Idade do professor pesa na capacidade de atrair para a ciência

José Brilha, professor catedrático da Universidade do Minho, alerta para o retrocesso do ensino da ciência em Portugal, mas sugere uma receita possível.

É preciso melhorar as escolas para promover o gosto e o interesse pela ciência entre os mais novos. Em conversa com o Educação Internacional, José Brilha, professor catedrático da Escola de Ciências da Universidade do Minho, onde ensina geologia, alertou para a necessidade de mudanças no sistema de escolas em Portugal. E sublinhou que, sem investimento, será difícil dar a volta à situação.

“Nos últimos anos, o investimento nas escolas foi diminuindo. Antes, financiavam-se as atividades experimental e de laboratório. Agora não”, salientou o professor, tocando num dos pontos que mais gosto dá aos mais novos pela ciência: aprender, fazendo experiências.

Longe vão os tempos do “boom da ciência” em Portugal, nos anos 2000, lembrou José Brilha por ocasião da Noite Europeia dos Investigadores, em Braga. “O professor Mariano Gago, com a iniciativa ‘Ciência Viva’, que ainda existe”, foi um exemplo do que o país pode fazer na promoção da ciência, ao estabelecer centros de divulgação científica em todo o território nacional.
O retrocesso registado desde então não se deve, contudo, ao ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor. “Sofreu das outras contingências de outros ministérios, e quando há restrições orçamentais, claro que há cortes”, defendeu José Brilha.

Apesar das dificuldades sentidas pelo sistema de ensino, o professor realçou que “a investigação científica em Portugal não é das piores a nível europeu”. Mas ainda há muito caminho a percorrer.

A qualidade dos professores que ensinam ciência nos segundo e terceiro ciclos não é posta em causa por José Brilha. “Os professores que saem das universidades para ensinarem ciência são de excelência a nível europeu”, frisou. Mas admitiu que “estão demasiado ocupados com tarefas administrativas, que acabam por ter efeitos negativos”.

A situação complica-se quando se tem em conta o envelhecimento que está a afetar a substituição de professores por gerações mais novas. Atualmente, “há poucas vagas e por isso há poucos novos professores a entrarem na carreira”, alertou José Brilha.
É um problema do sistema que depois se repercute nas salas de aula. “Quanto mais velho for o professor, menos disponibilidade física e mental terá para atrair os jovens para a ciência”, vincou, ilustrando a sua experiência: “eu sou professor de geologia porque no 12º. ano tive um professor que me fez ver a geologia de outra forma”.

O interesse pela ciência tem que ser incutido desde tenra idade nas escolas, e “tem de passar pelo desenvolvimento da atividade de laboratório nas escolas”, explicou o professor da Universidade do Minho. “É preciso rever os currículos, aumentar os recursos e dar formação contínua aos professores”, reconheceu.

Entre a população mais nova, os alunos entre os 12 e os 14 anos “são os mais interessados em ver, mexer e aprender qualquer coisa”, explicou José Brilha, que participou no dia 27 de setembro na Noite Europeia dos Investigadores, em Braga (ver caixa). O interesse está lá, uma vez que há “muitos jovens que autonomamente encontram informação científica” na internet.

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