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Elas trocaram os saltos altos por biqueiras de aço

O setor da construção deixou de ser um mundo só de homens. Há cada vez mais arquitetas, engenheiras e técnicas em chão de fábrica. Em 2025, eram 33.400 mulheres, um crescimento de 1.100 face ao ano anterior. E se recuarmos a 2020, a diferença é ainda mais expressiva: o setor apenas empregava 21 mil mulheres. Esta semana, o JE visitou a fábrica da Blufab, do Grupo Casais, em Braga, onde a robotização tem aberto portas a novos perfis e aumentado a presença de mulheres na construção.
27 Fevereiro 2026, 07h43

Antes de começar o turno, às oito da manhã, Paula Gomes veste as luvas, prende o avental e ajusta os sapatos de biqueira de aço. Segundos depois, já está em frente à mesa de trabalho. À sua frente encontra-se um módulo de casa de banho, ainda incompleto, e que terá de ficar pronto para seguir viagem para um hotel, uma residência de estudantes ou um edifício de habitação. Esta semana, quando o Jornal Económico visitou a fábrica da Blufab, em Braga, a técnica, de 45 anos e com o sétimo ano de escolaridade, estava a colar cerâmica numa linha de produção. As peças chegam já cortadas à medida, mas isso não simplifica o trabalho. Cada azulejo tem de bater certo ao milímetro. Sobre a bancada está uma régua, um esquadro e um martelo. Paula mede, ajusta com precisão e volta a medir. “No final do dia tem de bater tudo certo”, diz a funcionária.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística, em 2025, o setor da construção civil tinha 372.600 trabalhadores, dos quais 33.400 do sexo feminino. Ou seja, em relação a 2024, há mais 1.100 mulheres a pôr ‘a mão na massa’. E, se compararmos com 2020, a evolução é significativa: dos 296.600 trabalhadores, apenas 21 mil eram mulheres. Ao lado de Paula está Teresa Gomes, de 38 anos. Com o 12º ano concluído, aprecia a forma como a empresa valoriza o crescimento: “Aqui há espaço para desenvolver a carreira profissional”, diz. O trabalho exige precisão. “Se nos enganarmos na medida não conseguiremos montar o módulo”, explica.

A Blufab, empresa pertencente ao Grupo Casais, foi criada em 2019 com o objetivo de impulsionar a industrialização e a digitalização no setor da construção. Com foco em soluções inovadoras e sustentáveis, procura superar os desafios tradicionais do setor através da prefabricação. As soluções da empresa incluem a produção de módulos de casas de banho e cozinhas totalmente integrados, que são fabricados off-site e instalados com facilidade no local. “A construção está a atravessar uma transformação estrutural. Historicamente, implica trabalho em obra, muitas vezes longe da área de residência. Numa sociedade como a portuguesa, onde as mulheres assumem ainda um papel mais forte no cuidado da família, isto é um fator limitador. Com a industrialização, o trabalho passa para ambientes fabris mais estáveis, com horários previsíveis e menor necessidade de deslocações. Isto altera estruturalmente a atratividade do setor para as mulheres”, explica Pedro Lopes, diretor de Industrialização da Blufab. Além disso, a digitalização torna o ambiente de fábrica mais tecnológico, ampliando o leque de perfis que podem integrar a equipa: engenharia, planeamento, controlo de produção e qualidade. “Este contexto cria oportunidades para profissionais com formação técnica, engenharia e competências digitais, onde temos vindo a integrar cada vez mais mulheres. O setor está a mudar e a industrialização está a criar condições para que essa mudança seja estrutural e duradoura”, acrescenta o responsável.

Paula e Teresa mostram como o setor da construção civil está a mudar. Não estão ao ar livre, nem andam em andaimes à chuva ou ao sol. Trabalha dentro de uma fábrica de 4.500 metros quadrados onde tudo é produzido e montado antes de seguir para o destino final. É uma construção diferente — industrializada e organizada por etapas. Talvez por isso haja cada vez mais mulheres ali. “Aqui não temos de andar nas obras. Andamos dentro de uma fábrica”, dizem.

Nova geração
O número de mulheres na empresa tem aumentado de forma significativa nos últimos anos, distribuídas por áreas técnicas/back office e em fábrica. Em 2023, havia quatro mulheres, o que representava 17% do total de colaboradores. À data de hoje, o número aumentou para 17 mulheres, o que corresponde a 32% do total. “Este crescimento demonstra que a Blufab tem atraído e mantido mais mulheres. A par destes números, temos ainda oito colegas que colaboram com a Blufab através de outra empresa do Grupo Casais, a VHPH, que é especializada na gestão de recursos humanos, mais precisamente em trabalho temporário, recrutamento, formação e mobilização de perfis operacionais especializados na área da construção civil”, explica Sofia Miranda, diretora de Recursos Humanos do Grupo Casais.

A mudança é visível em outras áreas da empresa. Aos 32 anos, Inês Graça, arquiteta, representa uma nova geração de mulheres que está a entrar na construção. Doutorada pela Universidade do Minho, onde investigou casas senhoriais do século XV, integra hoje o departamento comercial da Blufab. Dedica-se ao desenvolvimento de negócio e ao contacto com clientes e parceiros. A mudança para o setor não foi linear. “Queria mudar de área”, conta. Enviou o currículo, foi chamada para entrevista e acabou por encontrar na construção um novo caminho profissional. Acompanha de perto o crescimento da equipa e passa parte do tempo fora da fábrica: visita clientes, desloca-se a obras e marca presença em feiras e eventos comerciais. “A nossa equipa tem crescido bastante. Saímos muito para desenvolver o negócio”, explica.

Para Inês Graça, o aumento da presença feminina no setor é um processo natural. “Começa agora a ser mais comum a presença das mulheres, mas é uma mudança que acompanha a transformação do próprio segmento da construção. Este olhar novo, mais industrializado e organizado por processos, acaba por atrair perfis diferentes”.

É também de mudança e reinvenção que fala Ana Carvalho, de 53 anos. Filha de portugueses, viveu grande parte da vida no Rio de Janeiro, no Brasil, e decidiu mudar-se para Portugal com o filho, então com 12 anos. Licenciada em Gestão, começou por trabalhar como bancária no outro lado do Atlântico. Ao candidatar-se à Blufab, tornou-se a primeira mulher a entrar na área de produção da empresa, em 2022. “Adoro pintar, lixar, cortar móveis”, conta, revelando que o gosto pelo trabalho manual sempre esteve presente. Entrou com um objetivo claro: começar por baixo e crescer dentro da organização.

Com a evolução da empresa surgiram novos desafios. Foi convidada a assumir o controlo do armazém, gerindo a entrada e saída de materiais, e mais tarde transitou para funções de técnica administrativa. Pelo caminho, realizou várias formações técnicas. “No início, os homens acharam estranho”, recorda. “Mas depois perceberam que dávamos conta do serviço e fazíamos boa parte do trabalho como eles.” Hoje, sublinha, a presença feminina na produção é cada vez mais expressiva. “As mulheres têm garra.”
Outro exemplo dessa transformação é Sílvia Carneiro, engenheira mecânica e técnica de sustentabilidade ambiental e qualidade. Integra uma área tradicionalmente associada ao universo masculino, mas que hoje reflete uma realidade diferente. “Já não é uma profissão só de homens”, afirma. “Nota-se que as mulheres estão a ganhar terreno no mercado.” Além da engenharia, Sílvia tem uma vertente artística: é pianista e professora de piano. Desenvolveu, inclusive, um livro inovador para o ensino do instrumento dirigido a crianças. Em vez de recorrer apenas às notas tradicionais, utiliza imagens como forma de facilitar a aprendizagem, tornando o processo mais intuitivo e acessível. Um retrato de como criatividade e técnica podem coexistir. E de como os percursos profissionais são hoje cada vez menos lineares.


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