Maria da Graça Carvalho rejeita a energia nuclear para Portugal, apontando para os custos elevados, mas não só.
FILE PHOTO – Clouds are seen over the cooling tower of the nuclear power plant Isar 2 by the river Isar amid the energy crisis caused by Russia’s invasion of Ukraine, in Eschenbach near Landshut, Germany, August 1, 2022. REUTERS/Ayhan Uyanik
A energia nuclear não é adequada para um país como Portugal, defendeu hoje a ministra do Ambiente e da Energia.
“Nada contra a energia nuclear, mas com o desenvolvimento tecnológico não é adequado para um país do tamanho de Portugal e com problemas sísmicos”, começou por dizer hoje a ministra Maria da Graça Carvalho.
“Quem tem tecnologia, deve continuar”, afirmou dando os exemplos de Espanha ou França. “Quem não tem, é muito caro, muito dispendioso começar a usar o nuclear”, destacou em audição no Parlamento.
A eletricidade renovável “é mais simples e mais barata”, defendeu.
A governante garantiu que o Governo aposta na neutralidade tecnológica dentro da eletrificação e dos gases renováveis.
O especialista Bruno Soares Gonçalves, presidente do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear (IPFN), revelou em 2024 ao Jornal Económico que o país precisaria de dois gigawatts de potência nuclear, que poderiam custar 8 mil milhões de euros cada gigawatt.
JE – O que é que Portugal precisaria em termos de potência nuclear? Qual o seu cenário base?
Bruno Soares Gonçalves – A minha estimativa dá, pelo menos, dois gigawatts. É um número baseado naquilo que era o Relatório de Segurança Energética da Direção Geral de Energia (DGEG) de há um ano. Creio que, com os números do PNEC e com uma previsão de um aumento maior do consumo de eletricidade e alavancando parte do hidrogénio previsto, estamos algures numa baliza entre os dois a cinco gigawatts de potência instalada. É preciso fazer contas mais detalhadas, mas estaríamos muito próximos dessa gama. Tenho muitas dúvidas que o hidrogénio possa ser a solução como tem sido apresentada, até porque, fazendo as contas, do ponto de vista económico, não parece fazer muito sentido. Mas efetivamente o nuclear pode ajudar na produção de hidrogénio. O relatório de Segurança da DGEG tem lá uma linha um pouco obscura que prevê que possa ser produzido hidrogénio a partir da eletricidade de rede. Por outro lado, há um outro aspeto que eu ouço muitas vezes falar e que também é interessante. Eu ouço muitas vezes falar agora em dessalinização, o que consome energia elétrica. Precisamos de produzir mais energia elétrica.
JE – Em termos de números, estes dois a cinco gigawatts, quanto é que poderiam custar?
Bruno Soares Gonçalves – Os Emirados Árabes Unidos (EAU), com custo de capital associado, construíram quatro reatores que custaram à volta de 32 mil milhões de euros. Estamos a falar de cerca de 8 mil milhões de euros por reator, talvez um pouco menos. Penso que são 1,2 gigawatts por reator. Mas tipicamente estamos a falar deste valor da ordem dos 8.000 milhões por gigawatt para um reator que vai estar a operar cerca de 90% do tempo ao longo de um ano. Isto tem que ser comparado com outras soluções que são mais baratas, que exigem redes distribuídas, mas que irão operar uma fração do tempo do ano.
JE – Isto implica investimento público e/ou privado? Como é que tem funcionado noutros países?
Bruno Soares Gonçalves – Tem havido sobretudo investimento público. Mas, como sabemos, no passado houve em Portugal até intenção de investimento privado em construir um reator nuclear. Na Finlândia houve uma cooperativa de empresas que financiou o reator nuclear, conseguindo garantir preços fixos a longo prazo para a eletricidade. Ou seja, há vários modelos possíveis. Tem havido muito investimento estatal nos reatores nucleares, mas não é, de todo, a norma; tem havido variantes.
JE – E quanto tempo demorariam a construir?
Bruno Soares Gonçalves – Vou dar o exemplo do que aconteceu nos Emirados Árabes Unidos (EAU), que foi algo acelerado, mas que eu acho que é um bom exemplo do que pode ser feito quando as coisas correm bem. Os EAU começaram em 2008 a avaliar o potencial do uso da energia nuclear para uso pacífico. Assinaram um contrato com a Coreia do Sul em 2010, mas ainda houve todo o processo de legislação de licenciamento. Há um processo todo com a Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA) que demora algum tempo. Depois, há aqui um período de alguns anos em que é preciso preparar a legislação, mas depois o primeiro reator entrou em funcionamento em 2019. Estamos a falar de cerca de sete anos para a construção de um reator. O Japão conseguiu construir em quatro/cinco anos em tempos. Já não falando da Rússia ou da China que conseguem tempos desta ordem de grandeza. Neste momento, não precisamos de um reator nuclear. As centrais a gás que temos, já dependendo de Espanha, serve-nos perfeitamente para a procura nos próximos anos. Temos de nos preocupar para lá de meados de 2030 que é quando a central a gás da Tapada do Outeiro poderá encerrar. É expectável que a economia se torne mais pujante e é preciso mais eletricidade, pois haverá uma grande penetração de carros elétricos. E então, é em 2035 que precisamos de ter o nuclear. Temos tempo, mas temos que ter a discussão agora e temos que dar os passos necessários para o fazer.