A excessiva especialização da economia portuguesa no turismo e no imobiliário associada à fraca coesão territorial compromete o crescimento económico do país. Esta é a principal conclusão de um estudo do Gabinete de Estudos Económicos, Empresariais e de Políticas Públicas (G3E2P) da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, apresentado esta quarta-feira, 21.
“A concentração excessiva de poder político, económico e decisório na Área Metropolitana de Lisboa (AML) tem impactos negativos persistentes no desempenho económico de longo prazo, acentuando desigualdades regionais e dificultando a consolidação de um modelo de crescimento mais equilibrado, produtivo e inclusivo”, afirmam Óscar Afonso, diretor da FEP, e Nuno Torres, coordenador do G3E2P, autores do estudo.
O retrato, tudo menos homogéneo, mostra – uma Área Metropolitana de Lisboa (AML), com níveis de riqueza acima da média europeia e vastas regiões do interior com indicadores de nível de vida entre os mais baixos da UE.
Entre 2000 e 2023, o período analisado, Portugal perdeu posição relativa face à média europeia em termos de nível de vida e não fe uma aproximação regional real. “A convergência regional observada foi limitada e ocorreu num contexto de empobrecimento relativo do país no seu conjunto, resultando sobretudo de um menor crescimento das regiões mais ricas e não de um salto estrutural das regiões mais desfavorecidas, configurando um processo de igualização por baixo”.
A Área Metropolitana do Porto (AMP), principal centro económico do Norte, referem os autores, tem vindo a perder nível de vida relativo. Embora, considerem que o fenómeno “fragiliza não apenas o desenvolvimento local, mas o desempenho económico de toda a região”, adiantam os autores, que a AMP tem condições “para se afirmar como um dos principais motores económicos do país”.
Isso poderá acontecer, avançam, desde que consiga “atrair e fixar população, talento e investimento que sustentem ganhos de produtividade”.
Os investigadores também analisaram à lupa a excessiva especialização da economia portuguesa no turismo e no imobiliário, setores “de baixo valor acrescentado, intensivos em mão de obra pouco qualificada, que contribuem de forma limitada para o progresso técnico e para o aumento sustentado da produtividade”.
“Este modelo, alinhado com o centralismo territorial, desvia investimento de atividades transacionáveis, industriais e tecnológicas, com maior potencial de inovação e criação de valor”, afirmam Óscar Afonso e Nuno Torres.
Outra conclusão do estudo é a de que, Portugal “permanece excessivamente” especializado no setor público, ao mesmo tempo que perdeu peso relativo na indústria.
Segundo os autores, no domínio do investimento, a análise da Formação Bruta de Capital Fixo, entre 2009 e 2023, mostra que a AML registou um crescimento de 45,8%, próximo dos 52,3% observados na região Norte. No entanto, alertam, para o facto das fontes desse investimento diferirem de forma substancial. “Enquanto o Norte depende sobretudo de fundos de coesão europeus, a AML beneficia da sua centralidade política e económica, apesar de não ter acesso aos mesmos mecanismos de apoio comunitário”.
Óscar Afonso e Nuno Torres salientam ainda que Portugal é um dos poucos países da União Europeia sem níveis efetivos de governação intermédia, uma realidade que penaliza em particular os territórios do interior.
O estudo visou identificar os principais bloqueios estruturais ao crescimento económico, resultantes da relação entre centralismo territorial, especialização produtiva e desempenho económico.
Face às conclusões, os autores defendem a necessidade de: “repensar o modelo de desenvolvimento territorial e económico do país, através da criação de polos regionais fortes de crescimento, da reorientação do investimento público e dos incentivos privados, de uma reforma profunda do Estado com efetiva descentralização e da promoção de uma economia mais produtiva e menos dependente do turismo”.
Foram usados dados oficiais do Eurostat e do Instituto Nacional de Estatística, referentes ao período entre 2000 e 2023, incluindo indicadores de PIB per capita em Paridade do Poder de Compra, produtividade, estrutura sectorial do Valor Acrescentado Bruto e distribuição populacional.
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