Irão: os 40 anos da revolução que o ocidente mais temia

Em fevereiro de 1979, minado pela corrupção, pela opulência e pela excessiva proximidade ao ocidente, chegava ao fim o reinado do Xá da Pérsia. Seria substituído por um regime islamita (xiita) que este várias décadas antes de fazer a paz com o ocidente. A mesma que agora está de novo colocada em causa.

Depois de mais de um mês de protestos em crescendo de tom, a 11 de fevereiro de 1979 o regime persa do Xá Mohammad Reza Pahlevi – que regressara ao poder em 1953 com a preciosa e desinteressada ajuda da CIA – chegava ao fim com um estrondo que se foi ampliando até ecoar ensurdecedoramente em todas as principais capitais do ocidente.

Num mundo que já se tinha habituado a evoluir no sentido inverso das crises petrolíferas, a saída de um aliado ocidental do monte de barris que a Pérsia atirava todos os dias para o mercado só podia ser uma má notícia. Nos dias seguintes, os preços do petróleo nos mercados internacionais confirmaria as piores expectativas – mas esse tinha sido um dos primeiros sentidos da revolução encabeçada pelo corpo mais conservador do clero iraniano: a drenagem dos enormes lucros da produção de petróleo do país para um muito restrito grupo de multinacionais petrolíferas – com parte deles a ficarem acantonados nas contas pessoais de Reza Pahlevi, que, com a encantadora mulher, a terceira, Farah, levava uma vida pornograficamente esbanjadora.

A celebração do Império Persa que teve lugar em 12-16 outubro de 1971, considerada ainda hoje a festa mais cara alguma vez organizada no planeta – demorou 10 anos a preparar, levou 600 convidados a uma cidade construída no deserto apenas para aquele efeito e nunca ninguém conseguiu calcular o seu orçamento – havia sido, para o fundamentalismo xiita que controlava a igreja islâmica iraniana, a evidência indesmentível da predação que era o regime do Xá da Pérsia.

Para os aiatolas, os membros do clero, essa predação financeira tinha uma correspondência na sociedade iraniana: a dissolução dos costumes, a pouca influência do Islão junto de partes significativas da população e a importação dos mais dissolutos costumes ocidentais – por entre decotes, minissaias e maquiagens.

Enredado no luxo que os petrodólares lhe proporcionavam e posto em descanso pelo suporte que o ocidente e as suas armas lhe forneciam, Reza Pahlevi, tido como um líder intelectualmente mediano (para não se dizer menos), considerava o comunismo como a mais importante ameaça ao seu regime, e mesmo a única que lhe podia trazer verdadeiras dores de cabeça.

Foi por isso com espanto que viu a revolução islâmica entrar-lhe portas adentro e rapidamente incendiar os mais jovens iranianos – nomeadamente aqueles que ocupavam os lugares das universidades, ou seja, os que o regime considerava serem os mais ocidentalizados. A corrupção que alastrava no interior do regime como óleo preto fez o favor de colocar a maior parte da população ao lado do clero xiita – e do aiatola Khomeini, que recebeu esse estatuto (perito em religião) ainda na década de 1950 e desde cedo havia sido identificado como profundo crítico do regime. Em 1964 teve de se exilar, primeiro na Turquia, mais tarde no Iraque – em Najaf, de onde seria expulso por Saddam Hussein em 1978 – e depois em Neauphle-le-Château, França.

O ocidente rapidamente percebeu com o que poderia contar: petróleo mais caro, o aumento da influência do Islão como religião de Estado – e a sua contaminação para parte dos países da OPEP (criada em 1960) – a tentativa de o Irão ser uma potência regional, mais simpática com Moscovo que com Washington e o fim dos dias de sossego (algum) de Israel.

Todas as mais temerosas perspetivas viriam a confirmar-se: nos anos seguintes, o Irão, rapidamente proscrito pelo ocidente, passou a ser um dos países mais conflituosos do planeta, nomeadamente aumentando a sua capacidade bélica, que haveria de o fazer chegar à condição de potência atómica.

Como em tantas outras vertentes – que quase ninguém soube antecipar em 1989 – o fim do bloco comunista foi um momento de crescimento para o Irão: a sua influência regional cresceu na exata proporção do fim da influência do império moscovita e a mensagem islâmica ocupou muitas mentes que até aí estavam livres de qualquer tentação religiosa.

Os anos seguintes fizeram com que o nome do Irão fosse inscrito nas listas dos países mais perigosos para o ocidente, nomeadamente pela sua vontade de rearmamento. Foi nesse quadro que, para surpresa de muitos milhares de pessoas, a conexão entre o Irão e os atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos nunca teve suporte.

Como também não teve qualquer suporte a ideia – ‘vendida’ na década de 80 do século passado – segundo a qual o regime dos aiatolas seria rapidamente substituído por uma versão moderada, talvez ainda islâmica e musculada, mas mais amena para o ocidente, que, afinal, é o grande cliente do petróleo. E, como reza um dito mais ou menos cretino, o cliente tem sempre razão.

Foi preciso esperar muitos anos, mais precisamente por agosto de 2013, para o ocidente ver chegar ao poder o líder moderado, pouco dado a sucumbir aos fantasmas do ocidente e interessado em estabelecer com os países desse ocidente uma relação o mais possível não-conflituosa e tendencialmente dialogante.

A assinatura do Acordo Nuclear em 2015 – com os cinco países do Conselho de Segurança da ONU, Estados Unidos, Rússia, França, Inglaterra e China, mais a Alemanha – foi o corolário dessa lenta mas insistente alteração, que permitiu o desanuviamento das relações entre o Irão e o ocidente e de alguma forma fechar o ciclo da Guerra Fria: o conflito com o Irão era a última grande divisão que persistia desde os tempos em que Berlim foi esquartejada em quatro partes mais ou menos iguais.

Mas, contra todas as expectativas, três anos depois da assinatura desse acordo, o mundo, ou mais propriamente a relação entre o mundo e o Irão, voltou a fazer marcha-atrás: os Estados Unidos, agora liderados por Donald Trump, rasgaram o que ali foi escrito e o pequeno período de pacificação foi praticamente encerrado – e só não o foi totalmente porque os outros cinco países que colocaram a sua assinatura no documento têm feito tudo o que está ao seu alcance para que ele não morra às mãos de alguém que aparentemente tem um conhecimento da História do planeta ao nível da escolaridade básica.

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