de 0,8% do ano passado, ainda que recupere para a mesma taxa em 2021.

Itália lidera os maiores cortes das projeções sobre o desempenho para este ano face ao relatório de novembro, menos 0,4 p.p., o que coloca o país com uma expansão nula – e uma recuperação para 0.5% no próximo ano. Já França deverá crescer menos 0,3 p.p. do que o projetado anteriormente, registando um aumento do PIB de 0,9%, abaixo dos 1,3% do ano passado. O crescimento da economia alemã também não sairá incólume, mas menos afetado do que as restantes, com a OCDE a projetar um crescimento de 0,3%, menos 0,1 p.p. do que no anterior relatório, e metade do que em 2019.

A OCDE apela para que os governos a nível mundial “ajam com rapidez” para enfrentar o coronavírus e potencial impacto, assegurando medidas de saúde pública e recursos para prevenir quer a infeção, quer o contágio, assim como a implementação de políticas direcionadas para apoias os sistemas de saúde e proteger os rendimentos dos grupos e empresas mais vulneráveis.

“Se os riscos negativos se materializarem, e o crescimento parecer muito mais fraco por um longo período, ações multilaterais coordenadas para garantir políticas eficazes de saúde, medidas de contenção e mitigação, apoiar economias mais pobres e aumentar conjuntamente os gastos orçamentais seriam os meios mais eficazes para recuperar a confiança e apoiar os rendimentos”, consideram.

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