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Habitação vai estar em foco na segunda mesa do Observatório do Imobiliário

Preços da habitação, carga fiscal, o papel do Estado e a urgência do mercado de arrendamento. Estes foram os temas dominantes da segunda mesa do Observatório do Imobiliário, que reuniu quatro vozes de referência do setor Telmo Azevedo (JLL), Aniceto Viegas (Avenue), Paulo Caiado (APEMIP) e Paulo Jervell (Openbook) para uma mesa-redonda centrada nos desafios do mercado
5 Dezembro 2025, 09h35

Como responder à crise habitacional? Esta é a questão que condicionou todas as intervenções da segunda mesa do Observatório do Imobiliário, que regressou com uma mesa-redonda que reuniu Telmo Azevedo, Head of Residential da JLL; Aniceto Viegas, CEO da Avenue; Paulo Caiado, presidente da APEMIP; e Paulo Jervell, Partner e cofundador da Openbook, numa conversa orientada para os fatores que moldaram o setor em 2025.

Logo no arranque do debate, os intervenientes destacaram a escalada dos preços da habitação, sublinhando que a pressão sobre a oferta continua a ser o principal motor da valorização. Telmo Azevedo reforçou que “a procura estabilizou, mas a oferta nova está muito aquém do necessário”, observando que a dificuldade em desenvolver projetos, agravada pela carga fiscal e pelos custos de construção, impede o equilíbrio do mercado.

A preocupação com a oferta não se limita aos grandes centros urbanos: os oradores alertaram que também cidades de média dimensão enfrentam hoje um crescimento acelerado da procura sem resposta equivalente da construção nova. A convergência de fatores como a escassez de mão de obra especializada, a lentidão dos processos de licenciamento e as restrições urbanísticas contribui para que a capacidade produtiva continue a ficar atrás das necessidades reais do país. Muitos promotores, acrescentou o painel, adiam decisões de investimento por receio da volatilidade legislativa ou por não conseguirem estimar a rentabilidade futura dos projetos.

Entre esses fatores, o IVA aplicado à construção foi um dos temas centrais. Aniceto Viegas defendeu que “manter uma taxa elevada num setor com tão grande impacto social é contraproducente”, indicando que uma redução seletiva do IVA poderia viabilizar mais projetos, sobretudo em segmentos onde a procura é estrutural. Para o CEO da Avenue, a simplificação fiscal e regulatória é hoje tão importante quanto o financiamento. Viegas recordou ainda que noutros países europeus existem modelos diferenciados de IVA para habitação acessível que contribuem para dinamizar a criação de produto destinado à classe média, algo que Portugal ainda não conseguiu concretizar de forma consistente.

O debate estendeu-se também ao agravamento do IMT, um imposto que os participantes consideram desajustado face à realidade atual. Paulo Caiado salientou que “o IMT tornou a compra mais pesada e afastou muitos agregados que já estavam no limite”. O presidente da APEMIP apontou ainda ao impacto indireto do imposto no mercado de arrendamento, uma vez que encarece a aquisição para investimento e reduz a oferta disponível. Caiado lembrou ainda que o peso fiscal acumulado IMT, IMI, IVA e outros encargos associados acaba por criar um efeito em cascata que limita não só a aquisição de primeira habitação, mas também a capacidade do setor em atrair investidores institucionais, fundamentais para escalar o mercado de arrendamento.

O papel do Estado na solução para a habitação gerou consenso: todos sublinharam que a intervenção pública deve ser mais previsível e orientada para a criação de confiança. Para Paulo Jervell, a resposta passa tanto por políticas públicas como por um urbanismo mais contemporâneo. “Se não houver visão a longo prazo, continuaremos a reagir em vez de antecipar. A habitação exige estratégia, não medidas avulsas”, afirmou. Jervell destacou ainda a importância de repensar modelos de cidade, privilegiando densificação equilibrada, diversificação de usos e habitação próxima de transportes e equipamentos, critérios que, segundo o arquiteto, continuam a ser subvalorizados nos planos urbanos.

Outro ponto essencial da discussão foi o mercado de arrendamento, hoje fragilizado por instabilidade legislativa e falta de incentivos. Os oradores alertaram que a criação de um mercado de arrendamento robusto é fundamental para garantir mobilidade, acessibilidade e equilíbrio entre oferta e procura. A previsibilidade das regras, defenderam, é determinante para atrair novos investidores e assegurar contratos duradouros. Houve ainda referência ao impacto que a redução da oferta tem na fixação de profissionais qualificados desde trabalhadores do setor tecnológico até serviços essenciais como saúde e educação que se veem muitas vezes afastados das grandes cidades por falta de opções habitacionais compatíveis com os seus rendimentos.

A mesa destacou também a necessidade de acelerar programas públicos e parcerias com privados, defendendo que o Estado deve assumir um papel de facilitador, clarificando procedimentos, desbloqueando solo urbano e promovendo modelos de colaboração estáveis. Para alguns dos intervenientes, a ausência de um pipeline estruturado de projetos de habitação acessível impede uma visão sistémica do problema e faz com que cada medida isolada tenha impacto reduzido.

A segunda mesa do Observatório do Imobiliário encerrou com uma conclusão partilhada: o setor enfrenta desafios profundos, mas há espaço para soluções eficazes se houver diálogo contínuo, estabilidade fiscal e uma política de habitação ambiciosa. A mesa-redonda reforçou que só com colaboração entre Estado, promotores, investidores e mediadores será possível responder ao que já é um dos maiores desafios sociais e económicos do país. Os oradores defenderam, por fim, que 2025 deve marcar um ponto de inflexão, com uma agenda clara para a habitação que permita devolver previsibilidade ao mercado e garantir que as próximas gerações tenham acesso a soluções adequadas, sustentáveis e economicamente viáveis.

 


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