Inovação: mais fortes mas ainda descoordenados

Urge uma estratégia nacional para a inovação que identifique o que pode dar melhores resultados tanto para a comunidade científica como para o tecido empresarial.

E eis que, no turbilhão da pandemia de Covid-19, somos bafejados com uma boa notícia: Portugal passou de “inovador moderado” a país “fortemente inovador”, de acordo com o European Innovation Scoreboard. Isto significa que reforçámos a nossa capacidade de converter em valor económico e social o conhecimento científico, tecnológico e criativo que produzimos internamente. Portugal foi, aliás, um dos cinco Estados-membros da União Europeia (UE) que mais progrediu em matéria de inovação nos últimos dois anos.

Importa sublinhar que, pelo segundo ano consecutivo, Portugal é líder numa das áreas críticas do relatório: a inovação nas pequenas e médias empresas. Ainda que, segundo o mesmo relatório europeu, o nosso país continue a pecar no capítulo das parcerias entre os sectores público e privado ao nível da I&D. As empresas e os produtores de conhecimento na esfera do Estado (universidades, instituições científicas, institutos de interface, centros de inovação, polos tecnológicos, etc.) continuam a revelar alguma dificuldade em criarem sinergias entre si, o que penaliza a competitividade do país nos sectores de elevada especialização.

Nas últimas décadas, Portugal registou avanços muito significativos na qualificação humana e o seu sistema científico desenvolve hoje mais investigação, com melhores resultados e maior repercussão internacional. Contudo, o país ainda não consegue transformar em investimento, riqueza e emprego o potencial quer do seu capital humano, quer do conhecimento científico produzido nos seus polos de investigação. E é a isto mesmo que o European Innovation Scoreboard se refere, quando aponta para um desempenho menos conseguido na cooperação entre empresas e instituições públicas produtoras de conhecimento.

As características do tecido empresarial ajudam a explicar as dificuldades nas parcerias. Em Portugal, e o relatório também o diz, são muitas as empresas que não dispõem de capital nem de grandes recursos tecnológicos para investimentos consideráveis em I&D. Acresce que, como é do conhecimento geral, o número de doutorados a trabalhar nas nossas empresas é dos mais baixos da Europa. Falta por isso quer capacidade financeira e tecnológica, quer capital humano para a realização de mais projetos comuns de I&D entre os sectores público e privado.

Da parte das instituições públicas de ensino superior, ciência e tecnologia, por seu turno, há também importantes limitações financeiras, ao mesmo tempo que se verifica um certo desfasamento entre os projetos de investigação e os problemas concretos das empresas e entre a disponibilidade temporal dos investigadores e os timings apertados do tecido empresarial para rentabilizar os investimentos em inovação. As instituições ainda não revelam a flexibilidade, a intensidade e o foco necessários para um apoio mais efetivo à economia, sendo por isso desejáveis medidas que valorizem, nas carreiras académicas, o papel dos investigadores dentro das empresas.

Estando Portugal a preparar um novo quadro comunitário de apoio, bem como o acesso ao Fundo de Recuperação Europeu, parece-me pertinente que, considerando os bons resultados mas não esquecendo as nossas persistentes debilidades, fosse gizada uma estratégia nacional para a inovação. Estratégia, essa, onde seriam definidas as guidelines para uma relação mais coordenada e sinérgica entre os diferentes atores do sistema nacional de inovação, entre os quais se incluem as empresas e as associações empresariais. Interessa saber quem faz o quê e identificar o que, em conjunto, pode dar melhores resultados tanto para a comunidade científica como para o tecido empresarial.

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