Livro: “Na Planície das Serpentes”

Paul Theroux percorre toda a extensão da fronteira EUA-México e depois mergulha profundamente no interior desse imenso país para ver além das notícias monotemáticas e pouco atentas que lhe chegam do vizinho do sul.

 

Com o aproximar das eleições nos Estados Unidos da América, que terão lugar a 3 de novembro e cujo desfecho se anuncia particularmente incerto, entre birras, ameaças e Covid-19, este é o tipo de livro que ajuda a pensar sobre a mais recente história deste imenso país, tão plural, tão desigual e tão fascinante.

Paul Theroux é uma das maiores referências da literatura de viagem e ”Na Planície das Serpentes” – agora publicado em português pela Quetzal, a sua editora de sempre – regressa aos seus temas clássicos, desta vez muito perto de casa, mas ao mesmo tempo tão longe: no México, a terra de todas as aventuras e de todos os sonhos.

Para os ocidentais, o México representa um misto ambíguo de referências. Por um lado, é associado à terra da liberdade – foi o país procurado pelos foragidos e pelos aventureiros, pelos escritores europeus (recorde-se a Guerra Civil de Espanha) e americanos e pelos viajantes em busca de exotismo (recorde-se o divertido e desconcertante relato de viagem de Sybille Bedfrod, “A Visit to Don Otavio”, infelizmente sem edição portuguesa), pacificação ou emoções fortes (Malcolm Lowry, autor de “Debaixo do Vulcão” e o mescal, por exemplo).

Na perspetiva de um norte-americano, o México é o mapa da literatura, do cinema, da música e do gosto de viver e de viajar. Para outros, será um destino de praia ou de viagem cultural, dado o seu notável património histórico, em particular o pré-colombiano.

Paul Theroux percorre toda a extensão da fronteira EUA-México e depois mergulha profundamente no interior, nas estradas secundárias de Chiapas e Oaxaca, vai a Monterrey e a Veracruz para descobrir um mundo escondido por detrás da brutalidade e da violência das manchetes dos jornais e das histórias dos cartéis da droga, que devem ser das poucas notícias que chegam ao norte sobre o seu o vizinho do sul. Por cá também não é muito diferente, já que a informação tende a ser monotemática e pouco atenta ao que se passa no mundo.

No deserto de Sonora ou nas grandes pirâmides das civilizações maia ou tolteca, nas cidades modernas ou nas que conservam a beleza da arquitetura colonial, Theroux descobre um país grandioso e cheio de história. Ou não fosse o México pátria de tantos grandes escritores (Juan Rulfo e o poeta Octavio Paz, entre outros) e artistas (como Frida Khalo e Diego Rivera – que acolheram Trotski no seu exílio final), do revolucionário Emiliano Zapata e dos atores Anthony Quinn e Cantinflas.

Como complemento, para alargar as vistas, (re)leia-se “Viva México”, de Alexandra Lucas Coelho, e “El Rumor de la Frontera”, do jornalista espanhol Alfonso Armada.

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