Depois de o governo dinamarquês ter dito esta segunda-feira que a “ameaça de Donald Trump” de anexar a Gronelândia de uma forma não explicitada, também internamente a (pré)decisão da Casa Branca começa a ser observada como uma opção em que a administração republicana está mesmo empenhada. A ameaça sobre a Gronelândia, um território autónomo da Dinamarca e nessa circunstância sob a alçada da NATO, mereceu a mesma nota de desprezo que a nomeação do Canadá como o 51º Estado dos EUA: não passava de uma retórica agressiva, uma espécie de ‘palhaçada’ argumentativa que não era para ser levada a sério.
A investida sobre a Venezuela veio repentinamente mudar tudo: para além do governo dinamarquês e dos deputados ao parlamente da Gronelândia, também os membros do Congresso norte-americano ficaram convencidos de que Donald Trump não está, afinal, a brincar.
Citado pela imprensa norte-americana, o senador Eric Schmitt, republicano do Missouri, disse que expandir o papel dos Estados Unidos na Groenlândia “faz muito sentido estratégico”, acrescentando que a opção poderia dar-se com um alinhamento formal da ilha com Washington, ou até mesmo pela sua transformação em um território norte-americano. “Não sei se alguém está a falar em assumir o controlo, mas acho que fazê-lo faz muito sentido”, disse Schmitt, citado pelo jornal ‘Semafor’ descrevendo a Gronelândia como parte do foco da política externa da administração Trump no Hemisfério Ocidental.
O senador Chris Murphy, democrata do Connecticut e um dos principais críticos de Trump, disse, por seu turno, que “estava entre aqueles que achavam contraproducente sequer fingir levá-lo a sério em relação à Gronelândia”, mas, após a captura do líder venezuelano Nicolás Maduro, “acho que é preciso reavaliar… é preciso levá-lo a sério depois do que acabou de acontecer”.
A senadora Joni Ernst, republicana do Iowa, aconselhou a que os Estados Unidos trabalhem como “bons parceiros da Dinamarca” – sugerindo que essa será a melhor forma de atingir o objetivo estratégico da anexação da Gronelândia.
Entre os chamados ‘falcões’, Stephen Miller, um dos principais assessores de Trump, disse à CNN esta segunda-feira que os Estados Unidos não precisariam de tomar a Gronelândia pela força porque, como principal motor da NATO, o seu poder significa que nenhum outro país entraria em conflito com os norte-americanos. Foi, no mínimo, um erro de análise, já que a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, afirmou exatamente o contrário: “deixarei claro que, se os Estados Unidos optarem por atacar militarmente outro país da NATO, tudo para, incluindo a própria NATO, e, consequentemente, a segurança que foi estabelecida desde o fim da II Guerra Mundial”. De qualquer modo, Miller deixou claro que o foco de Trump na Gronelândia é real e já existe há muito tempo: “que direito tem a Dinamarca de exercer controlo sobre a Gronelândia? Obviamente, a Gronelândia deveria fazer parte dos Estados Unidos.”
Mas, para alguns, o assunto é uma espécie de tabu: questionado sobre os comentários de Trump a respeito da Gronelândia, o presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Jim Risch, republicano do Idaho, disse, ainda segundo o ‘Semafor’, que “tem de lhe perguntar a ele”.
O senador John Fetterman, democrata da Pensilvânia, disse àquele jornal: “não acho que vamos usar helicópteros. Não vejo isso a acontecer.” E afirmou que é mais provável que os Estados Unidos tentem estreitar a sua aliança com a Dinamarca para obter mais influência sobre a Gronelândia. “Acho que o presidente está realmente a pensar em fazer algum tipo de movimento em relação à Gronelândia? Não, não acho. Para mim, é ridículo. Mas o presidente pensa em voz alta”, disse o senador John Kennedy, republicano da Louisiana.
Vale a pena recordar que, no passado domingo, Trump disse que levaria tempo antes de decidir os seus próximos passos: “Vamos falar sobre a Gronelândia daqui a 20 dias”. E já passaram dois.
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