Guterres: “Estamos num momento de refundação das instituições mundiais”

Mais de sete décadas após a criação da ONU, o secretário-geral António Guterres diz estar convicto que as instituições multilaterais mundiais estão “num momento de refundação”, apontando a necessidade de renovar “alicerces” perante as exigências dos tempos atuais.

“Estou convicto de que, 75 anos após a fundação das Nações Unidas, estamos num momento de refundação. Necessitamos examinar alguns dos alicerces em que assentam as nossas sociedades e instituições mundiais e renová-los, para que sejam adequados ao nosso tempo”, afirmou o secretário-geral em declarações, por escrito, à agência Lusa.

O ex-primeiro-ministro português e ex-Alto Comissário para os Refugiados respondeu à Lusa poucos dias depois de terem passado quatro anos da sua aclamação pela Assembleia-geral da ONU para o cargo de secretário-geral daquela organização, a 13 de outubro de 2016.

António Guterres defendeu que as instituições multilaterais precisam de ser atualizadas, incluindo a própria Organização das Nações Unidas (ONU), de modo a que representem de forma mais equitativa a população mundial.

“Em vez de conferirem um poder desproporcional a alguns, limitando a voz de outros, em particular no mundo em desenvolvimento”, sustentou, sem fazer referências específicas.

Para o ex-primeiro-ministro português, as recentes crises vieram demonstrar que o mundo precisa de “mais e melhor multilateralismo”, o que significa “um multilateralismo que funcione de maneira eficaz e que traga resultados às pessoas que visa servir”.

“Precisamos, urgentemente, de instituições multilaterais que, estando assentes num consentimento global, possam agir de forma decisiva na promoção do bem comum. (…) Instituições multilaterais que sejam justas, com uma representação acrescida do mundo em desenvolvimento, de modo a que todos possam fazer ouvir a sua voz”, reforçou.

É neste sentido que o representante sustenta que as Nações Unidas, “um fórum indispensável para um multilateralismo renovado e reformulado”, e os valores da Carta fundadora da organização septuagenária têm um papel importante a desempenhar.

“É evidente que os governos já não são os únicos atores na esfera internacional. Precisamos de um multilateralismo inclusivo que dê oportunidade a outras vozes, do setor privado à sociedade civil e, em particular, aos jovens. As Nações Unidas são a única instituição onde todas as pessoas do mundo estão representadas e têm voz”, defendeu.

Em funções há quase quatro anos, o secretário-geral da ONU destacou que promoveu “uma ambiciosa agenda de reforma interna”, desde a manutenção da paz até ao sistema de desenvolvimento das Nações Unidas, no sentido de adequar “a organização ao século XXI” e “responder melhor às necessidades das pessoas e dos governos em todo o mundo”.

“Continuaremos a aperfeiçoar e a fortalecer essas reformas”, referiu o representante, indicando, contudo, que a reforma de instituições com a dimensão e complexidade das Nações Unidas “nunca está completa”.

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