Emissões de carbono deverão ultrapassar níveis pré-confinamento nos próximos meses, alerta AIE

A recuperação da atividade económica no segundo semestre de 2020 e a “falta de políticas de energia limpa” fizeram com que as emissões aumentassem mais 2% em termos homólogos, em dezembro. China, Índia, Brasil e União Europeia foram os principais responsáveis.

David Gray/Reuters

À medida que o mundo entra em fase de desconfinamento, recuperam também os níveis de emissão de CO2, que, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), deverão ultrapassar os níveis pré-pandemia nos próximos meses.

Novos dados da organização internacional de energia, citados esta terça-feira, pelo “The Guardian”, indicam que as emissões de combustíveis fósseis aumentaram de forma constante desde a segunda metade do ano de 2020, à medida que as principais economias começaram a reabrir. Em dezembro de 2020, as emissões de carbono eram 2% superiores àquelas registadas no mesmo período em 2019.

O regresso do aumento destas emissões poluentes começou apenas alguns meses depois de a Covid-19 ter desencadeado a queda mais profunda na produção de dióxido de carbono desde o final da Segunda Guerra Mundial, algo que ameaça destruir as esperanças de que as emissões mundiais possam ter atingido o pico em 2019.

Em maio passado, o boletim científico Nature Climate Change dava conta  de que o confinamento resultou numa queda em 17% das emissões de carbono. Na altura, a queda das emissões aproximou-se dos níveis que se verificavam em 2006, sobretudo devido à redução de cerca de 43% nas deslocações em automóvel, percentagem semelhante à queda registada nos setores da indústria e produção de energia.

Já os dados da AIE daquele ano informavam que, as emissões globais totais de CO2 atribuíveis ao sector da energia, foram cerca de 6% mais baixas do que em 2019, ou seja, quase menos 2 mil milhões de toneladas, de um total de cerca de 32 mil milhões de toneladas. No total, as emissões totais de gases poluentes com efeito estufa são estimadas em cerca de 50 mil milhões de toneladas.

“Na ausência de mudanças políticas importantes e imediatas nas maiores economias do mundo, as emissões globais continuarão a aumentar. Os governos devem colocar as políticas de energia limpa no centro dos seus pacotes de recuperação ou arriscam uma recuperação substancial das emissões em 2021”, disse Fatih Birol, diretora executiva da organização.

A China foi a primeira grande economia a emergir da pandemia e a levantar as restrições, e a única grande economia a crescer no ano passado, fazendo com que as emissões no último mês do ano subissem 7% acima dos níveis de dezembro de 2019. Em contraste, as emissões chinesas caíram 12% abaixo dos níveis de 2019 em fevereiro do ano passado, mas para o ano como um todo, as emissões de carbono da China foram 0,8% acima de 2019.

Na Índia e no Brasil, as emissões mensais de carbono registadas em dezembro foram 3% superiores do que no final de 2019, um aumento acentuado em relação às profundas restrições de bloqueio em abril do ano passado, quando as emissões da Índia foram 41% menores do que em 2019 e do Brasil 23% menor que no ano anterior.

Já a União Europeia registou uma redução nas emissões de 22% em abril passado, mas em dezembro esse valor subiu para menos 5% do que no período homologo do ano anterior.

Embora estejamos a caminhar para níveis “normais” de emissão de carbono, a responsável pela AIE frisa que “não é tarde demais” para os governos evitarem que estes gases poluentes voltem a níveis mais elevados num período pré-pandemia, porém, “está a tornar-se numa tarefa assustadora”.

“Os governos de todos os países, e especialmente as principais economias como os EUA, China, Índia, Europa e Japão, precisam incluir políticas de energia limpa nos seus pacotes de recuperação económica”, apelou.

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