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Francisco Botas: “É necessário avançar na União Bancária, na simplificação regulatória e potenciar a colaboração público-privada”

Sobre os planos dos bancos centrais de transição para o carbono neutro, tanto para os bancos como para os bancos centrais e para as empresas, Clara Raposo, vice-Governadora do Banco de Portugal defendeu uma maior integração europeia. “Sempre que temos maior integração europeia numa determinada área, normalmente encontramos bons resultados”, disse.
13 Março 2026, 18h15

No V Encontro Finanças Sustentáveis do Abanca, em Lisboa, reguladores dos bancos centrais de Espanha e Portugal e o CEO do Abanca defenderam maior aprofundamento da União Bancária, simplificação regulatória e colaboração público-privada para mobilizar o financiamento massivo necessário à transição energética e digital. Enquanto vice-governadoras destacaram a importância da estabilidade financeira e da integração de riscos climáticos, Francisco Botas alertou para a excessiva rigidez da taxonomia europeia — que classifica como “verdes” menos de 10 em cada 3.000 carros financiados pelo banco. Por outro lado sublinhou que “não haverá crescimento verde sem crescimento económico”.

Um dos momentos centrais do evento reuniu a vice-governadora do Banco de Espanha, Soledad Núñez, a vice-governadora do Banco de Portugal, Clara Raposo, e o CEO do Abanca, Francisco Botas, num painel moderado por Alejandra Kindelán, presidente da Associação Espanhola de Banca.

O debate incidiu sobre o papel do setor bancário no financiamento da dupla transição digital e energética, no reforço da autonomia estratégica e da competitividade europeia.

As representantes dos bancos centrais sublinharam a importância da estabilidade financeira e regulatória num ambiente de maior complexidade, defendendo padrões comuns de informação, robustez prudencial e integração consistente dos riscos climáticos e tecnológicos nos sistemas de supervisão.

Durante o debate, Francisco Botas salientou que “não haverá crescimento verde sem crescimento económico” e afirmou que o setor bancário espanhol e europeu está preparado para assumir este desafio.

“Contamos com a liquidez, a sólida posição de solvência e o apetite necessários para injetar os volumes de financiamento que esta transformação exige”, garantiu. No entanto, sublinhou que, para mobilizar esses recursos, é necessário “avançar na União Bancária, na simplificação regulatória e potenciar a colaboração público-privada”.

O CEO do Abanca deixou claro que o conceito de que a sustentabilidade é um princípio irrevogável, e o sector bancário é signatário do Acordo de Paris, ao mesmo tempo que lamentou a saída dos Estados Unidos.

A banca e o setor financeiro global tornaram-se signatários ativos dos acordos climáticos da ONU, principalmente através de alianças que visam alinhar carteiras de investimento com as metas do Acordo de Paris (limitar o aumento da temperatura a 1,5°C).

Francisco Botas também alertou para o tema da taxonomia e apontou as limitações práticas da Taxonomia Europeia para atividades sustentáveis (o Regulamento (UE) 2020/852), que define critérios muito rigorosos para considerar uma atividade económica como “verde” ou ambientalmente sustentável. “A taxonomia é um caso concreto para os problemas que os bancos enfrentam na hora de classificar financiamentos como sustentáveis”, disse citado o caso do setor automóvel. “Em três mil carros verdes que financiamos, menos de dez, cumprem as exigências da taxonomia”, disse.

O CEO do Abanca referia-se ao facto de taxonomia ser tão exigente que, na prática, quase nenhum carro elétrico ou “verde” financiado pelo banco consegue ser classificado como sustentável segundo as regras oficiais da UE. Isso cria uma discrepância entre o que o mercado e os bancos chamam de “carro verde” (e que promovem/financiam) e o que a regulamentação europeia aceita como tal para efeitos de relatórios ESG, rótulos verdes, obrigações sustentáveis.

É uma crítica comum no setor bancário europeu nos últimos anos: a taxonomia é teoricamente boa, mas na prática é excessivamente rígida para certos setores como o automóvel.

Sobre os planos dos bancos centrais de transição para o carbono neutro, a neutralidade climática, tanto para os bancos como para os bancos centrais e para as empresas, Clara Raposo, vice-Governadora do Banco de Portugal defende maior integração europeia. “Sempre que temos maior integração europeia numa determinada área, normalmente encontramos bons resultados”, disse reconhecendo que “é, de facto, muito difícil beneficiar 27 países nas tomadas de decisão porque a heterogeneidade é enorme, mas, por exemplo, a decisão de termos a moeda única na área do euro foi uma criação com grande sucesso e o facto de termos política monetária única para todos não tem sido impeditivo de conseguirmos  ter sucesso na forma como controlamos a inflação, estabilidade financeira, etc. Portanto, este maior aprofundamento  da integração europeia é algo que é importante”.

A Vice-Governadora do Banco de Portugal acrescentou que “é importante recordarmos como era antes de termos um mecanismo único de supervisão. Essa é exatamente uma área  de enorme progresso mas que pode ser ainda melhorada”.

Sobre a simplificação Clara Raposo diz que “também temos de perceber que só o facto de nos mudar uma série de coisas que já estão implementadas, para ser mais simples a seguir, por vezes traz tanta perturbação ao sistema que mais vale, em alguns aspectos, manter. Manterprevisibilidade que é algo que bancos valorizam”.

Sobre a necessidade de transição energética e climática, Clara Raposo destacou que “temos de compreender melhor onde é que estão os seguros para os riscos físicos na concessão de crédito. Os dados sobre seguros para os vários tipos de riscos associados ao clima devem estar interligados. Todos nós sabemos hoje que temos de trabalhar mais entre as várias entidades reguladoras  e de supervisão para integrarmos melhor a informação e termos a noção de qual a materialidade destes riscos”.

“Os bancos centrais também estão a fazer o seu caminho e também estamos nós próprios a produzir estudos de trabalho para melhor compreendermos a relação entre os riscos climáticos e o impacto que eles têm no setor bancário”, acrescentou.

Clara Raposo considera que “no futuro tudo será mais simples, porque todos teremos aprendido mais e conseguiremos ter uma forma mais simples de reporte dos planos de transição, saber e de que forma é que estão expostas às emissões de carbono, e conseguiremos ter medidas mais concretas”, acrescentando que há a possibilidade de haver melhor cooperação na definição daquilo que se pede das empresas.

Papel dos mercados de capitais no financiamento da transição

O terceiro bloco reuniu a vice-presidente da Comissão Nacional do Mercado de Valores, Paloma Marín, a vice-presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, Inês Drumond, e Laura Román, Responsável Ibérica da Robeco, com moderação de Inês Oom, conselheira do Abanca.

As intervenções convergiram na ideia de que os mercados de capitais também devem ter um papel relevante — a par do setor público e da banca — na alavancagem “massiva” de capitais necessários para financiar a dupla transição.

O tema da regulação e a necessidade de simplificação versus os custos da mudança foi outro dos pontos debatidos neste painel.

A organização do V Encontro Finanças Sustentáveis integra-se na estratégia do Abanca de promover o debate informado sobre os desafios estruturais da economia, consolidando o seu compromisso com uma banca responsável, inovadora e alinhada com as exigências de longo prazo.


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