Lítio: o novo ouro?

Garantindo o respeito pelas normas ambientais, a indústria do lítio deve ser considerada estratégica para Portugal. Isto pressupõe a criação de condições para o investimento em toda a cadeia de valor.

Em entrevista ao ECO, o vice-presidente da Comissão Europeia responsável pela União Energética, Maroš Šefčovič, defendeu que o “lítio poderá ser o novo ouro” de Portugal. Para este responsável europeu, “há uma forte oportunidade para este negócio [de extração de lítio] quando vemos a procura de baterias na Europa. E tenho a certeza de que Portugal tirará vantagem disso”. O nosso país é já o 5.º maior produtor global de lítio, tem a maior mina da Europa (na Guarda) e está no top 10 mundial de reservas deste metal.

Acontece que o lítio extraído em Portugal se destina sobretudo à indústria da cerâmica, não tendo ainda aplicação direta no fabrico de baterias. Ora, uma das maiores potencialidades de negócio do lítio é justamente o fabrico de baterias, considerando a necessidade de armazenar energia para uso nos veículos elétricos e híbridos, nos aparelhos eletrónicos portáteis, nas habitações inteligentes…

Enfim, há um conjunto de setores em que as baterias de lítio são essenciais para aumentar a autonomia e eficiência energética, melhorar a mobilidade e portabilidade tecnológica e reduzir o consumo de combustíveis fósseis. Trata-se de setores que estão a moldar o nosso modo de vida e que vão ter um grande impacto no nosso futuro, como se vê pelo crescimento da locomoção elétrica ou pela omnipresença dos gadgets eletrónicos.

Acresce que Portugal tem recursos naturais mas também know-how e tecnologia, em particular na sua indústria automóvel, para cobrir todo o ciclo de produção de baterias, desde a extração de lítio ao fabrico destes dispositivos de armazenamento de energia. O nosso país pode de facto desenvolver um cluster em torno das baterias de lítio e ser competitivo neste setor, designadamente pela sua proximidade aos mercados europeus, ao contrário de competidores como a China, Chile, Austrália e Argentina. Recordo que a Renault-Nissan chegou a ter prevista uma fábrica de baterias para carros elétricos em Aveiro, mas cancelou o projeto por já dispor de quatro unidades industriais com esse fim noutros países.

Garantindo o respeito pelas normas ambientais, a indústria do lítio deve ser considerada estratégica para Portugal. Isto pressupõe a criação de condições para o investimento em toda a cadeia de valor do lítio, desde a extração mineira ao desenvolvimento tecnológico. Tanto mais que há, como refere Maroš Šefčovič, uma estratégia europeia para aumentar a oferta de soluções “limpas” de mobilidade. Estratégia, essa, que passa por dar meios de financiamento, nomeadamente do BEI, para a extração e refinação de lítio na Europa, de forma a reduzir a sua importação.

Portugal deve aproveitar esta janela de oportunidade e potenciar as suas reservas de lítio. Até porque a indústria mineira não tem hoje o impacto ambiental e social que tinha no passado, sendo certo também que, ao impulsionar a produção de baterias de lítio, estamos a contribuir para um estilo de vida e um modelo económico mais sustentáveis.

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