Firmas de consultoria veem “oportunidades” na multidisciplinaridade

KPMG e EY falam em oportunidades, vantagens e desafios para as suas organizações com esta potencial flexibilização.

As pequenas e as grandes consultoras consideram que existem vantagens, oportunidades e desafios caso exista uma alteração legislativa que dê ‘luz verde’ às sociedades multidisciplinares em Portugal (que agregue tanto advogados como consultores e outros profissionais). O modelo organizacional, de inspiração anglo-saxónica, não é novo e está em pleno funcionamento em vários estados norte-americanos ou mesmo na ‘vizinha’ Espanha e na maior potência económica europeia, a Alemanha. No entanto, este ano voltou à agenda mediática nacional no final do ano passado na sequência de um relatório da Autoridade da Concorrência (AdC).

De acordo com o documento da AdC, as medidas de liberalização das profissões jurídicas (nas quais se inserem os advogados, os solicitadores, os agentes de execução e os notários) teriam um impacto positivo na economia portuguesa de cerca de 32 milhões de euros. Para a instituição liderada por Margarida Matos Rosa, é importante “reavaliar a proporcionalidade das incompatibilidades e impedimentos que possam inviabilizar a oferta de atividades multidisciplinares por sociedades de profissionais”.

A Ernst & Young (EY) garante que, caso a regulação nacional dê maior flexibilidade a estas firmas de “combinarem várias valências”, irá “certamente” explorar “as oportunidades de intensificar ainda mais essa combinação”. Bruno Padinha, responsável de Advisory da EY Portugal, lembra ao Jornal Económico (JE) que as grandes consultoras são, por definição multidisciplinares, “pela natureza da nossa atividade, com a sua complexidade e abrangência de temas”. “O que se reflete, por exemplo, na ampla variedade de cursos e percursos académicos que têm as pessoas que recrutamos à saída do ensino superior, incluindo gestão, direito, tecnologia, psicologia, design e muitos outros domínios”, esclarece o mesmo partner.

A consultora financeira Andreia Teixeira reconhece “a utilidade e as vantagens” práticas das sociedades multidisciplinares que esta alteração permitiria às empresas e profissionais deste segmento. No entanto, a CEO desta ‘boutique’ de Lisboa salienta que existem “outros planos relacionados com o exercício da própria advocacia, com a respetiva deontologia e a regulação, cuja conjugação tem de ser tida em consideração e que é da maior fundamental para este tema”.

Aquando da apresentação da proposta de Orçamento do Estado para 2020, o Governo também sinalizou a liberalização das profissões autorreguladas, estabelecendo como uma das prioridades para os próximos três anos eliminar as práticas que limitem ou dificultem o acesso a este tipo de profissões, “para assegurar o direito à liberdade de escolha e acesso”. Neste caso, a inspiração do Executivo – que não apresentou detalhes sobre essa eliminação de barreiras – não foi anglo-saxónica mas da AdC. “Qualquer mudança traz oportunidades e desafios, mas por enquanto esta matéria continua a ser apenas uma possibilidade teórica”, afirma Nasser Sattar, sócio e responsável pela área de Advisory da KPMG Portugal.

Para o bastonário da Ordem dos Advogados, Luís Menezes Leitão, a existência de sociedades multidisciplinares em Portugal é “totalmente absurdo”.

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