Uma carruagem descarrilou num comboio na linha Lisboa-Algarve, esta semana, e provocou reações dos especialistas do setor e alguma indignação nas redes sociais.  Desta vez, não houve mortos nem feridos como, infelizmente, aconteceu com o elevador da Glória, em Lisboa, e, pelo que é público, a CP interveio de imediato para resolver a situação.

Este pequeno incidente é, contudo, um sinal de alarme preocupante acerca da falta de investimento na ferrovia e no material circulante e da ausência de renovação da linha do Algarve, onde continua a ser utilizada uma única linha férrea e um comboio do século passado.  A ferrovia deveria ser um bom cartão de visita e de locomoção dos turistas em território nacional, mas, infelizmente, não é.

Na segunda-feira, a CP confirmou o incidente, por volta das 16h, à saída da estação de Grândola. Segundo a mesma fonte, em causa esteve a rutura do engate entre duas composições, o que resultou na separação de carruagens. Não existem registos anteriores de uma ocorrência o que, obviamente, vai dar origem a um inquérito para apurar possíveis causas.

Quanto mais deixarmos ao abandono o interior e o Sul do país, mais o aproximamos dos extremos ideológicos devido ao constante descontentamento e à falta de esperança daquelas populações. Se o comboio não chega e ainda descarrila, não se pode culpar o maquinista, mas os sucessivos governos (de várias cores políticas) que têm demorado a decidir e a investir. Eis uma boa oportunidade para o ministro da pasta, Miguel Pinto Luz, que tem apresentado vários planos para esta área, dar agora maior atenção ao assunto e acelerar nos carris.

Em maio deste ano, o Governo definiu as prioridades estratégicas para a ferrovia: aprovou o Plano Ferroviário Nacional (PFN) assente nas ligações às principais áreas urbanas e ligações transfronteiriças em destaque; mandatou as Infraestruturas de Portugal para que promover a realização dos estudos necessários à tomada de decisão; e definiu que a PFN visa dotar o país de uma rede ferroviária impulsionadora da coesão territorial e da economia nacional.

Na mesma comunicação pública, afiançou ainda que o desenvolvimento da rede ferroviária é um fator crítico para o crescimento económico nacional. O diagnóstico está bem feito, mas é preciso agir e, de preferência, antes do final da década.

Em 2030, o nosso país vai receber o Mundial de clubes, organizado entre Portugal, Espanha e Marrocos. Os nossos vizinhos estão a avançar com gigantescos investimentos, mas por cá pouco se vê e, até esse ano, ainda não vamos ter nem novo aeroporto, nem TGV, nem tantas outras infraestruturas necessárias ao país.

Sem apostas estruturantes, estamos a matar a galinha dos ovos de ouro: o turismo. Portugal não pode perder o comboio, nem pode correr o risco de ver assistir ao descarrilar da carruagem em pleno Mundial 2030 e, aqui ao lado, contemplar os golos marcados por Espanha e Marrocos. Queremos mesmo ficar com a imagem de quem fica para trás e desatrelou?