Ao contrário do que se passou nas eleições presidenciais de 1986, em que a campanha eleitoral para a segunda volta foi um espectáculo de mobilização e de debate, este ano o ambiente eleitoral não é interessante.

Evidentemente que os efeitos da tempestade que se abateu sobre o país na semana passada vieram desviar as atenções. Nem podia deixar de ser assim, tendo em atenção o quadro de enorme devastação que se verificou sobretudo nas regiões de Leiria e Coimbra. De repente tornou-se mais relevante ter conhecimento sobre a extensão e gravidade dos danos e discutir a forma como as autoridades, aos diversos níveis, têm vindo a procurar responder aos apelos das pessoas, famílias e comunidades afectadas pelos caprichos da Natureza.

Mas as diferenças para com 1986 não são só essas. Devemos reconhecer que a personalidade dos candidatos e as características fundamentais dos projectos por eles corporizados são substancialmente diferentes, ao ponto de, por si só, justificarem um muito menor interesse na campanha.

Diogo Freitas do Amaral e Mário Soares eram personalidades maiores do período correspondente à institucionalização da democracia, e foram na altura representantes de projectos distintos e alternativos, que reflectiam uma visão diferente da forma como o país se se deveria organizar e orientar num quadro de afirmação que tinha como pano de fundo a adesão às então Comunidades Europeias, que se ocorrido no início de 1986, mas sempre numa perspectiva de afirmação dos princípios e valores fundamentais de uma sociedade democrática, humanista, e aberta. O debate que se travou na altura entre as propostas de um e outro foi polarizado, intenso e franco. E por isso, apesar de por vezes ser influenciado por tensões emocionais que se sobrepunham à racionalidade, foi sempre interessante.

Em 2026 o quadro básico é francamente distinto.

Desde logo, os candidatos representam ideias e projectos colocados em patamares distintos, designadamente em termos de visão sistémica e institucional. É normal que em campanha surjam diferenças desse tipo. Mas este ano as diferenças estão muito mais agravadas.

Seguro representa um projecto de reafirmação dos princípios fundamentais que definem os sistemas democráticos desde a Revolução Francesa, e designadamente a liberdade individual, a igualdade de todos perante a Lei, e a coesão social (ou fraternidade, se quisermos regressar a uma terminologia) como base fundamental de organização da sociedade.

Ventura, por seu lado, posiciona-se como candidato da ruptura com esses conceitos fundamentais, afirmando uma visão de uma sociedade dividida em grupos, privilegiando uns em detrimento de outros que são abertamente secundarizados e hostilizados, assumindo uma orientação securitária e autoritária, em conflito aberto com a ordem constitucional vigente. E são essas diferenças de valores que levaram todos os outros candidatos a anunciarem o seu apoio a Seguro nesta segunda volta.

Do ponto de vista programático estas diferenças não são de estranhar num quadro democrático como aquele em que estamos. Mas do meu ponto de vista é de ressaltar e condenar abertamente a táctica eleitoral utilizada por Ventura, que assenta na desinformação, na mentira, na deturpação de factos, na instrumentalização do ódio. E, paradoxalmente, na utilização, como factor diferenciador e definidor do seu “sentido de Estado”, do único argumento que não cria uma diferença entre ele e os outros portugueses – o amor a Portugal.