God Bless América

Nenhum país é tão criticado como os Estados Unidos da América do Norte. A América, como se dizia na minha meninice. A promise land dos founding fathers. A terra que, contendo todos os vícios da contemporaneidade encerra em si uma atração inescapável. A América, a sua ideia, as suas peripécias (“only in América…”) são o seu verdadeiro soft power que serve de farol para este rochedo que ainda gira à volta do sol.

Por mais impacto que tenha a Europa nas nossas vidas, por mais bazucas que coloquem cidadãos e governos ávidos d’esperança, é uma miragem querer que umas eleições europeias tenham um impacto sequer aproximado do que concedemos ao grande sufrágio Americano. Não foi por estas palavras, mas elas sintetizam o desabafo expresso pela minha amiga Raquel Patrício Gomes, uma das maiores divulgadoras do ideário europeu, em resposta à histeria coletiva face ao duelo Trump-Biden (ou Trump- AntiTrump, como preferirem). É certo que arranjar um leque de candidatos a um cargo de eleição indireta, Presidente da Comissão Europeia, para dar uma aura de democracia e de “goal”,  e no fim ignora-los olimpicamente, escolhendo outrem, não ajuda muito, mas as razões essenciais são outras.

Nenhum país é tão criticado como os Estados Unidos da América do Norte. A América, como se dizia na minha meninice. A promise land dos founding fathers. A terra que, contendo todos os vícios da contemporaneidade encerra em si uma atração inescapável. A América, a sua ideia, as suas peripécias (“only in América…”) são o seu verdadeiro soft power que serve de farol para este rochedo que ainda gira à volta do sol.

Trump é um produto disso tudo. Uma celebridade que saiu das revistas sociais da terra do tio Sam, para os reality shows, ganhado assim balanço para a Casa Branca. Algo que os cinzentões Europeus nunca poderiam prever. O Grand Old Party, o Partido de Lincoln, resumir-se hoje aos interesses da família Trump, uma espécie de negativo fotográfico de umas Kardashians, por exemplo, é trágico-cómico. E se a única alternativa dos democratas para enfrentar Trump é Sleepy Joe, então estamos conversados. Basta lembrarmo-nos que, há apenas 8 anos, a discussão fazia-se entre um segundo mandato de Obama e o “prémio carreira”, que nunca chegou, mas que seria mais do que merecido, para John McCain. Este herói de guerra americano, talvez o único candidato decente dos conservadores desde Bob Dole – outro herói de guerra, foi fortemente penalizado por ter apanhado um Obama a meio da jornada, e por ter cedido aos radicais do Tea Party, admitindo como candidata a vice-presidente uma fonte de piadas ambulante, algumas delas picantes, chamada Sarah Palin. Dada a frágil condição de saúde do entretanto malogrado Mccain, foi fácil para os americanos conjeturarem o desastre Palin na sala oval – aqui talvez reganhando o imaginário “Clintoniano” da sala presidencial. “One Heartbeat Away”, era a distância que separava a ameaça Palin  da liderança do mundo livre, se McCain vencesse.

Pouco me admiraria que no projecto Democrata, pairasse nas cogitações de “Pelosi and his friends” a ideia de colocar pela primeira vez uma mulher na presidência utilizando o expediente sucessório que o sistema americano permite. Kamala Harris, uma brilhante causídica, ainda jovem mas desgastada publicamente por causas fraturantes, será sempre uma melhor executiva do que candidata. Começará por sê-lo numa Vice-presidência activa, até porque já avisou que não tem feitio para figura de corpo presente, uma espécie de “segunda dama”, a que se arriscam sempre os titulares da esvaziada pasta de vice na América. Depois, se a idade de Joe lhe pregar uma partida, nomeadamente num segundo mandato, Kamala pode cumprir o sonho que Hillary falhou, acumulando o pioneirismo de primeira mulher, e negra, nos sapatos de Washington, o George.

Claro que os democratas, e muito menos eu, não quererão matar o velho Biden, político toda uma vida, e senhor de um percurso cheio de agruras familiares. Mas se a vida lhe fizer uma última rasteira, os democratas repetiriam uma viragem na sua conceção ideológica, até porque Kamala, estando longe de um extremismo de Sanders ou Elizabeth Warren, está mais à esquerda do que é usual no liberalismo capitalista do partido do burro, como o fizeram “os azuis” há quase oitenta anos com a sucessão de Roosevelt por Truman. Com o aproximar do fim da grande guerra, os problemas de saúde do Presidente Roosevelt, o regresso iminente de milhões de soldados negros que, pela primeira vez, e no campo de batalha, gozavam dos mesmo direitos e deveres dos demais, e a meio da Great Northward Migration, que levou cerca de 6 milhões de cidadãos negros das quintas do sudeste americano para os subúrbios das grandes cidades do Nordeste, o partido democrata sentiu necessidade de romper com o racismo tradicional do partido. Truman possivelmente nunca seria eleito em 1944, mas ninguém como ele no partido democrata poderia ter transformado um partido com lastro segregacionista no grande impulsionador dos direitos civis. Tanto que na eleição de 48 há uma cisão no partido democrata com os dixiecarts, grupo segregacionista democrata do sul a formarem o States’ Rights Democratic Party de curta duração, que empenhado a bandeira dos confederados jurava manter o “purismo” (com muita aspas) original Democrata, nomeadamente no que ao conceito de raça dizia respeito. Uma verdadeira bênção para a reeleição de Truman, que assim anulou um fortíssimo candidato Republicano, Thomas E. Dewey, com imagem de impoluto, fruto de décadas de perseguição à Máfia Nova Iorquina enquanto procurador, e um vanguardista dos direitos das minorias raciais. Entre dois contrastes assim, o cauteloso povo americano optou por continuar com Truman, embora o Chicago Tribune tivesse arriscado uma manchete com a vitória do republicano, e o resto é História.

À hora que escrevo estas linhas falta muito pouco para que nas urnas, e em grandes eleitores do colégio eleitoral, Joe Biden seja oficiosamente o 46º Presidente da América. Com a vitória em dois dos importantes estados do ruster belt (Michigan e Wisconsin) a iminência de captura do Nevada, uma cavalgada interrompida pela suspensão da contagem de votos na Pensilvânia e o fantasma do velho John McCain a castigar, por contraste, Trump no Arizona, Sleepy Joe, ou a ira anti-Trump, arrisca-se mesmo a confirmar as sondagens.

Aquela terra a tudo resiste, realmente.

God Bless America!

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