Esquerda separatista pela primeira vez à frente na Catalunha

Desde que foram marcadas eleições antecipadas em Espanha que os socialistas da Catalunha, não-independentistas, estavam à frente nas intenções de voto. Mas isso mudou: se a ERC vencer, Madrid tem um problema acrescido.

Para espanto de muitos comentadores, o Partido Socialista da Catalunha (PSC, uma espécie de ‘filial’ do PSOE) manteve-se à frente das intenções de voto na Catalunha desde que, uma vez convocadas eleições antecipadas para 28 de abril, começaram a ser produzidas sondagens à razão de, pelo menos, uma por semana. O espanto vinha do facto de, por um lado, Pedro Sánchez, líder do governo e do PSOE, ser observado como uma espécie de ‘traidor’ à região – depois de ter prometido que resolveria a crise da Catalunha (conseguindo com isso a maioria necessária para arrastar o PP para fora do poder). Mas também, por outro, por a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) não estar a capitalizar a oposição aos socialistas de Madrid e a circunstância de o seu líder Oriol Junqueras, estar a ser julgado por traição (entre outros crimes) num tribunal, também ele de Madrid.

Mas, a última sondagem sobre a Catalunha, publicada no jornal El Pais, vem colocar a relação de forças novamente no sítio certo (do ponto de vista dos analistas que ficaram espantados com as sondagens anteriores): a ERC surge em primeiro lugar nas intenções de voto em eleições gerais e autonómicas (hipotéticas) e pode chegar aos 14 ou 15 deputados no parlamento nacional (neste momento tem nove).

Um pouco atrás continua o PSC, que poderia eleger entre 11 e 13 deputados, onde tem agora apenas sete. Os dois partidos que continuam a sua marcha descendente são o JxCat, de Carles Puigedemont, e o Partido Popular da Catalunha.

Numas hipotéticas eleições para o parlamento catalão (mero exercício teórico da sondagem), a ERC venceria as eleições com entre 40 e 43 deputados (em 2017 teve 32); o Ciudadanos permaneceria na segunda posição, com entre 28 e 29 bases (agora com 36 anos); o Junts Catalunya baixaria para entre 22 e 24, o que significa uma diminuição de 10 a 12 membros; e o PSC cresceria até 21 ou 23 deputados, tendo agora 17. O PP ficaria ainda mais irrelevante (três ou quatro lugares).

O JxCat, que assegura o governo por via de Quim Torras, parece estar a sofrer o desgaste das peripécias políticas que têm envolvido Puigedemont, e que uma parte da população catalã parece deplorar. Desde que fugiu da autonomia (para não ser preso) que o antigo presidente do governo autónomo tem assumido as mais diversas extravagâncias políticas. Entre as quais se conta a vontade de interferir de forma clara quer na escolha do chefe do governo que o veio a substituir – e que, até à escolha de Torras evoluiu semanalmente ao ritmo das novelas de enredo pouco esclarecido – quer no andamento do governo e das suas opções.

A primeira vítima desta postura monitorizada a partir de Bruxelas por Carles Puigedemont foi a sempre frágil e ideologicamente incompreensível aliança entre o seu partido e a ERC – que estão nos antípodas da base política das suas opções. Desde que a ERC viu que estava a resvalar para o interior do ‘circo’ em que se transformou a escolha do substituto de Puigedemont, que tentou escapar a este ‘cerco’ e autonomizar as suas propostas.

O crescimento das intenções de voto na ERC e a descida na posição do JxCat resulta, segundo os analistas, deste facto. E é possível que o ‘gap’ entre ambos venha a aumentar. Para Madrid, nada disto é uma boa notícia. A ERC é, diz quem sabe, bastante mais dura nas negociações que o JxCat – o que ficou bem patente quando o partido de Junqueras recusou generosas propostas socialistas para a Cataluna, em troca do apoio ao Orçamento de Estado para 2019.

O resultado desta evolução é, também ele, muito preocupante para Madrid: segundo a sondagem do El Pais, e com estes dados, os partidos pró-independência manteriam a maioria no Parlamento: 75 deputados na faixa mais alta das previsões, ou 70 na mais baixa, com a maioria fixada em 68 lugares.

Por outro lado, hoje, 48,4% dos catalães votariam ‘sim’ num possível referendo sobre a secessão e 44,1% votariam ‘não’. O apoio à independência subiu 1,2 pontos desde uma sondagem idêntica realizada em novembro de 2018. A preferência por uma forma republicana de governo é escolhida por 75,9% dos entrevistados, enquanto a monarquia só convence 12,3% dos catalães.

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