Os juros diretores no Japão estão em máximos de 30 anos, colocando o país em contraciclo com o resto das economias mais desenvolvidas no que toca à política monetária, fruto de uma inflação persistente, embora menos expressiva e mais atrasada do que nas suas congéneres. O mercado mantém em aberto novas subidas no próximo ano e o iene será decisivo nesta equação.
Com as taxas de referência em 0,75%, a postura monetária japonesa continua a ser, pelas medidas internacionais, contida e pouco restritiva, mas, depois de anos de uma política ultra acomodatícia, taxas acima de zero ganham destaque. A inflação na economia do país do sol nascente começou a subir mais tarde do que nos EUA ou na zona euro, ajudando a explicar o desfasamento entre os bancos centrais destas regiões com o do Japão.
O indicador de preços chegou a 4% em termos homólogos em janeiro deste ano, sustentando a ideia que a economia japonesa necessitaria de uma política mais restritiva. Desde então, a taxa de referência foi aumentada em 25 pontos base (pb) duas vezes, em janeiro e na reunião mais recente, em dezembro, colocando o indicador em máximos de setembro de 1995.
O atual ciclo monetário arrancou em 2024 com a primeira subida em 17 anos, um sinal claro do conservadorismo que vinha dominando a política do banco central nipónico nos anos anteriores.
Já a inflação caiu até 2,7% em agosto, o valor mais baixo desde outubro do ano passado, voltando a subir entretanto até 2,9% em novembro. Há 44 meses que o Japão regista leituras da inflação acima do objetivo de médio prazo do banco central, ou seja, 2%, isto depois de se debater durante anos com uma tendência de deflação.
Ainda assim, os governadores do Banco do Japão (BoJ) parecem confiantes que conseguirão fazer o indicador de preços regressar ao objetivo, denotam os analistas do banco ING. A juntar a isto, o comunicado da última reunião de política monetária “sinaliza claramente que virão mais subidas, desde que o outlook do BoJ continue a materializar-se, mas o timing e magnitude das mesmas permanece uma incógnita”.
“Mas achamos que a ênfase nas taxas reais continuarem significativamente negativas indica que o BoJ considera agora que o limite inferior para a taxa neutra está acima de 1%”, completa a nota.
Apesar das subidas, o iene japonês tem sido incapaz de sustentar uma recuperação face ao dólar, que também tem revelado alguma fraqueza, e sobretudo contra o euro – arriscando tornar a inflação ainda mais persistente, via importações mais caras em termos internacionais.
A divisa nipónica desvalorizou face ao dólar após o anúncio de nova subida de 25 pb na semana passada, contrariando a lógica clássica, que sugere que taxas de juro mais altas apreciam uma moeda. Na realidade, o mercado esperava sinais mais claros do governador do BoJ, Kazuo Ueda, que haveria mais subidas no horizonte, algo que acabou por não se materializar.
Ao mesmo tempo, os títulos de dívida japoneses subiram após a reunião de política monetária, tocando máximos de 1999 na maturidade a dez anos.
Mercados avaliam
Além dos efeitos na economia real e na vida diária dos japoneses, estas subidas podem significar o fim da chamada ‘carry trade’ – em que investidores contraem dívida denominada em divisas com baixos juros para aplicar em ativos com maior rendibilidade. Ao encarecer o endividamento em ienes, muitas posições tornar-se-ão inviáveis.
A agravar esta dinâmica e o risco de efeitos mais extensos nos mercados financeiros, o crescimento japonês tem desiludido (a economia contraiu 2,3% em termos anualizados no terceiro trimestre) e os salários têm desvalorizado em termos reais, deteriorando a imagem da economia nipónica aos olhos do mercado. A chegada ao poder da primeira-ministra Sanae Takaichi, defensora de taxas baixas e políticas acomodatícias, aumentou os receios de um fim antecipado do atual ciclo de subidas, mas o custo político da crise do custo de vida abriu a porta à continuação da normalização monetária.
“Um forte interesse nas ‘carry trades’ no próximo ano e as tendências de investimento direto forte estão a manter o iene fraco, mas não excluímos novas subidas do par dólar-iene, desencadeando uma intervenção e uma subida antecipada do BoJ”, remata a nota do banco ING.
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