A incerteza global e o abrandamento da economia nacional colocam dúvidas ao Fórum da Competitividade sobre a capacidade de Portugal crescer acima de 2% este ano, um cenário que parecia quase garantido no início de 2025. A crise política não ajuda e a guerra comercial em curso muito menos, sendo que os detalhes de ambas serão determinantes para perceber o seu real impacto na economia.
A nota de conjuntura de março do Fórum lembra o abrandamento no início deste ano, sobretudo quando comparado com o dinamismo do quarto trimestre de 2024, para argumentar que a incerteza em torno da economia portuguesa pode dificultar o que parecia há uns meses um resultado “fácil”, crescer acima de 2%.
“Para já, ainda parece possível crescer acima de 2% em 2025, mas tem que se sublinhar que o nível de incerteza está muito elevado”, lê-se na nota, que destaca que, “em termos estritamente económicos, o PIB acabou o ano de 2024 com grande dinamismo, devendo ter mantido algum deste ímpeto no início do ano, mas as coisas poderão degradar-se ao longo de 2025”.
Recorde-se que, na nota de conjuntura de janeiro, o Fórum considerava “fácil crescer acima dos 2% em 2025” dado o ‘embalo’ que a economia trazia de 2024, com um carry-over de 1,3%.
Os indicadores de atividade económica abrandaram “de forma significativa em janeiro e fevereiro”, mas recuperaram em março, contando com um dinamismo assinalável do consumo privado, ainda que “não tão dinâmico como no final do ano”. Também de destacar a evolução da poupança das famílias, que subiu de 11,1% para 12,2%, “atingindo o valor mais elevado desde o 2º trimestre de 2004, se excetuarmos o período excecional da pandemia”.
“Esta subida da poupança das famílias é muito bem-vinda, porque cria espaço para que o necessário aumento do investimento não se traduza em défices externos”, elogia a nota.
O principal peso negativo sobre a economia nacional é a questão do comércio internacional, com o mundo à espera dos detalhes quanto às tarifas planeadas pelos EUA, “que estão a gerar riscos de estagflação para o seu próprio país, com reflexos negativos a nível global, sobretudo nos seus principais parceiros, como é o caso da UE”.
“Mesmo que algumas das tarifas ameaçadas entrem em vigor, a instabilidade das decisões políticas leva as empresas a não terem a certeza de que esse será o novo normal a que terão que se adaptar, porque parece poder haver novos recuos daqui a não muito tempo”, alerta o gabinete de estudos do think-tank nacional. A reforma do travão da dívida na Alemanha é uma “boa notícia”, ressalva, mas também internamente Portugal enfrenta um cenário menos benigno do que no início deste ano.
A crise política “é negativa”, mas terá consequências mais gravosas se levar a uma mudança de Governo, considera o Fórum. Mantendo-se a atual solução governativa, “o governo estará em gestão, mas pode ir avançando com os dossiers, porque será uma questão formal até à nova tomada de posse”; caso haja mudança, “vai-se gastar mais tempo e aí os prejuízos económicos serão maiores”.
“Muitas decisões de investimento serão adiadas, metas e marcos do PRR poderão ficar comprometidos, pode haver novo atraso na execução do PRR”, alerta, isto depois de reconhecer na execução “uma melhoria face ao ritmo anterior, mas insuficiente para cumprir o calendário” dos fundos europeus.
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