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Fábricas de automóveis em risco de paragens de produção nos “próximos dias” com guerra dos chips

Construtores europeus avisam que paragem de produção paira sobre o setor. Maiores fábricas em Portugal não preveem paragens neste momento.
3 Novembro 2025, 07h00

A guerra dos chips entre os Países Baixos e a China está a provocar uma corrida aos semicondutores a nível global. A cadeia de abastecimento procura novos fornecedores e estes vasculham os seus stocks para tentar prolongar ao máximo a produção.

O episódio volta a levantar questões sobre a cadeia de abastecimento mundial do setor automóvel, pois a Nexperia é apenas o quinto maior produtor mundial de chips para o setor automóvel.

E também coloca em xeque a ação do Governo neerlandês que parece ter atuado sobre a Nexperia sob pressão do Governo de Donald Trump, prejudicando assim uma das maiores importantes indústrias europeias.

A partir de Bruxelas, os construtores automóveis europeus já deixaram o aviso: “as paragens de produção estão a dias de distância”, avisou a Associação Europeia de Construtores Automóveis (ACEA).

Pequim proibiu as exportações da Nexperia, depois do Governo neerlandês assumir o controlo desta empresa sediada nos Países Baixos, mas detida pelos chineses da Wingtech que já foram referenciados pelos EUA como um possível risco à segurança nacional.

A Nexperia fornece vários construtores automóveis, incluindo Nissan, Honda, Mercedes-Benz, BMW ou Volkswagen.

“Estamos a revirar o mundo à procura de alternativas”, disse à Reuters o presidente-executivo da Mercedes-Benz Ola Kaellenius, garantindo chips, mas para o curto prazo. Desta vez, a questão é política, não se tratando de problemas de base na cadeia de abastecimento como aconteceu durante a Covid-19 em que as marcas chegaram a demorar um ano a entregar os automóveis aos seus clientes.

A Nexperia produz chips nos Países Baixos e noutros países europeus para serem usados no setor automóvel e indústria de bens eletrónicos. Só que 70% destes chips seguem depois para a China onde são embalados para serem vendidos a distribuidores. A crise atual provocou um disparo em 10 vezes dos preços dos chips da Nexperia, cada unidade custa entre 2 a 3 yans (entre 24 a 36 cêntimos de euros).

Documentos usados em tribunal demonstram que a ação do Governo neerlandês aconteceu por pressão dos EUA depois de a Wingtech ter sido colocada numa lista de restrições de exportações, apesar de Haia ter dito publicamente que a intervenção na empresa se devia a problemas de governança.

Em 2024, foi colocada numa lista negra dos EUA e a Nexperia passou a estar abrangida por restrições nas exportações a partir deste ano devido às novas regras dos EUA.

O executivo de Haia decidiu avançar no final de setembro para bloquear a deslocação de tecnologia ou de operações da Nexperia para a China e um tribunal holandês ordenou a suspensão do CEO da empresa Zhang Xuezhen por falhas nas gestão. Em resposta, Pequim bloqueou exportações da Nexperia que deixou de conseguir vender chips aos seus clientes.

Estes chips são cruciais para ligar as baterias aos motores, para as luzes, sensores, sistemas de travagens, controladores de airbags, vidros elétricos e sistemas multimédia.

A companhia é um dos cinco maiores fornecedores globais deste tipo de chips que são considerados bastante básicos face aos chips de Inteligência Artificial (IA) da Nvidia, por exemplo. Este mercado global vale 13,5 mil milhões de dólares.

Com uma quota de mercado de 8%, fica longe da líder de mercado, a alemã Infineon Technologies (21% de quota) que conta com 800 profissionais no seu centro de serviços partilhados na Maia, distrito do Porto. Além disso, conta também com um novo centro de embalagens e testes de semicondutores nem Vila do Conde, em parceria com a americana AmkorTechnology.

Encontrar um fornecedor alternativo, pois é preciso realizar testes de compatibilidade e o processo de qualificação para um novo fornecedor demora meses.

A Nissan, a Mercedes-Benz e a GM já alertaram que a falta de chips as vai afetar. A Honda já suspendeu a produção numa fábrica no México e já começou a ajustar a produção nos EUA e no Canadá.

A Volkswagen já veio a público avisar que a falta de chips vai prejudicar as suas metas financeiras para este ano.

Para já, a marca alemã diz que tem chips suficientes para a produção na Alemanha durante esta semana, mas não descarta a paragem de produção após esta data.

Na Alemanha, um fornecedor da Volkswagen, BMW, Mercedes, Stellantis e Ford disse que vai reduzir a produção devido à falta de chips, a ZF Friedrichshafen,que emprega 8 mil trabalhadores.

Em Portugal, a Bosch Braga enviou para casa 2.500 trabalhadores que vão estar em lay-off até abril devido à falta de componentes para peças eletrônicas para fornecer construtores automóveis.

O Governo neerlandês disse esta semana que está em conversações com a China para chegar a acordo, mas não avançou previsões de tempo.

Se se prolongar o impasse, as marcas automóveis vão optar por novos fornecedores. E parece cada vez mais certo o cenário de cisão da empresa: uma unidade europeia e uma unidade chinesa.

Crise dos chips ameaça travar produção na indústria automóvel

A crise dos chips ameaça travar a produção nas fábricas automóveis nacionais, alerta a Associação Automóvel de Portugal (ACAP).

“Os construtores estão a recorrer a stocks, mas terminados os stocks poderá ser problemático”, disse ao JE o secretário-geral da ACAP, adiantando que “para já, não há informação concreta” de produção nacional a ser afetada.

“O problema começou na Holanda, começou a ter repercussões colaterais, é um componente importante para outros componentes, e vai ter repercussões ao nível de vários produtores automóveis e fabricantes de componentes”, acrescentou Helder Barata Pedro.

“Poderá haver impacto nas próximas semanas ao nível das linhas de produção. É um problema muito político, estará a ser resolvido entre os vários governos, espera-se uma resolução a todo o momento”.

Em Portugal, reforçou que “até ao momento não há indicação concreta na produção” automóvel.

Os dois maiores fabricantes nacionais afastam, neste momento, risco de paragem de produção.

A fábrica da Stellantis em Mangualde, por seu turno, disse ao JE que está a “realizar a produção planeada” e “não há nenhuma indicação de que a questão dos chips afetará a sua atividade”. Esta unidade pesa 27% na produção total automóvel a nível nacional.

Por sua vez, a Autoeuropa disse na terça-feira que a produção está garantida até ao final da próxima semana, segundo o diretor-geral Thomas Hegel Gunther, citado pela “Lusa”. A fábrica da Volkswagen em Palmela é a responsável por mais de 70% da produção automóvel no país.

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