Um passo atrás da Fed e do BCE, bancos centrais em Londres e Tóquio têm de esperar para lançar estímulos

Os bancos centrais do Japão e de Inglaterra têm reuniões esta quinta-feira e ambos têm razões para adiar novas medidas acomodatícias para combater as incertezas globais. No caso do primeiro será o aumento do IVA, enquanto no do segundo a causa do atraso será o suspeito do costume: o Brexit.

A guerra comercial entre os Estados Unidos e a China ainda não tem um vencedor claro, mas uma consequência já é visível – os principais bancos centrais vão ser obrigados a pôr a normalização da política monetária na sala de espera.

O calendário não é, no entanto uniforme. Enquanto a Reserva Federal (Fed) começou a cortar as taxas de juro em julho e o Banco Central Europeu na semana passada, o Banco de Inglaterra (BdI) e o Banco do Japão (BdJ) vão ter de fazer um compasso de espera antes de seguirem a via de novos estímulos.

Esta quinta-feira, meras horas depois de uma reunião da Fed que deverá resultar num novo corte das taxas em 25 pontos base, os analistas esperam que, em Tóquio, o governador do Banco do Japão adote uma postura de ‘esperar para ver’.  Haruhiko Kuroda deverá remeter para outubro medidas concretas como cortar a taxa de juro (-0,10% desde janeiro de 2006) ou mais um pacote de compra de ativos, o Quantitative Easing.

“Não espero que o BdJ mexa nas taxas e surpreenderia toda a gente se mexesse já”, vincou Filipe Garcia, economista da IMF – Informação de Mercados Financeiros. “Mas vai dar sinais de que vai atuar em breve e vai trabalhar mais no forward guidance“, antecipou o economista.

Do ponto de vista do desempenho da economia interna, Haruhiko Kuroda, parece não ter motivos para tomar uma decisão já, apesar da ausência de consentimento entre os membros do Policy Board. Apesar de algumas dificuldades, o setor industrial manteve-se resiliente, com o índice PMI a oscilar entre os 49 e os 50 pontos desde o início do ano, a taxa de emprego mantém-se em níveis elevados e o PIB registou um crescimento médio anualizado no primeiro semestre de 1,75%.

Na última reunião do BdJ, em julho, Kuroda disse que “iremos tomar medidas sem hesitar desde que necessário para evitar o risco de os preços perderem ímpeto”. A baixa inflação tem sido uma doença crónica da economia japonesa – entre 1999 e 2018, oscilou entre -1,73% e os 2,26%.

O BdJ deverá, no entanto, optar por esperar pela análise da subida do IVA, que entra em vigor no dia 1 de outubro e que, em conjunto com a força do mercado de trabalho, é vista como a estratégia para impulsionar a inflação.

“O BdJ deverá querer ver o impacto fiscal na economia interna antes de tomar medidas expansionistas, que passam por perspectivas para a redução das taxas de juro e eventualmente mais QE na próxima reunião de outubro”, antecipou Marco Silva, consultor em estratégia de investimentos.

Os analistas do Danske Bank relataram que, por enquanto, apesar de o BdJ não acreditar numa retoma do crescimento económico mundial e estar mais recetivo a tomar medidas expansionistas, não existe ainda um sentido de urgência para tomar uma decisão imediatamente.

“Isto indica que o BdJ esteja mais inclinado para uma postura expectante, embora o board deva estar mais dividido a partir de agora”, com alguns membros a defenderem políticas acomodatícias.

Brexit ’empata’ Banco de Inglaterra

O governador do Banco de Inglattera, Mark Carney, deverá seguir a mesma política do homólogo japonês. A incerteza mundial é um elemento comum para a tomada de decisões de ambos, mas o canadiano que lidera o banco central britânico tem pela frente um evento único cujo desfecho permanece um enigma: o Brexit.

Os analistas consultados pelo Jornal Económico são unânimes ao referir que não esperam que o Monetary Policy Committee (MPC) adote medidas após a reunião de quinta-feira.

“Seria prematuro que o BdI faça alguma coisa até 31 de outubro até porque não é certo que se saiba já o que terá de fazer depois dessa data”, frisou Filipe Garcia.

Na mesma linha, os analistas do Lloyds Bank esperam que o comité de política monetária “espere para ver e por isso esperamos um voto unânime em não alterar a política monetária”, ainda que Mark Carney tenha alertado recentemente para a subida dos riscos para a economia britânica, “numa alusão às incertezas internacionais assim como ao desenvolvimento do Brexit”.

Ligada à questão do Brexit, o BdI “tem ainda a questão da libra”, referiu Marco Silva. “Desde o voto do Brexit tem vindo a desapreciar. Em 2014, face ao dólar, estava em 1,71 e agora está nos 1,24”, explicou.

“Em termos técnicos, há a possibilidade de fazer essa reversão, fazer a libra apreciar, mas isso significaria subir as taxas de juro numa altura em que não se sabe como vai acabar o Brexit, a economia da zona euro, que é a maior importadora de produtos britânicos, está a fraquejar e, por isso, não há espaço para subir as taxas de juro”, explicou. Atualmente, a taxa de juro britânica está em 0,75%.

No caso de um Brexit desordenado após 31 de outubro, a subida das taxas de juro é um cenário que Filipe Garcia admite precisamente para valorizar a libra e diminuir a inflação. “Caso contrário, agravaria as exportações”, referiu.

 

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