Entre a cegueira e o lunatismo, a generosidade do futuro existe!

Um pouco por toda a Europa, a fragmentação partidária e a falta de compromisso político entre os principais partidos democráticos do sistema (do centro, progressistas e liberais) têm vindo a tornar quase inevitável a ascensão da extrema direita – na Itália, em Espanha e Portugal, berços dos fascismos –  ameaçando a formação de novos governos com forças extremistas e radicais.

As epidemias dos séculos XIV, XVIII e XIX foram os pretextos invocados no passado para a instrumentalização ideológica do medo, fazendo dele uso como instrumento para a sobrevivência política de governos em decadência. A atual crise pandémica, possibilita-nos uma leitura de um passado aproximado aos nossos dias, no qual governos, apoderando-se do medo, são hábeis a encontrar os pretextos para justificar as suas (más) ações, na promessa de uma falsa sensação de segurança dos cidadãos.

Hoje, tal como na longa idade média, nas sociedades do Ancien Régime (Tocqueville,1856), as promessas de segurança visavam colocar em causa os direitos humanos, as liberdades individuais e acentuar as desigualdades sociais, para melhor garantir a entronização das elites e a manutenção da hegemonia vigente.

Nas palavras de Benjamin Franklin, coautor da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, signatário da Constituição Americana e da luta contra o esclavagismo: “Aqueles que abrem mão da liberdade essencial por um pouco de segurança temporária não merecem nem a liberdade nem a segurança”, citado na “Tragédia romântica de uma Europa (quase) em desespero” (Goes, 2020).

Hoje, um novo e perigoso “Eixo” neofascista, está a ser incubado por vários líderes europeus. O atual primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, conjuntamente com o seu homólogo polaco Mateusz Morawiecki e o ex-vice-primeiro ministro italiano Mateo Salvini reuniram-se com o objetivo de criar um novo grupo político ultraconservador no Parlamento Europeu. Este sistema de alianças procura colocar em causa as instituições democráticas, fazendo uso de uma retórica populista, com o objetivo de instituir uma nova hegemonia autoritária.

Os totalitarismos contemporâneos exacerbam o pior do capitalismo, metamorfoseando-o eufemisticamente. O projeto totalitário faz uso dos novos meios de propaganda para a entronização de novas elites, justificadas numa alegada superioridade e autoridade moral e numa falsa construção identitária.

Desde o início da atual pandemia, a instabilidade política não só aumentou como foram já vários os governos democráticos que caíram em todo o mundo. Veja-se o caso de Myanmar, antiga Birmânia, onde no passado mês de fevereiro, um golpe militar liderado por uma junta, depôs os principais líderes políticos democráticos, incluindo a vencedora do Prémio Nobel Suu Kyi, novamente detida. Os militares declararam inválidas as eleições de novembro passado, declarando o estado de emergência e abolindo a Constituição. A enviada especial das Nações Unidas para a Birmânia alertou para um “banho de sangue” tendo sido registado desde o dia 1 de fevereiro – data do golpe – mais de cinco centena de mortos, entre as quais mais de oitenta crianças, cerca de duas mil e setecentas pessoas presas e milhares de desaparecidos, segundo noticiado por várias agências noticiosas, de acordo com várias ONGs. O ocidente assiste passivamente.

Na Europa os extremismos ganharam poder. Na Bulgária os resultados das legislativas deram a vitória ao partido do ultraconservador Boiko Borissov, primeiro-ministro cessante.

Na Hungria, em novembro passado, o governo que dispõe de uma larga maioria de dois terços aprovou uma emenda constitucional que altera a lei eleitoral e limita a capacidade da oposição reunida numa grande coligação. Polónia, Hungria e Bulgária tornaram-se países onde as estruturas de poder se confundem, partido e governo tornaram-se um só.

Um pouco por toda a Europa, a fragmentação partidária e a falta de compromisso político entre os principais partidos democráticos do sistema (do centro, progressistas e liberais) têm vindo a tornar quase inevitável a ascensão da extrema direita – na Itália, em Espanha e Portugal, berços dos fascismos –  ameaçando a formação de novos governos com forças extremistas e radicais.

Os planos de vacinação, os (des)confinamentos, as datas de “reabertura” da economia e de livre circulação e imunidade de grupo atingida no seio militar, conjuntamente com as lutas judiciais e na comunicação social para tentar colmatar os escândalos de corrupção, tornaram-se nos novos argumentos em agenda no discurso político.

Perigosamente as redes sociais tornaram-se os novos púlpitos e palcos mediáticos preferenciais dos populistas, corroborando as estratégias panfletárias destas forças políticas.

Parafraseando Saramago no seu “Ensaio sobre a Cegueira” (1995): “Assim está o mundo feito, que tem a verdade muitas vezes de disfarçar-se de mentira para chegar aos seus fins.

A instabilidade e a fragmentação política da Europa fez ressurgir os nacionalismos dos séculos XIX e XX e poderá levar à queda do modelo europeu de desenvolvimento social e humano.

A defesa de um projeto europeu comum, assente na partilha cultural de valores históricos universais – Liberdade, Igualdade, Fraternidade – permitiu à Europa renascer das cinzas e experimentar um modelo de desenvolvimento económico e político, promotor da coesão social e de um desenvolvimento sustentável, que diminuísse as assimetrias económicas e as desigualdades sociais.

O fosso entre ricos e pobres volta a agravar-se, acentuando a distopia e a desigualdade existente entre as nações do centro e norte europeu e os países do sul. O acesso à tecnologia e às vacinas passaram a ser condições necessárias para o usufruto de uma democracia, cada vez mais condicionada por poderes supranacionais não-democráticos. Esquecemo-nos de que são as desigualdades as principais causas da violência. E como escreveu Albert de Camus, em “La Peste” (1947), “(…) a imprensa, tão indiscreta (…) já não mencionava nada”.

Os modelos dos estado-providência e das sociais-democracias europeias, que na sequência da 2ª Guerra Mundial, possibilitaram o desenvolvimento de um Estado Social, não assistencialista, mas promotor da coesão e inclusão social, permitindo o desenvolvimento de sentimentos de pertença ao território habitado, têm vindo a ser debilitados com as políticas neoliberais, herdeiras do  Reganismo e do Thatcherismo internacional, dos anos 80.

O economista James Tobin (1918-2002) – Prémio de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nóbel (1981) – teórico do keynesianismo, defendeu a necessidade de dar “uma face humana” à economia (Boukhari, 1999), denunciando que os propósito das políticas de Regan “distribuiriam a riqueza, o poder e a oportunidade para os que já eram ricos e poderosos, e para seus herdeiros” em vez dos mais pobres.

Ao capitalismo industrial monopolista sucedeu-se um capitalismo financeiro especulativo (Eagleton, 2021), nos séculos XIX e XX, respetivamente, para depois inaugurar-se o “capitalismo da informação” no século XXI. O novo “capitalismo da informação’‘ (Castells, 1999; Eagleton, 2021; Schiller, 2002) é por isso o objeto “fetiche” de uma elite detentora do poder que procura na falácia meritocrática a legitimação do seu poder.

Ironicamente o modelo económico liberal que foi promotor do progresso tecnológico e do desenvolvimento social, nas sociedades ocidentais, tornou-se desde há várias décadas, no principal obstáculo ao desenvolvimento humano, tornando-se incapaz de assegurar a satisfação de todas as necessidades humanas (Eagleton, 2021).

Num recente artigo do investigador Wesley Pereira de Castro (2021) o autor analisa o último filme de Federico Fellini [1920-1993], “A Voz da Lua” (1990), realizando a sua crítica cinematográfica como metáfora para o “lunatismo” da política contemporânea. O filme baseado no romance “Il poema dei lunatici”, de Ermano Cavazzoni, destaca, segundo Castro, que a trama Felliniana exibe “(…) um discurso ostensivamente político (…) possibilitando que o espetador perceba que “(…) o imperialismo é, de facto, a fase superior do capitalismo”.

A apócope do encanto sedutor da Europa, tem vindo a ser encenada numa narrativa de queda, como se tratasse de uma tragédia Wagneriana, em vários atos (Goes, 2020). Talvez na origem deste processo niilista esteja a falta de ousadia (de todos) de olhar o futuro e envolver o orbe com coragem, para enfrentar os erros do passado e rumar assim contra a corrente. Necessitamos de uma Europa estruturada no respeito pela diferença, pela tolerância e pela diversidade identitária, que permita reconstruir a sua “Pax” social.

Para isso, provavelmente os limites aos deficits orçamentais instituídos com Maastricht já não farão sentido. A “bazuca europeia”, em vez de um conjunto de foguetes avulsos, terá de ser verdadeiramente estrutural e chegar a todos os cidadãos. Urge também o perdão das dívidas soberanas, à semelhança do realizado com a Alemanha (a 27 de fevereiro de 1953), no pós 2ª Guerra Mundial e na sequência do Plano Marshall.

Parafraseando Albert de Camus, “a verdadeira generosidade para com o futuro consiste em entregar tudo ao presente“, porque, como disse Einstein, “o futuro não tarda a chegar”. E não haverá aplausos.

Referências:

Boukari, Sophie et al. (1999) James Tobin: un économiste américain à contre-courant. Le Courrier de l’UNESCO

Camus, Albert. (1947). La Peste. Gallimard

Castells, Manuel. (1999). A sociedade em rede – a era da informação: economia, sociedade e cultura. V.1. São Paulo: Paz e Terra

Castro, Wesley. (2021, março 30). “Não escute os poços. Eles são traiçoeiros”: uma ou outra palavra sobre a Memória enquanto resistência… A Pátria – Jornal da Comunidade Científica de Língua Portuguesa. Funchal: Ponte Editora. Disponível em: https://apatria.org/sociedade/nao-escute-os-pocos-eles-sao-traicoeiros-uma-ou-outra-palavra-sobre-a-memoria-enquanto-resistencia/

Eagleton, Terry. (2021). Porque é que Marx tinha razão. Lisboa: Edições 70

Goes, D. (2020, abril 29). Tragédia romântica de uma Europa (quase) em desespero. Jornal Económico. Disponível em: https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/tragedia-romantica-de-uma-europa-quase-em-desespero-581211

Saramago, José. (1995) Ensaio sobre a Cegueira, Lisboa: Editorial Caminho

Schiller, Dan. (2002). A Globalização e as Novas Tecnologias. Lisboa: Presença

Tocqueville, Alexis. (1856) L’Ancien Régime et la Révolution. [s.n.]

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