Enciclopédia do ‘disparate’ económico: as decisões mais bizarras do mundo

Um professor de Economia e Direito na George Mason University compilou um livro onde descreve algumas das práticas económicas mais bizarras da história. Mas o livro não fala sobre as práticas atuais que a seu tempo passarão a ser bizarras.

Peter T. Leeson, professor de Economia e Direito na George Mason University, escreveu uma espécie de enciclopédia do disparate económico a que chamou ‘O grande circo da economia’  e onde elenca algumas das decisões económicas mais bizarras ou mais estranhas que foram dadas a conhecer ao mundo.

Sem que conste que ali é retratada a forma como o FMI obrigou alguns países a reduzir despesa para uns anos depois achar que a receita era excessiva, no livro encontram-se algumas decisões no mínimo estranhas. Como a obra aborda a história da atividade económica, mas lá não constará por certo a quarta cruzada (1202/04), cujas motivações económicas vale a pena conhecer. Recordam-se a seguir alguns episódios da obra de Leeson.

Impostos especial para os mais belos solteiros do Japão

Em 2012, no Japão, um dos países com a menor taxa de natalidade do mundo, o economista Takuro Morinaga propôs como solução mágica aplicar um imposto especial aos mais belos solteiros do país. De acordo com a sua fórmula, os cidadãos seriam divididos em quatro categorias por um júri de mulheres selecionadas aleatoriamente. Bonitões, normais, japoneses feios médios e os feios sem remissão seriam depois ‘emparelhados’ com o sexo oposto, numa lógica em que as bonitas pagariam mais impostos e as mais feias menos.

“O que é mais raro, que Donald Trump tenha atingido a presidência dos Estados Unidos ou os julgamentos por feitiçaria nos países africanos?”, Pergunta Leeson, que pretende mostrar que o que hoje parece uma excentricidade algum dia chegou a ser considerado normal.

Ainda não há muito tempo, recorda, as mulheres tinham que pedir permissão aos maridos para abrir uma conta bancária na Espanha – Leeson não saberá que há 40 anos as mulheres portuguesas tinham de ter permissão do marido para atravessarem a fronteira – “e há dois dias, fumávamos como carroceiros dentro dos aviões. Existe algum sentido por trás do que aparentemente não tem pés nem cabeça?”

Outras histórias. No Arkansas, aqueles que fazem uma tatuagem ou colocam um piercing pagam 6% de impostos extras. No Maine, há uma taxa especial para telefones Blueberries. E em Maryland, paga-se uma taxa especial por cada quarto de banho extra. Na Irlanda, chegou a haver um imposto sobre a flatulência das vacas para proteger a emissão de gases, ignorando notícias que confirmavam que a energia assim libertada daria para fornecer 35 mil casas.

Imposto de 16% sobre… bruxos

Em 2011, o governo romeno avançou uma proposta para aprovar um imposto de 16% sobre a receita de magos, médiuns e outros profissionais da adivinhação (comentadores políticos excluídos), mas a medida foi de tal forma contestada pelo setor das bruxarias e afins, que o executivo acabou por retirar a proposta.

“Se as pessoas agem com racionalidade e isso significa que nosso comportamento é geralmente guiado numa certa direção, então podemos concluir que as extravagâncias da história eram, na época, soluções úteis para melhorar a sociedade”, reflete o professor Leeson.

Desde o início do século XVIII até o final do século XIX, os casais ingleses da classe trabalhadora podiam vender os seus cônjuges perante uma boa oferta (o que tem afinidades com a venda de jogadores, considerada a coisa mais normal do mundo). O escrito Charles Dikens era um especialista na matéria.

Em 26 de abril de 1832, um anúncio no Times dizia: “Senhores, a minha esposa está à venda e será licitada pelo maior lance, para mim ela tem sido como uma cobra. Era para garantir o conforto e bem-estar da família, mas ao longo do tempo tornou-se um tormento, uma maldição, uma experiência demoníaca. Mas há também um lado mais amigável e positivo. Lê romances. Tem bom gosto para rum, gim e uísque. Assegura-se transparente. Ofertas a partir de 50 shillings. Quem dá mais?” Fake news? Muito possivelmente – não, as fake news não são um tormento dos nossos dias: são tão antigas como a humanidade, muito propensa à mentira.

Na Inglaterra como em outros lugares, os combates eram uma forma de resolver problemas (Já alguém leu ‘O combate dos chefes’ de Asterix e Obelix?) e isso foi mantido durante muitos anos. Até 1179 era o principal meio de litigar as disputas pela propriedade da terra.

“O sistema judicial moderno também resolve questões de propriedade através de lutas, embora em vez de serem físicas, sejam intelectuais e em vez de serem executados por ‘campeões’, sejam canalizados através de advogados”, escreve Leeson – que com certeza desconhece o caso da Selminho, que tem deixado as arribas da foz do Douro em polvorosa.

Mais estranho é o sistema judicial em algumas tribos africanas, que até hoje resolvem conflitos de feitiçaria ao envenenar uma galinha à qual a situação é previamente explicada durante um discurso de cinco ou dez minutos. A morte (ou não) da ave determinará se há ou não um feitiço a acontecer. Mas de milagres (que são uma espécie de feitiço) está o mundo, desde as pequenas vilas de Fátima e Lourdes, até à capital do Brasil.

“A minha conclusão principal – diz o autor de ‘O Grande Circo da Economia’ – é que, independentemente do tempo, lugar, religião, cultura, grau de riqueza ou pobreza, as pessoas sempre tendem a comportar-se racionalmente”. Embora o racional seja algumas vezes uma loucura absoluta – principalmente se não estiver contextualizada.

Até porque a maior de todas as racionalidades económicas é esta: não pagar a quem trabalha para nós – uma prática que o mundo ocidental na sua génese transformou em algo perfeitamente normal. Depois, alguém se lembrou de proibir a escravatura.

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