Com cerca de 57 mil habitantes, a Gronelândia, região autónoma da Dinamarca, tem sob uma enorme camada de gelo riquezas – algumas delas ainda inexploradas – que há muito uma tentação para exploradores, aventureiros e governos externos, como sucede mais recentemente. Os dados mais recentes indicam que o produto (PIB) nominal da Gronelândia é de cerca de 3,15 mil milhões de euros, com taxas de crescimento anual que têm rondado 1%. Cerca de 50% das receitas do governo são oriundas de transferências diretas do reino da Dinamarca. Ou seja, com um orçamento da ordem dos 1,3 mil milhões de euros, a Dinamarca responde diretamente por 4,445 mil milhões.
As transferências de algum modo escondem uma realidade social que está longe se ser a mais feliz. Desde logo, segundo os dados mais recentes, a taxa de pobreza da Gronelândia é de 17,4% (rendimento abaixo dos 60% da média da União Europeia), superior à média europeia (16%) e muito superior à da Dinamarca – que não tem população na zona da pobreza, mas tão somente 11% em risco de pobreza. Esta discrepância entre o reino e a autonomia indica que os habitantes da Gronelândia vivem substancialmente pior que os seus ‘irmãos’ dinamarqueses, de que, de resto, se querem separar – da autonomia para a independência de facto. Não será por acaso que a taxa de crescimento da população é negativa em 0,08% (estimativa para 2025). A maioria da população é de ascendência inuíte, um povo que terá vindo da Sibéria para ali se estabelecer – e que, já o mundo bem entrado no século XX, foi alvo de tentativa de contenção por parte da Dinamarca.
Limpeza étnica
De facto, o reino escandinavo implementou nas décadas de 1960 e 1970 uma campanha de controlo populacional forçado que visava especificamente as mulheres e raparigas inuítes na Gronelândia. A campanha ficou conhecida pelo ‘caso da espiral’ e resultou na instalação de dispositivos intrauterinos (DIU) em milhares de mulheres, muitas delas adolescentes e muitas vezes sem o seu conhecimento. Em anos mais recentes, o governo dinamarquês e o governo da Gronelândia lançaram uma investigação oficial sobre o programa e, em agosto de 2025, a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, emitiu um pedido formal de desculpas. Um grupo de 143 mulheres afetadas está a processar o estado dinamarquês e a exigir uma indemnização.
Mas, ainda segundo os dados mais recentes, a situação na Gronelândia está a piorar: a pobreza e a desigualdade são consideradas desafios imediatos, levando a um aumento no número de pessoas sem-abrigo – algo que não se vê na Dinamarca. Depois da pressão mantida pelo presidente dos Estados Unidos, o governo dinamarquês apressou-se a prometer rever os mecanismos de financiamento da ilha, não só em termos de brutos, mas principalmente tentando encontrar formas de potenciar a utilização do ‘tesouro’ que se encontra sob o gelo.
Evidentemente que as dificuldades logísticas patrocinadas pelo gelo – que, de qualquer modo, está a derreter – são difíceis de ultrapassar, mas no subsolo da ilha escondem-se quantidades tidas como não despiciendas de carvão, minério de ferro, chumbo, zinco, molibdénio, diamantes, ouro, platina, nióbio, tantalita, urânio e possivelmente petróleo e gás natural em quantidades não totalmente determinadas – mas que, no caso do ‘ouro negro’ pode chegar aos 50 mil milhões de barris.
A indústria responde por menos de 20% do PIB e está concentrada na pesca e nos setores que lhe estão associados. Mas também aqui há problemas: os bancos de camarão, um dos mais importantes subsetores da ilha, estão a ser particularmente afetados pelas alterações climáticas. Cerca de 60% do PIB vem dos serviços – com o turismo, mesmo que insipiente dadas as agruras climáticas, a ter um potencial de crescimento ainda não explorado. Ataxa de cobertura das importações pelas exportações é negativa em mais de 10 pontos percentuais.
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