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Europeias: Eslovénia tenta resistir à vaga da extrema-direita

As eleições europeias na Eslovénia constituem testes à heterogénea da coligação de cinco partidos que tenta barrar a direita ultraconservadora.
18 Maio 2019, 15h13

A república mais rica da extinta Jugoslávia federal, com 2,1 milhões de habitantes, sempre foi referenciada pela sua grande homogeneidade cultural, étnica e social, e a declaração de independência em junho de 1991 apenas implicou alguns dias de guerra, ao contrário da vizinha Croácia.

As eleições europeias na Eslovénia, um dos países mais coesos da União Europeia, constituem testes à heterogénea coligação de cinco partidos que tenta barrar a direita ultraconservadora, e no combate à abstenção, que há cinco anos ultrapassou os 75%.

A Eslovénia conseguiu manter uma forte coesão social, como comprova um recente estudo do Eurostat, o gabinete europeu de estatísticas, que avaliou as desigualdades de rendimentos entre os 28 Estados-membros e coloca este país entre os mais igualitários da União, numa lista em que a Bulgária surge na última posição.

Com um crescimento de 4,5% e um desemprego de 5,3%, segundo os dados mais recentes, esta ex-república jugoslava também recuperou rapidamente da grave crise financeira de 2013. Após a independência que o país foi dominado por duas formações, a Democracia liberal da Eslovénia (LDS), herdeira da antiga Liga dos Comunistas, e o Partido social-democrata da Eslovénia (SDSS), colocado mais à direita.

No entanto, a extrema-direita sempre manteve implantação no terreno, com o Partido Nacional Esloveno (SNS), fundado em 1991, a reivindicar essa tradição, como ficou comprovado nas legislativas de 2018, ao garantir 4,2% e quatro deputados. O seu discurso hostiliza as minorias, em particular os rom (ciganos), mas também os imigrantes vindos de outras repúblicas da antiga Jugoslávia (bosníacos, sérvios, kosovares).

Desde a integração na UE em 2004 que o SNS defende uma posição muito hostil face à adesão, e tornou-se no defensor da ‘Grande Eslovénia’, ao mesmo tempo que elogiava o Partido da Liberdade Austríaco (FPÖ), ou a Liga italiana, ambas formações da direita extremista.

Para além das ações de rua de grupos com ligações ao SNS, foi a contínua viragem à direita do Partido Democrático Esloveno (SDS, ex-SDSS) que assinalou a vida política do país após ter perdido as eleições em 2008.

Esta formação, que abandonou a expressão ‘social-democrata’ em 2003, é dirigida desde 1993 por Janez Jansa. Aderiu ao PPE em 2001, acedeu ao poder em 2004, e registou uma evolução política pessoal comparável à de Viktor Orbán na vizinha Hungria, tornando o SDS numa formação ultraconservadora, autoritária e nacionalista.

Envolvido num escândalo de corrupção quando ocupava o cargo de primeiro-ministro em 2006, foi condenado a dois anos de prisão efetiva em 2104.

Em abril de 2015 o Tribunal Constitucional de Ljubljana ordenou a sua libertação após nove meses de detenção. Estas contradições judiciais, têm assinalado analistas, permitiram a Jansa colocar-se em vítima de um ‘sistema’ que diz ainda ser dominado pelos antigos comunistas.

E foi na questão muito sensível da memória da II Guerra Mundial que Jansa pisou a “linha vermelha”, ao assistir em 2013 a uma cerimónia evocativa dos Domobranci, a milícia eslovena colaboracionista do ocupante nazi.

O SDS também esteve na vanguarda da mobilização contra os refugiados.

A partir do verão de 2015, sobretudo após o encerramento das fronteiras húngaras, a Eslovénia tornou-se num ponto de passagem dos migrantes entre a Croácia e a Áustria. E Janez Jansa tornou a questão da migração, e o receio de “roubarem, transmitirem doenças, subverterem a identidade eslovena”, no centro da sua campanha para as legislativas de 2018.

O partido venceu estas eleições com 25% dos votos expressos, mas não conseguiu uma maioria para governar num parlamento muito fraturado, com nove partidos, mesmo aproximando-se do SNS e dos conservadores democratas-cristãos da Nova Eslovénia (NSi). Assim, foi formado um gabinete minoritário de cinco partidos, com o apoio condicional do Levica (esquerda anticapitalista).

O objetivo estratégico de Janez Jansa – que tem protagonizado uma crescente aproximação ao partido Fidesz de Viktor Orbán com reflexos no aumento dos investimentos húngaros, incluindo em diversos ‘media’ privados eslovenos – consiste em incluir a Eslovénia no grupo na Europa central conservadora do Grupo de Visegrado.

Um objetivo difícil, segundo os observadores, num país com tradições centristas e moderadas e um centro-esquerda representado por figuras “novas” e exteriores ao mundo político, como os sucessivos primeiros-ministros Miro Cerar (2014-1018) ou Marjan Sarec (desde setembro de 2018).

A Eslovénia elege oito deputados para o Parlamento Europeu. Nas eleições de 2014 a taxa de abstenção foi das mais elevadas entre os Estados-membros, ultrapassando os 75% de eleitores inscritos.

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