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Gás natural do Ártico crucial para a independência energética da Europa

Se Bruxelas aligeirar regras ambientais para o gás natural do mar de Barents, explorado pela Noruega, Europa pode ganhar um fornecedor mais fiável, que polui menos e que cumpre direitos humanos.
Vasily Fedosenko/Reuters
25 Fevereiro 2026, 07h00

Quando os portugueses rumaram a sul para descobrir o caminho marítimo para a Índia, havia quem queria rumar para norte para descobrir o caminho marítimo para a China.

Um deles chamava-se Willem Barentsz e queria ir pelo norte da Rússia e Sibéria até ao extremo-oriente no século XVI.

O navegador dos Países Baixos nunca conseguiu o feito e seria preciso esperar quase mais 300 anos para o sueco Adolf Erik Nordenskiöld conseguir o feito na expedição Vega.

Mas as suas três viagens de exploração ficaram para a história com o seu apelido a ficar para a eternidade dando o nome ao mar de Barents.

O mar de Barents promete agora outras riquezas, com o gás natural no Ártico a ter o potencial para abastecer Europa e aumentar a independência energética face a fornecedores externos.

A Comissão Europeia está a rever a sua política para o Ártico e abriu uma consulta pública que decorre até meados de março. A abertura destas águas para a exploração podem ser boas notícias para a Europa e a sua independência energética após o fecho da torneira russa na sequência da invasão da Ucrânia.

Na realidade, este mar que pertence ao Oceano Ártico banha as costas da Noruega e da Rússia. Não há nenhum estado-membro da UE que detenha jurisdição neste mar, mas a lógica é, se as exigências para esta região forem aligeiradas, vai ser possível a compra de gás desta zona à Noruega, fomentando o investimento por parte de companhias gasistas.

“O repensar da política da UE para o Ártico pode manter o gás do Mar de Barents em jogo na década de 2030, oferecendo à Europa uma opção de fornecimento próxima e com baixas emissões [por o transporte ser menos longo] à medida que a sua dependência do mercado global de gás líquido cresce”, segundo uma análise da consultora Rystad.

A Europa pode ganhar assim reforçar as compras à Noruega, que tem sido fundamental para substituir o gás russo. O gás da Noruega tem origem num fornecedor mais fiável, que polui menos e que cumpre direitos humanos.

A Noruega foi o principal fornecedor de gás vindo de pipeline da UE em 2024, com os EUA a serem o principal fornecedor de gás vindo por navio.

Em 2024, a UE consumiu quase 13 milhões de terajoules de gás natural, mas o consumo tem vindo a recuar desde a invasão russa da Ucrânia.

Os projetos neste mar precisam entre 5 a 10 anos entre o momento da descoberta até uma produção estável, com a consultora a destacar que o sinal que a UE enviar será “determinante” para obter volumes adicionais da produção na Noruega ou se a “Europa vai depender mais fortemente” dos mercados globais na próxima década.

A Rystad acredita que a Noruega tem o potencial para abastecer entre 20% a 30% do gás consumido na Europa até 2050. Até lá, o consumo de gás natural liquefeito (GNL) pela Europa vai aumentar entre 30% a 50% durante este período, “aumentando a exposição da Europa aos mercados globais”.

Porque é que a Europa está envolvida nesta questão? A consultora argumenta que, se a UE descomplicar nas exigências ambientais para o gás desta zona, pode “influenciar como compradores e decisores avaliam as opções de abastecimento na década de 2030”.

Mas há outros desafios pela frente. Apesar da base ser promissora, com 3,5 mil milhões de barris diários de gás (ou cerca de 22 biliões de pés cúbicos), com a possibilidade de acrescentar outros 2,25 mil milhões até 2050, mas dependendo de “novas descobertas, desenvolvimento coordenado em vários campos e, crucialmente, capacidade de exportação”.

Em termos de infraestrutura de exportação, transformar o gás extraído em líquido para o enviar via navio para outros países, existe o centro de Hammerfest, mas este continua dependente do campo de Snohvit, limitando a sua flexibilidade para absorver novos volumes.

Uma possibilidade seria colocar o gás na rede norueguesa para ser processado noutras instalações, mas isto requer escala e com a inauguração coordenada de projetos para que a ligação à rede consiga financiamento.

A mudança das regras, significa que a UE “pode manter as opções de abastecimento no curto-prazo sem prejudicar as metas ambientais”, segundo a consultora.

As emissões vão estar em destaque, mas a Rystad argumenta que a exploração de petróleo da Noruega está entre as que menos polui em todo o mundo e que o gás entregue por pipeline lidera nas emissões mais baixas.

No campo de Snohvit, o dióxido de carbono (CO2) removido do gás produzido volta a ser injetado no mar e também há planos para eletrificar a infraestrutura de Hammerfest, o que irá ajudar a reduzir emissões.

A consultora não acredita que a UE abra completamente as portas, mas a abertura de algumas regiões pode ser possível ao colocar limites às zonas mais sensíveis, no norte do mar de Barents, como proteção de ecossistemas, limites à pesca e coordenação com as comunidades locais, de etnia Sami. Uma ideia seria aplicar metas, realistas, de descarbonização aos projetos gasistas, sugere a Rystad.


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