Portugal vive hoje um paradoxo geracional. Por um lado, temos uma juventude cada vez mais qualificada, criativa e disposta a intervir na sociedade — mas mantida à margem da vida política, social e institucional. Por outro, uma população sénior com décadas de experiência profissional e vivência comunitária, que é frequentemente tratada como um peso, um problema a gerir. Esta lógica é não só injusta, mas estruturalmente insustentável.

As políticas públicas continuam a encarar os jovens como “o futuro”, quando, na verdade, são o presente. Em vez de espaços de decisão, oferecem-lhes atividades pontuais. Em vez de responsabilidade, paternalismo e uma proteção exagerada. A exceção, neste caso, confirma a regra: o Orçamento Participativo Jovem de Cascais, onde os jovens têm efetivo poder de decisão sobre o investimento de recursos públicos, é uma experiência concreta de cidadania ativa. Não se trata de lhes pedir opiniões, trata-se de lhes dar instrumentos com a capacidade de influenciar diretamente a vida da comunidade. É esta a confiança política que falta no resto do país.

Um modelo a ser replicado a nível nacional. Comissões juvenis municipais, participação direta em conselhos de políticas públicas, financiamento de projetos liderados por jovens, e formação em liderança cívica. Não por caridade, mas por inteligência política. Nenhuma democracia amadurece sem integrar os seus jovens no centro do processo.

Mas tão grave quanto a exclusão da juventude é o desperdício colossal do nosso capital sénior. A população sénior é hoje um dos maiores desperdícios de capital humano das nossas comunidades. Temos em muitos dos nossos idosos pessoas com décadas de experiência profissional, de vivência comunitária, de saber prático. Reduzir estas pessoas a utentes de centros de dia ou candidatos a lares é politicamente pobre e socialmente inaceitável.

Enquanto países como os Países Baixos integram os seniores em conselhos de planeamento urbano ou programas educativos, e a Dinamarca aposta no seu envolvimento ativo em redes de vizinhança e iniciativas cívicas, em Portugal continuamos a tratá-los como sujeitos passivos.

A Finlândia, por exemplo, desenvolveu uma rede de apoio domiciliar altamente eficiente, que permite aos seniores permanecer nas suas casas com qualidade de vida e participação ativa nas suas comunidades. O Japão foi mais longe: em muitas cidades, os idosos prestam apoio em escolas, ensinam tradições e até lideram pequenas comissões de bairro.

Estas boas práticas mostram que os seniores não precisam de ser “ajudados”; precisam de ser integrados. Precisamos, com urgência, de um estatuto do sénior ativo — que reconheça formalmente o seu direito e capacidade de contribuir. Voluntariado sénior em escolas, bibliotecas, centros de saúde, espaços de inclusão comunitária, acompanhamento de jovens em risco. As possibilidades são infinitas, desde que exista vontade política.

Nesse sentido é necessário também criar equipas de proximidade multidisciplinares — com assistentes sociais, psicólogos, profissionais de saúde — que visitem os seniores em casa, os envolvam em projetos locais, os ajudem a manter-se autónomos. Estas políticas de integração não são apenas um imperativo ético — são uma resposta inteligente ao envelhecimento demográfico.

A verdade é que continuamos a construir uma sociedade centrada exclusivamente na faixa produtiva da população, ignorando a energia transformadora da juventude e a sabedoria consolidada dos mais velhos. Este modelo está esgotado. Não podemos continuar a excluir mais de metade da população do centro da vida social, cultural e política do país.

Participar é viver. E quando negamos a participação — seja a jovens que querem ser ouvidos, seja a seniores que ainda têm muito a ensinar — estamos a matar silenciosamente a coesão da nossa sociedade. A exclusão é cómoda para quem não quer ceder espaço, mas é um erro trágico para um país que precisa urgentemente de todos à mesa.

É tempo de fazer escolhas. Ou continuamos a gerir gerações como custos sociais, ou ousamos tratá-las como o que realmente são: ativos humanos essenciais à construção de um Portugal mais justo, mais democrático e mais digno.