Falta de liquidez é o principal fator que leva cotadas a abandonar a bolsa portuguesa, diz a OCDE

A OCDE sublinha que, nas últimas duas décadas, o número de empresas cotadas na bolsa de valores portuguesa diminuiu em dois terços, de 148 para 55, resultado de uma queda no número de novas listagens e um grande número de empresas que deixaram o mercado de ações através de cancelamentos de registo.

Reuters

A escassa liquidez das ações é a principal razão citada pelas empresas que escolheram deixar de ser cotadas na bolsa portuguesa, seguida do insuficiente interesse e reconhecimento dos investidores, revelou um inquérito conduzido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

O relatório “Understanding Delistings from the Portuguese Stock Market” (“Perceber as Saídas da Bolsa Portuguesa”) salienta que após a crise financeira global de 2008 e a subsequente crise da dívida soberana na Europa, o governo português tomou medidas importantes para relançar a economia, abordando a capitalização de empresas e recuperação de investimentos.

“No entanto, com uma dependência elevada de empréstimos bancários, um número decrescente de empresas cotadas, a escassez de novas entradas e a presença insuficiente de investidores institucionais, o mercado de capitais português não se desenvolveu em direção ao seu potencial máximo”, adianta. “Portanto, a economia portuguesa beneficiaria significativamente de mais esforços para desenvolver mercados de capitais mais diversificados e integrados”.

Nesse contexto, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), enquanto autoridade de supervisão do mercado de capitais, promoveu o lançamento de um projeto, candidatando-o a financiamento comunitário, com o objetivo de identificar os obstáculos ao desenvolvimento do mercado de capitais português e as medidas que podem ser implementadas para ultrapassar essas dificuldades.

O projeto tem estado a ser desenvolvido pela OCDE e resultará na emissão de um conjunto de recomendações de reformas com vista a garantir o acesso das empresas portuguesas a financiamento de longo prazo. Segundo a CMVM, “a importância desta reflexão e iniciativas que possam dinamizar o financiamento em mercado é reforçada no contexto da desejada retoma após a atual crise”.

A OCDE sublinha que, nas últimas duas décadas, o número de empresas cotadas na bolsa de valores portuguesa diminuiu em dois terços, de 148 para 55, resultado de uma queda no número novas listagens e um grande número de empresas que deixaram o mercado de ações através de cancelamentos de registo.

“Assim como um IPO [oferta pública inicial, entrada em bolsa] pode ser uma etapa natural no ciclo de vida de uma empresa, a saída de bolsa também pode ser uma escolha racional num certo estágio da vida das empresas”, explica.

“Enquanto algumas empresas são forçadas a sair por falência ou por decisão de reguladores de valores mobiliários ou bolsas de valores, a maioria da saídas são realmente voluntárias”, vinca, a organização sediada em Paris, adiantando que dada a ambição de Portugal de mobilizar o mercado de capitais para o crescimento económico e o financiamento de investimentos corporativos de longo prazo, é importante perceber as características de empresas que cancelaram o registo e os seus motivos.

Para compreender a lógica principal de entrada em bolsa e as razões por trás das suas subsequentes saídas, a OCDE enviou um questionário a 47 empresas que estavam ainda ativas no final de 2017. Destas 47 empresas, 17 empresas participaram no inquérito, incluindo duas empresas que agora são subsidiárias de outra empresa.

Saídas quase todas “voluntárias”

O estudo revela que 10 de 14 empresas citou a baixa liquidez das suas ações no mercado como um fator importante na decisão, enquanto a segunda razão mais importante mencionada para excluir o registo foi o insuficiente interesse e reconhecimento por parte dos investidores.

Em relação aos custos, 40% das empresas listadas mencionaram os custos de compliance como uma razão importante na decisão de saída da bolsa, enquanto apenas 20% mencionaram as taxas que têm de pagar para serem cotadas.

“É importante salientar que a maioria das empresas não indicou dificuldades financeiras como fator relevante na sua decisão saída”, afirma o estudo.

A maioria das saídas ocorreu antes da crise financeira, com o número durante o período pré-crise (2000-2007) quase quatro vezes o do período pós-crise (2008-2018). As empresas que sairam, nos dois períodos, “foram em média semelhantes em termos de tamanho, mas havia três diferenças principais entre os dois grupos”.

As empresas que saíram de bolsa no período mais recente tinham desempenho inferior e maior endividamento.

“A grande maioria das retiradas do mercado português foi “voluntária” no sentido que resultaram de uma transação de fusão ou aquisição (M&A) ou uma resolução tomada na assembléia geral de acionistas”, explica a OCDE.

“Todas as empresas que responderam ao inquérito da OCDE sobre o acesso ao financiamento em Portugal mencionaram que requisitos flexíveis de governança corporativa e a existência de uma estrutura regulatória bem estabelecida para segmentos alternativos do mercado de ações (ou seja, mercados em crescimento) contribuiria para criar um ecossistema bem-sucedido do mercado de ações em Portugal”, vinca.

“Melhor suporte à liquidez do mercado secundário, incentivos fiscais para investidores consultores acessíveis e maior participação de instituições institucionais os investidores também foram apontados como fatores importantes por quase todos os entrevistados”, acrescenta.

Segundo a OCDE, a bolsa de valores portuguesa tem um dos mais baixos índices de capitalização de mercado em relação ao Produto Interno Bruto na zona euro e que diminuiu de 52% em 2007 para cerca de 30% em 2018.

Além disso, a liquidez do mercado secundário de ações tem apresentado uma tendência de queda desde 2008. Até ao final de 2018, o rácio de rotatividade foi de 41% na Euronext Lisbon, em comparação com,  por exemplo, 64% na Euronext Amsterdam e 35% na Euronext Brussels.

“Em meados da década de 90, Portugal viveu uma onda de novas entradas em bolsa, que atingiu um pico em 1997, quando tinha 148 empresas cotadas. No entanto desde 2000, as entradas têm sido poucas, com apenas 16 empresas a chegarem ao mercado, enquanto um total de 91 empresas portuguesas foram retiradas de todos os segmentos de cotação da Euronext Lisbon”, explica o estudo.

Entre as 91 empresas que deixaram de ser cotadas desde 2000, 14 deixaram o mercado depois de mais de 20 anos.

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