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Lisboa, “capital humilde”, é menos rica do que parece

Augusto Mateus alerta para os movimentos pendulares, que inflacionam a riqueza contabilizada na região de Lisboa. E para as divisões administrativas, pensadas em fundos estruturais, que deixaram a capital com o “fillet mignon” estatístico. Ainda assim, Lisboa acabou por crescer menos do que o resto do país nos últimos 20 anos.
9 Janeiro 2026, 07h46

Será que a capital brilha tanto quanto os números fazem supor? A Grande Lisboa é a única região do país com PIB per capita superior à média europeia, tendo atingido os 128,9% em paridades de poder de compra, segundo os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística. Mas nem tudo é o que parece.

“Lisboa é uma capital humilde”, diz o economista Augusto Mateus em entrevista ao Jornal Económico. “Há regiões de capitais humildes, como é Lisboa, como é Viena, como é Berlim. E outras que são absolutamente estratosféricas em relação ao resto do país, como é Londres, como é Paris, e como são todas as regiões mais devolvidas do alargamento” europeu, aponta o antigo ministro da Economia.

Na verdade, fazendo uma comparação a 20 anos, a capital portuguesa perdeu terreno para o resto do país, tendo mesmo sido uma das regiões que menos cresceu nesse período. Enquanto Portugal, no seu conjunto, viu a riqueza produzida por habitante aumentar 79,3% entre 2005 e 2024 (para cerca de 42 mil euros), a Grande Lisboa ficou em 64,8%, de acordo com as contas do Jornal Económico, com base nos dados do INE.
Pior neste período, e por pouca margem, apenas a Península de Setúbal (62,1%) e Oeste e Vale do Tejo (62%) — região que foi ultrapassada pelo Centro e pelo Norte nestas duas décadas.

A média do país, que atingiu em 2024 cerca de 27 mil euros, subiu 79,3%, valor que não está distante do aumento registado nos Açores (80,2%), no Algarve (81,4%), no Centro (82%) e no Alentejo (82,3%).
Para Augusto Mateus, a resposta para este encurtamento de distâncias está nos fundos estruturais, que excluem Lisboa por ser a região mais desenvolvida.

“E não há compensação pelos fundos nacionais”, sublinha o economista. O problema é que “somos o país em que os fundos estruturais têm mais peso no investimento público”, ao contrário de estados-membros como a Alemanha, em que há “um equilíbrio quase total entre o orçamento nacional e os fundos estruturais”, afirma Augusto Mateus, que coordenou múltiplos estudos relacionados com o dinheiro europeu.
Além disso, também não há grande colaboração entre as regiões, sendo que “grande parte do desenvolvimento faz-se por cooperação inter-regional”, defende.

O encurtamento de distâncias face à região da capital neste período foi feito, sobretudo, na primeira década, até 2015. Na segunda metade, com pandemia pelo meio, o crescimento do PIB per capita da Grande Lisboa (55,4%) esteve quase alinhado com o do país (55,6%).

Mudanças que iludem
Augusto Mateus critica as sucessivas as alterações que têm sido feitas à divisão territorial, nomeadamente as que afetam a região da capital. “Seguiu-se um caminho de ‘fatiar’ a região Lisboa e Vale do Tejo em bocados, para que algumas partes possam ter acesso aos fundos estruturais. O Vale do Tejo não tem nada a ver com a região Centro, do ponto de vista da sua estruturação”, mas foi essa a divisão (em NUTS II) que entrou em vigor em 2024. “Como ficou fora da região a que pertence, que é a região de Lisboa, o PIB per capita baixou e continuou a ser elegível para fundos estruturais”.

“Lisboa deixou de ser elegível para acesso aos fundos estruturais em pleno no final do ciclo de programação 2000-2006. A partir daí, a história mudou em Portugal, porque a Península de Setúbal, o Oeste e o Vale do Tejo passaram a estar integrados em diferentes regiões”, separados da região de Lisboa, lembra Augusto Mateus.

A suposta redução das disparidades é, por isso, “um bocadinho perversa, porque é sem convergência”. O economista exemplifica: “Um professor tem dois alunos com nota 18 e vários alunos com 10 a 12 valores. Como é que fazemos coesão da forma mais estúpida possível? Mandamos embora os alunos que têm 18. E, portanto, ficamos com uma coisa muito coesa”.

O desafio, diz, “não é mandar embora os alunos dos 18, é transformar os alunos de 11 e de 12 em alunos de 18. E é uma coisa que dá mais trabalho”.

É, aliás, um paradoxo na Europa: “Onde há convergência, não há coesão; onde há coesão, não há convergência”. Os países do alargamento, como Polónia, República Checa, Hungria, Eslovénia ou Eslováquia “têm uma forte convergência, portanto, o PIB per capita em paridades de poder de compra do país cresceu significativamente — mas de forma extremamente desigual do ponto de vista interno. Verdadeiramente, é a região de Praga e não a Chéquia que está a convergir, porque o resto da Chéquia não converge, anda para trás”. Depois há outros países como os do Sul da Europa — Portugal, Espanha, Itália e Grécia — “onde há um aumento da coesão, as diferenças entre regiões são menores, mas não tem convergência, ou seja, no contexto europeu não progridem”.

Os movimentos pendulares
A leitura sobre PIB per capita é ainda prejudicada pelos movimentos pendulares de quem vive fora de Lisboa mas deixa lá a produção do trabalho todos os dias.

Para Augusto Mateus, devia “haver duas regiões metropolitanas completas” em Lisboa e no Porto, porque qualquer região metropolitana “é complexa, tem os movimentos pendulares que são muito importantes” — e que no caso da Península de Setúbal” são fortíssimos. A região, que inclui toda a margem sul do Tejo, tem muitos milhares de pessoas a atravessar o rio para trabalhar, “o que significa que se contabiliza em Lisboa grande parte da riqueza produzida pela população da Península de Setúbal”. Esta força de trabalho “puxa para cima o PIB per capita da região de Lisboa”, sendo contabilizada como população na região onde dorme — e onde “o PIB aparece diminuído”. O mesmo se aplica, em menor dimensão, aos movimentos pendulares do Oeste ou do Vale do Tejo, por exemplo. “Estamos a partir as regiões aos bocados, perdendo a sua coerência”, lamenta Augusto Mateus.

“Há uma classificação administrativa muito imperfeita, muito mal pensada, e desenvolvida nos últimos tempos muito a pensar no acesso aos fundos estruturais”, critica. “As regiões não se fazem para ter acesso aos fundos estruturais. Fazem-se por características de homogeneidade interna”.

Norte e Madeira lideram a 20 anos
As regiões que maiores distâncias encurtaram face à Grande Lisboa nas últimas duas décadas foram o Norte e a Madeira. No primeiro caso, quase duplicou o PIB per capita em duas décadas (95,9%), apesar de ainda hoje ser uma das regiões mais empobrecidas do país.

Augusto Mateus salienta, no entanto, que os números não mostram toda a realidade. “O Norte é uma região sem coerência do ponto de vista estatístico: a área metropolitana do Porto é uma região desenvolvida, o Minho é uma região com um nível de desenvolvimento mais baixo e depois Trás-os-Montes e Alto Douro é muito pouco desenvolvida”, afirma o economista.

Já a Região Autónoma da Madeira teve um aumento de 91,8% em duas décadas, sendo hoje a terceira com o nível de PIB per capita mais elevado do país, muito próxima do Algarve. O turismo tem aumentado na região e terá o seu contributo para o PIB per capita, mas Augusto Mateus ressalva que estes números, “em grande parte, são um efeito estatístico”. É que a região da Madeira tem a zona franca, “que torna a diferença entre o PIB (Produto Interno Bruto) e o PNB (Produto Nacional Bruto) a maior em Portugal”.

Augusto Mateus dá o exemplo da Irlanda, cuja riqueza produzida por habitante é das mais elevados da Europa, mas, “na prática, porque usa o PIB” — a produção feita dentro do país, seja ou não por empresas nacionais. “Grande parte da riqueza produzida na Irlanda retorna aos Estados Unidos, às empresas norte-americanas. O CEO da Microsoft tem um papel decisivo na evolução do PIB da Irlanda, porque é a decisão interna da contabilidade da Microsoft que decide se todo o volume de negócios feitos pela Microsoft na Europa é maior ou menor, se se fazem mais transferências pós-produção de riqueza ou pré-produção de riqueza e, portanto, são decisões internas em gigantes como a Microsoft que afetam um país pequeno como a Irlanda. Se fizermos as contas não ao PIB mas ao PNB — que é o PIB pós-acerto de contas — temos a Irlanda no sítio certo, porque a Irlanda é um país de desenvolvimento intermédio na União Europeia. O mesmo se aplica à Madeira, diz Augusto Mateus, tendo em conta a natureza da zona franca.
De acordo com os dados do INE, a Madeira alcançou 88,3% da média europeia em 2024 e o Algarve alcançou 89,2%. Num patamar abaixo, estavam os Açores (72,5%), o Norte (70,8%) e o Centro (70,7%). Oeste e Vale do Tejo (64,6%) e a Península de Setúbal (55,4%) tinham os níveis mais baixos.


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