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Brasil: Divulgado áudio de procurador da Lava Jato a comemorar proibição de entrevista a Lula

O ‘site’ The Intercept revelou na terça-feira um áudio, que pertence alegadamente ao procurador da operação Lava Jato Deltan Dallagnol, em que este comemora a proibição de uma entrevista ao ex-Presidente Lula da Silva, em setembro passado.
10 Julho 2019, 07h50

“Caros, o Fux [juiz] deu uma liminar [ordem judicial provisória] suspendendo a decisão do Lewandowski [juíz] que autorizava a entrevista [a Lula], dizendo que vai ter que esperar a decisão do plenário. Agora não vamos alardear isso, não vamos falar para ninguém. Vamos manter [em segredo], ficar quieto, para evitar a divulgação o quanto possível. Porque quanto antes for divulgado, mais rápido haverá recurso do outro lado [defesa de Lula]”, declarou Dallagnol no início do ficheiro de áudio.

“O pessoal pediu para não comentarmos publicamente e deixar que a notícia surja por outros canais para evitar precipitar recurso de quem tem uma posição contrária à nossa. Mas a notícia é boa, para terminar bem a semana, depois de tantas coisas ruins. É para terminar bem o final de semana. Abraços”, comemorou o procurador da Lava Jato, em conversa com outros agentes do Ministério Público Federal.

O ficheiro de áudio, revelado pelo The Intercept, terá sido divulgado na noite de 28 de setembro do ano passado, num grupo de conversação na aplicação Telegram, e dizia respeito ao veto do Supremo Tribunal Federal (STF) ao pedido do jornal Folha de S.Paulo para entrevistar o ex-chefe de Estado Lula da Silva, preso desde abril de 2018.

Esta é a primeira vez que o portal de jornalismo de investigação liderado por Glenn Greenwald divulga um áudio, após ter começado a publicar, há precisamente um mês, mensagens de texto entre promotores e juízes brasileiros, que colocam em causa a imparcialidade da Lava Jato, a maior operação contra a corrupção do Brasil.

De acordo com o The Intercept, na manhã do dia 28 de setembro de 2018, a poucos dias das eleições presidenciais no país, a imprensa noticiou que o magistrado do STF Ricardo Lewandowski autorizara Lula a conceder uma entrevista ao jornal Folha de S.Paulo.

Logo após essa notícia, segundo o portal de jornalismo de investigação, os procuradores mostraram-se preocupados com o facto de Lula poder falar, e trataram de delinear estratégias para evitar a entrevista.

“Ando muito preocupada com uma possível volta do PT [Partido dos Trabalhadores], mas tenho rezado muito para Deus iluminar a nossa população para que um milagre nos salve”, escreveu Anna Carolina Resende, que integrava a equipa de investigação da Lava Jato, ao qual Deltan Dallagnol respondeu: “Reza sim. Precisamos como país”.

Na mesma conversa no grupo de conversação na aplicação Telegram, a procuradora Laura Tessler apontou que o direito do ex-Presidente era uma “piada” e “revoltante”, classificando as conversas reveladas como “um verdadeiro circo”.

Já o procurador Januário Paludo partilhou no grupo possíveis estratégias para impedir a entrevista de Lula.

“Plano a: tentar recurso no próprio STF, possibilidade Zero. Plano b: abrir para todos jornais fazerem a entrevista no mesmo dia. Vai ser uma zona (confusão) mas diminui a chance de a entrevista ser direcionada”, afirmou o procurador.

Procurada pelo Intercept, a Operação Lava Jato do Paraná declarou que “as supostas mensagens atribuídas a integrantes do grupo de trabalho são oriundas de crime cibernético e não puderam ter o seu contexto e veracidade verificados”.

“Diversas dessas supostas mensagens têm sido usadas, editadas ou descontextualizadas, para embasar falsas acusações que contrastam com a realidade dos factos”, afirmou a Lava Jato em comunicado.

Desde o dia 09 de junho que o The Intercept tem vindo a publicar – agora também em conjunto com outros órgãos de imprensa brasileiros – o conteúdo de mensagens que obteve de uma fonte anónima e que colocaram em causa a imparcialidade da operação Lava Jato.

Os diálogos obtidos apontam para irregularidades na operação, principalmente as mensagens trocadas entre o procurador Deltan Dallagnol e o ex-juiz e atual ministro da Justiça, Sergio Moro, e indicam que os próprios promotores da Lava Jato tinham sérias dúvidas sobre a qualidade das provas contra o ex-Presidente Lula da Silva.

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