Estado da Inovação em Portugal, muita parra…

Travar a precariedade do emprego ou ligar, de modo mais consequente, o apoio à inovação com a internacionalização das empresas portuguesas, são alguns dos caminhos a trilhar, com mais velocidade. E criar respostas para a questão “Como fazer?” e com que prazo, de modo acelerado e focado no futuro.

As recentes publicações do European Innovation Scoreboard (EIS) e do Regional Innovation Scoreboard (RIS) suscitam o retorno à velha questão, sempre atual, sobre as opções de desenvolvimento de Portugal. As quatro categorias do EIS agrupam os países de acordo com diversos indicadores de desempenho em inovação – Líderes, Fortes, Moderados e Emergentes.

Portugal encontra-se agora classificado no grupo dos ‘inovadores moderados’, ou seja, no conjunto de países que ainda não conseguiram transformar algumas condições, nomeadamente em termos de capacidades científicas e tecnológicas, em resultados com expressão na transformação da sociedade e no mercado internacional. A queda verificada no seu desempenho, em 2021, deve ser vista com cautela pois parece explicar-se, em parte, pelos dados reportados no inquérito feito às empresas, quando comparados com a edição de 2016.

O recurso a um conjunto de indicadores de avaliação perceptual, não validada, padece de vários problemas de natureza metodológica e pode resultar em oscilações pouco fiéis à realidade. Numa nota mencionada na comunicação social, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES) refere que este ‘exercício’ exige uma ligação próxima às empresas, o que parece não ter acontecido.

Este tema foi aliás alvo de polémica, a que não se pode ficar indiferente, mas que acabou por não trazer novidades quanto às medidas propostas para acelerar o desenvolvimento da inovação em Portugal. Os diagnósticos, as estratégias, os incentivos surgem em catadupa em diversos domínios, mas continuam a faltar informações e decisões concretas sobre as ações a concretizar e em que prazo, como transparece no relatório nacional de inovação, publicado pela Agência Nacional de Inovação (ANI).

O estado da inovação e as políticas existentes

Como anteriormente analisado, e tal como aponta o Professor Corado Simões (ISEG), essa é uma questão “para a qual a resposta do PRR é fraca, insuficiente e desfocada. A redinamização exige uma política de inovação sistémica, assente numa lógica de estímulo das interações entre os múltiplos atores envolvidos, desde as empresas às entidades públicas, passando pelas unidades de investigação, de interface e de financiamento. A concretização de tal política vai requerer uma capacidade de implementação que, como a história mostra, nos tem faltado em larga medida.” Acresce ainda a necessidade de uma maior articulação entre as políticas sectoriais, valorizando o conhecimento existente no país.

O estado da inovação em Portugal não deixa grande margem para dúvidas. A trajetória de aproximação com a União Europeia tem sido ameaçada e os esforços, nomeadamente em termos de lançamento de políticas públicas, apesar da bem-sucedida harmonização de incentivos fiscais com incentivos financeiros, não têm permitido alterar o posicionamento do país, deixando visível uma crise de identidade em que as oportunidades não compensam as fragilidades.

No entanto, existe uma infraestrutura de investigação e de apoio tecnológico que tem possibilitado alicerçar mudanças significativas na indústria, incluindo nas mais tradicionais, como a do calçado ou dos têxteis. Assistiu-se também a um importante impulso inovador nas áreas da saúde, desde logo com o papel de empresas como Bial, Hovione ou Bluepharma, a par do posicionamento competitivo de institutos de I&D, e ao crescimento de empresas de serviços tecnológicos avançados, com presença mundial, como a Outsystems, a Talkdesk, a Farfetch ou a Feedzai. Mas a inovação em Portugal vai muito além destes exemplos, com um grupo de mais de 4000 empresas que investem em I&D.

Contudo, embora com tendência crescente, quando analisado o desempenho do país nesse indicador, concluímos que o esforço não é suficiente. Por outro lado, no contexto internacional, e apesar dos resultados globalmente positivos de Portugal no H2020, principal programa europeu de apoio à I&D, entre 2014 e 2020, o número de empresas portuguesas participantes, cerca de 1144, também ficou aquém do potencial do país.

Alargar o grupo das empresas que assumem a inovação como prioridade estratégica, direcionando recursos para o seu desenvolvimento e estimulando ligações duradouras no contexto de redes e iniciativas colaborativas, assim como atrair e reter empresas âncora em áreas tecnológicas (por ex. através de IDE), travar a precariedade do emprego ou ligar, de modo mais consequente, o apoio à inovação com a internacionalização das empresas portuguesas, são alguns dos caminhos a trilhar, com mais velocidade.

Posição global de Portugal

O European Innovation Scoreboard disponibiliza anualmente informação sobre o posicionamento dos países da União Europeia em termos de desempenho de inovação. Em 2021, Portugal ocupou o 19º lugar no conjunto dos 27 países analisados. Em vários indicadores, que compõem as 12 dimensões estudadas, o país melhorou a sua posição, mas as alterações já referidas e fatores estruturais da economia nacional pesam de forma decisiva na classificação, de que se salienta a título de exemplo a que respeita aos impactos nas vendas.

A sofisticação do mercado e empresarial correspondem também a duas das dimensões em que Portugal apresenta resultados menos favoráveis, no Global Innovation Index 2021, situando-se respetivamente nas posições 56 e 42 no grupo de 132 países analisados.

Uma das dimensões, investimentos, destaca as fragilidades da situação portuguesa, refletida no baixo nível de investimento, com valores inferiores à média europeia há vários anos. Se analisada a evolução da dotação orçamental para I&D per capita, verifica-se também um decréscimo nos últimos anos, passando de 92 euros, em 2010, para 71 euros em 2020.

A este problema, junta-se um outro também complexo que se prende com a geração de emprego em empresas com perfil inovador e qualidade de gestão, competindo globalmente para atrair e reter jovens qualificados. Já não se trata apenas de fixação no território, mas sobretudo de garantir o seu papel no desenvolvimento da economia nacional.

Os últimos dados do IPCTN mostram, no entanto, uma tendência crescente da despesa de I&D, com o sector empresarial a representar 57% da despesa total do país. O número de pessoas envolvidas em atividades de I&D ultrapassa as 65.000, das quais cerca de 46% a trabalhar em empresas.

Novos indicadores do EIS, nas áreas da digitalização ou da sustentabilidade, permitem salientar a importância da inovação como motor de transformação, desenvolvendo competências específicas, aplicando conhecimento científico e tecnológico e gerando soluções que consigam travar o agravamento das debilidades existentes. Por outro lado, países mais inovadores apresentam ecossistemas mais participados, dinâmicos e colaborativos, num equilíbrio mais harmonioso entre condições (inputs), processos de suporte à inovação e os seus efeitos e impactos (outputs), criando mais oportunidades de geração de valor.

 

Posição das regiões

Na última edição do RIS, o desempenho de todas as regiões portuguesas deteriorou-se face ao ano anterior. As regiões nacionais são também das menos competitivas da União Europeia, com apenas três, das sete, regiões portuguesas a serem classificadas como inovadores moderados (Norte, Centro e Lisboa), tema que, em pleno período eleitoral, tem tido pouco eco na discussão pública e que, não sendo surpreendente, reflete a falta de prioridade atribuída a esta área de intervenção.

Se as condições adversas provocadas pela crise pandémica podem estar associadas a alguns dos resultados, como por exemplo a diminuição de atividades de colaboração em projetos e iniciativas de inovação, outros mantêm-se como ‘crónicos’ e, entre eles, destaca-se a já referida limitada capacidade de investimento em I&D do sector empresarial. No entanto, importa olhar para progressos em muitas regiões, frequentemente impulsionados por universidades, centros tecnológicos, institutos de I&D ou laboratórios colaborativos, do Minho ao Algarve, mas também em territórios do interior.

Uma análise mais focada nas regiões, indo além dos indicadores quantitativos espelhados no RIS, faz emergir várias ‘bolsas’ de excelência científica e tecnológica que, se acompanhadas por uma estratégia de valorização, poderiam contribuir para a criação ou reforço de novas atividades económicas, fortemente baseadas em fatores de diferenciação no mercado global. A pandemia também mostrou, em muitas organizações e empresas, a capacidade não só de resiliência, mas sobretudo de adoção de tecnologias e modos de produção mais flexíveis que podem apoiar um desenvolvimento mais equilibrado e sinalizar as suas competências como parceiro estratégico num novo modelo de inovação colaborativa.

Alguns exemplos ilustram, a partir de empresas multinacionais como a Bosch, a Nokia, a Coficab ou a Continental, o papel de iniciativas ou projetos inovadores, de origem ‘local’ ou regional, na geração de efeitos de natureza mais alargada, projetando as competências científicas e tecnológicas de Portugal.

Perspetivas de evolução

Os resultados apresentados na generalidade dos indicadores utilizados para comparar Portugal com outros países, apontam para uma urgência na ação. O progresso dos países e a competitividade das organizações dependem largamente das suas capacidades de inovação que, pela sua natureza sistémica e transversal, abrangem um conjunto muito diverso de atividades, indo além da I&D, que se tornam difíceis de captar e sobretudo medir.

Se o país mostra, nalgumas áreas, uma posição favorável nalguns indicadores, como as infraestruturas, o sistema científico e condições para a digitalização, na generalidade dos casos, a posição de Portugal situa-se abaixo da média da União Europeia, o que justifica que seja desenvolvida uma análise mais profunda sobre as motivações, as condições e os efeitos das atividades de inovação na competitividade. Os dados apresentados, nestes rankings internacionais, devem, pois, ser revistos à luz de uma avaliação holística, caracterizando experiências e casos, nacionais ou internacionais, percebendo como transferir e replicar práticas que se revelam bem-sucedidas.

Um esforço concertado para valorizar as dinâmicas locais e regionais, frequentemente associadas a iniciativas de excelência científica e tecnológica, com expressivo significado no seu reconhecimento internacional, e no financiamento obtido, permitiria alicerçar uma nova vaga de transformação inovadora. Esse objetivo, acompanhado dos meios e recursos, que parecem estar garantidos para os próximos anos, contribuiria para travar o agravamento das fragilidades estruturais da economia portuguesa, ousar e planear saltos tecnológicos e estimular maior participação de todos os atores relevantes, como os cidadãos, as empresas, as universidades ou instituições de I&D, as organizações da sociedade civil e da administração.

Passou o tempo de responder à pergunta “O que fazer?”. Hoje, importa criar respostas para a questão “Como fazer?” e com que prazo, de modo acelerado e focado no futuro. Aprendendo com outros países, experimentando e arriscando, mas sobretudo aplicando uma estratégia de atuação clara e participada para o desenvolvimento da inovação em Portugal.

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